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O perigo da história única

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

07/06/2020 04h00

Li aqui em Ecoa um texto que me alertou para a importância das lives que a Anitta tem feito nesse últimos tempos. No início da conversa que assisti entre a Anitta e a advogada Gabriela Prioli, elas falam sobre a origem da República; a ideia da substituição de um regime em que o poder se concentra nas mãos de um rei (soberano, enviado de Deus) por outro, em que ele é dividido (entre os poderes que conhecemos como Legislativo, Executivo e Judiciário). A ideia principal dessa divisão é evitar abusos, além de inaugurar a participação popular, uma vez que quem ocupa os poderes é eleito pelo povo. Na conversa, elas destrincham essa organização dos poderes e como eles se relacionam; explicando um pouco o caminho, desde o presidente, até chegar em nós, eu e você.

Essa ideia muito fundamental de democracia e de república se perde em notícias sobre política, que muita gente lê e não entende. A conversa entre Anita e Gabriela é corajosa e generosa, pois elas estão ali compartilhando conhecimentos e dúvidas para que pessoas sejam não só capazes de entender, como também de ler as diferentes histórias contadas no noticiário. Elas estão dizendo que todos temos o direito de entender o que acontece, porque isso está ligado a todos nós, cidadãos. Estão também afirmando que não existe uma única maneira de ler aquilo que aparece no noticiário: não existe uma história única e a origem das histórias importa.

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie tem uma palestra na internet — que foi onde peguei emprestado o título desta coluna — em que nos alerta para o perigo da história única. Ela conta que foi uma escritora precoce e que seus primeiros livros, escritos aos 7 anos, tinham personagens loiros de olhos azuis que brincavam na neve, comiam maçãs e conversavam sobre o tempo, mesmo que ela, uma criança negra, nunca tivesse visto neve, comesse maçãs e não falasse sobre o tempo. Isso porque livros estrangeiros eram mais comuns na sua cidade do que africanos e ela passou sua primeira infância lendo histórias americanas ou britânicas.

Assim, Adchie cresceu com a ideia de que livros deveriam, necessariamente, ser sobre coisas e personagens com os quais ela não se identificava. Isso mudou quando ela passou a ter acesso a livros africanos, com personagens e histórias identificados com ela. Ela gostava dos livros estrangeiros porque abriam um novo mundo, mas os africanos a salvaram de uma história única sobre livros propriamente ditos (não, eles não precisariam ser sobre coisas com as quais ela não se identificava).

"A história única cria estereótipos e o problema com estereótipos não é que eles não sejam mentira, mas é que eles são incompletos. Eles fazem com que uma história torne-se a única história. Enfatiza nossas diferenças ao invés de enfatizar nossas semelhanças."

As lives de Anitta abrem uma porta para sairmos do estereótipo de que entender política é difícil ou de que "não fazemos parte disso". Nos une em nossas semelhanças como cidadãos, maiores do que nossas diferenças sociais, raciais ou de gênero. Elas podem ter o papel, de uma certa maneira, dos livros africanos na vida da escritora nigeriana que cresceu lendo histórias americanas.

E o que isso tem a ver com consumo, que é o tema desta coluna? Nada. E tudo. O consumo é uma das manifestações da nossa vida em sociedade, ele é, de certa forma, político. Consumo consciente tem a ver com conhecimento. De onde vem o que consumimos e qual impacto isso tem no mundo; como é esse jogo entre o individual e o coletivo. Estamos sendo metralhados com a informação de que nossa sociedade está organizada em torno de um capitalismo que não dá mais pé, que favorece poucos em detrimento da exploração e empobrecimento de muitos. Podemos seguir achando que a vida é assim e replicar o modelo. Ou procurar outras histórias que nos apontem para novos caminhos. Temos que fazer perguntas, assim como as que a Anitta faz para a Gabriela.

Lia Assumpção