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Lia Assumpção

Menos é melhor

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

19/07/2020 04h00

Essa é a máxima de um dos ícones do design de produtos, Dieter Rams, que desenhou os eletrodomésticos e móveis na década de 1960 e 1970 que marcaram a história do design. O iPod, produto icônico precursor do iPhone, e todos os smartphones que temos em nossas mãos hoje, tem um desenho que remete diretamente ao rádio T3, desenhado por ele.

Talvez você já tenha ouvido falar em "menos é mais". Talvez até tenha pensado que eu errei o título desta coluna. Na verdade, "menos é mais" é a frase que originou essa do título. "Menos é melhor" é, digamos, sua evolução. Apesar de ouvirmos a frase original aplicada a muitas coisas por aí, sua carreira teve início no mundo do design mesmo. "Menos é mais" era um dos, digamos, mandamentos da primeira escola de design do mundo, a Bauhaus (1919), que influenciou (e influencia ainda) todo esse campo. Outro "mandamento" importante da Bauhaus é "a forma segue a função". Isso quer dizer que tudo o que consta em um produto, tem uma função; nada é acessório, decorativo ou aleatório (vale dizer que essa escola foi inaugurada em 1919, período em que ornamentos estavam com tudo).

Dieter Rams é considerado também o herdeiro desses conceitos todos da Bauhaus. Em uma de suas falas no documentário "Rams", ele conta que se considera o inventor do walkman na década de 1960, mesmo que walkmans só tenham sido introduzidos no mercado quase vinte anos mais tarde, tornando portáteis toca fitas e rádio ao mesmo tempo. O walkman de Rams, tocava vinis e tinha um rádio acoplado, de maneira que você pudesse separar o rádio da vitrola, caso assim desejasse.

E vale aqui um parágrafo parêntesis, que foge um pouco do tema, pra contar que ele desafiou a equipe de engenheiros a desenvolver um mecanismo que tocasse o disco de vinil por baixo. Tá lembrado da vitrola? Você coloca a agulha por cima e ela vai ali "navegando" pelas ondas do disco. É necessário que ela tenha uma certa leveza e molejo para acompanhar as variações do disco que não é super plano. E é um pouco inimaginável fazer isso por baixo dele…; mas com um sistema de pesos, que acontece por baixo do disco, isso aconteceu. E ele desenhou esse equipamento muito lindo e que permitia as pessoas levarem seus discos e músicas pra passearem. E esse mecanismo depois, também permitiu que ele desenhasse equipamentos na parede pra não ocupar espaço na sua casa.

Tudo isso pra contar que esse designer — que hoje tem 80 anos, mora na Alemanha em uma casa repleta de equipamentos e móveis desenhados por ele mesmo e cuida minunciosamente de seus bonsais — tinha, na década de 60, uma visão muito parecida com a que estamos precisando, retomando ou buscando, hoje. Ele introduziu uma ideia de desenvolvimento sustentável quando sustentável nem era um conceito, como hoje. Ao questionar-se sobre a qualidade de seu trabalho, acabou por estipular 10 princípios norteadores, dos quais destaco alguns. Para Rams, um bom design é discreto, honesto, durável e ambientalmente correto.

De uma maneira geral, isso tudo quer dizer que os produtos com um bom design deveriam ser atemporais (esse desenho discreto com tudo muito funcional ajuda nesse sentido) e sem excessos, pois isso diminui a quantidade de coisas que podem dar defeito, aumentando sua durabilidade e tornando-os, consequentemente, mais sustentáveis. A honestidade do produto está em você não prometer inovações estéticas no lugar de inovações significativas (já viu esses produtos que dizem-se ultra inovadores mas que, se olhar com atenção, vai ver que tem só uma corzinha nova, ou um botão que mudou de lugar? É dessa desonestidade que ele fala).

Além disso, outra obsessão sua é que o desenho falasse por si só, dispensando manuais; você sabe onde liga e desliga intuitivamente, sabe como limpar, montar e desmontar com facilidade. Isso evita quebras por conta de um manuseio errado, por exemplo. E estimula um cuidado e bom uso que lá na frente, evitarão um descarte. Talvez você tenha vivenciado dificuldades com produtos e manuais na sua casa durante essa quarentena — ou talvez antes dela mesmo — enfrentando dificuldades para limpar o filtro do aspirador de pó, por exemplo… Talvez tenha até dado uma olhada nos preços e condições de pagamento pra comprar um liquidificador novo, já que o copo do seu quebrou num encaixe desajeitado… É isso que Rams quer evitar quando diz que o design tem que "falar". Para ilustrar um pouco a pertinência do que ele propunha.

Apesar de ter mencionado no começo deste texto, que o desenho do ipod foi influenciado pelo de Rams, vale completar que foi só o desenho mesmo, porque toda a ideia de design contida no T3, se esvazia no ipod. A rápida obsolescência e o impacto ambiental desses dispositivos (e desse especificamente, que era todo soldado e tinha uma vida útil muito pequena, fazendo com que em pouco tempo você tivesse que trocar o produto todo por não conseguir carrega-lo mais) são muito diferentes do design duradouro almejado por Rams. Isso ilustra também a compreensão que se tem sobre design hoje, que é muitas vezes associado somente à questões estéticas de produtos e não mais a questões estruturais e sistêmicas, sua finalidade original. Isso porque o consumo hoje também tem muito desse apelo estético para manter vendas frequentes, que marca o esse compra-usa-descarta-compra-usa-descarta-pra sempre em que vivemos. O trabalho desse designer nos mostra que não foi sempre assim.

O bom design é o menos design possível. Esse é o último dos 10 princípios de Rams: "Menos, mas melhor, porque se concentra nos aspectos essenciais e os produtos não são sobrecarregados com itens não essenciais." Para ele, isso não é uma restrição mas uma vantagem, pois nos dá mais espaço para a vida real. Menos produtos, mas melhores. Isso serve para o design, mas também para um consumo mais inteligente e consciente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Lia Assumpção