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Lia Assumpção

Nova economia do plástico

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

13/09/2020 04h00

Vi uma sacola de plástico sendo arremessada pela janela do carro à minha frente. Quando ela caiu no chão, rolaram pela estrada duas garrafinhas de plástico e talvez uns guardanapos de papel, não deu pra ver direito. Essa cena era bem comum quando eu era criança (naquele tempo que eu ia deitada no banco de trás do carro sem cinto de segurança). Minha mãe mesmo talvez tenha jogado alguma bituca de cigarro pela janela do nosso carro. Mas engraçado como a cena ficou deslocada no tempo quando vi a sacola voando pela janela. Ainda mais porque era uma estrada com um monte de árvores por todos os lados.

Me parece um tanto agressivo o descaso da ação. Em outras situações como essa, já me peguei formulando frases do tipo "acho que você deixou cair essa sacola pela janela" (adicionar um tom irônico-raivoso em sua leitura). Ou um pensamento de que talvez a pessoa nunca tenha entrado em contato com esse assunto na vida, então seria o caso de lançar alguns números a respeito de lixo/plástico/reciclagem para pessoa pensar. Mas será mesmo possível que hoje, alguém nunca tenha entrado em contato com esse assunto?

Enfim, acabo sempre num lugar de que cada um cuida da sua vida e não vou ficar ali me metendo na vida de ninguém, ainda que a sacolinha lançada da janela, de uma certa maneira, se meta na minha.

Me lembrei de uma cena de quando ainda não tinha filho. A criança de uns 4 ou 5 anos acabou o sorvete e jogou o papel no chão e seguiu caminhando ao lado da mãe. Já me preparei para a indignação quando fui surpreendida por uma cena que utilizei mais tarde, na minha vida com filhos. A mãe da criança agachou ao lado dela e explicou calmamente que alguém iria ter que pegar aquilo do chão. Alguém que não tinha tomado aquele sorvete gostoso. E acho que vieram algumas perguntas do tipo se a garotinha achava aquilo correto ou não. Acho que teve alguma parte em que ela disse "e imagina se todo mundo jogar tudo no chão, como é que vai ficar? Imagina quanta gente passa aqui?"… O que me chamou a atenção foi que ela não precisou dizer para a menina pegar o papel do chão e jogar no lixo, coisa que aconteceu logo a seguir. Pode ser que ela tenha entendido também que a mãe ficaria brava se ela não o fizesse. Mas acabei entendendo desta maneira mais educativa (e consciente, por que não?) porque não teve grito, nem ameaça e nem nada parecido com "se você não pegar AGORA aquele papel do chão…" Elas conversaram e eu, olhando de longe, concluí que a garotinha entendeu que aquilo não era muito bom e agiu da forma correta; ela não apenas segui o comando da mãe.

Peguei o título da coluna emprestado de uma iniciativa inglesa que, como o próprio nome sugere, pretende olhar para o plástico com um olhar, digamos, contemporâneo. Com isso, quero dizer que é preciso olhar para este material não como nosso inimigo supremo mas como um mal necessário (nem sempre mal, é verdade) com o qual devemos aprender a conviver em harmonia, na medida do possível. E este projeto/união/iniciativa/pacto está aí com esse propósito. Lidar com o plástico de uma maneira nova.

As ações-chave da Nova Economia do Plástico são: ELIMINAR os plásticos que não precisamos; INOVAR para assegurar que os plásticos que necessitamos sejam reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis; CIRCULAR todos os plásticos que usamos para que eles permaneçam na economia e não no meio ambiente. A ideia é fomentar ações em indústrias e governos para que novas políticas e tecnologias sejam introduzidas em prol destas três ações listadas acima. Em prol de repensar o uso do plástico na etapa de produção, uso e pós consumo. Então, para isso tudo dar certo, a adesão dos cidadãos é parte decisiva da empreitada e o consumo consciente é uma ferramenta importante. Porque não adianta muito a empresa desenvolver toda uma logística de pegar de volta embalagens usadas se você não faz o descarte correto das suas. Assim como não adianta nada ela se preocupar em usar materiais recicláveis e/ou reciclados, se você não separa lixo na sua casa.

Tinha lido a respeito desta nova economia pouco antes de pegar o carro e ver o motorista da frente arremessar a sacolinha pela janela. E, ao invés de começar a construir a frase irônico agressiva que mais uma vez não chegaria a falar, fiquei com esse contraste de posições. A estranha sensação de que tem um monte de gente comprometida com o tema do plástico e se desdobrando pra pensar no lixo todo que geramos. Mas tem ainda muita gente alheia à esse problema. Como esse amigo (ou amiga) do carro da frente que, por desconhecimento ou descaso, parece não encarar o problema como dele. Como será que faz pra todo mundo se filiar à essa nova economia do plástico? Se tem um grupo de empresas buscando uma maneira de se responsabilizar pelos seus resíduos, não deveríamos nós todos também fazer o mesmo?

Fico pensando se a menininha que pegou a embalagem do chão cresceu uma consumidora consciente. Se ela faz parte dessa nova economia do plástico ou se era ela quem estava no carro da frente e arremessou a sacola pela janela… Ou talvez ainda, sem tanto maniqueísmo, se lá na vida dela ela simplesmente se compromete com seu próprio lixo: não jogando ele na rua e fazendo uma separação correta na sua casa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Lia Assumpção