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Todo mundo tem que ter direito a comer uma comida saudável

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

31/05/2020 04h00

Eu compro orgânicos do seu Joaquim. Sempre que tento indicar legumes para algum amigo interessado, ele diz que não é para passar o contato porque não consegue incluir mais ninguém na lista de entregas. Atualmente, as compras são todas por mensagem de texto, mas logo que comecei a comprar dele, há uns 3 anos, ligava lá na terça-feira à noite para montar uma cesta com 8 itens que seriam entregues na quarta-feira. Quem atendia o telefone e me contava o que tinha e o que não tinha era a mulher dele; além de me ensinar como cozinhar e guardar broto de bambu, rolava sempre uns destaques, tipo: "a abobrinha está linda" ou mesmo "as folhas não estão muito boas, então estamos mandando um pé de alface a mais para compensar".

Uma das vezes que liguei foi o seu Joaquim que atendeu e conversamos um pouco.

Queria muito entender como era o esquema dele, quantas pessoas trabalhavam, quantas cestas ele vendia e porque mesmo ele não queria que eu indicasse novos clientes. Queria bolar ali com ele um plano de dominar o mundo com comidas saudáveis, mas ele, disposto a responder minha chuva de perguntas, me contou que era um esquema familiar e que estava bem daquele jeito. Perguntei se o gargalo era na entrega ou na colheita e ele disse que tinha ali um esquema meio harmônico entre o que produzia e o que entregava, não queria mexer nos custos principalmente para não subir o valor da cesta porque "todo mundo tem que ter direito a comer uma comida saudável".

Ouvi o Marcos Palmeira falando algo parecido uma vez; apesar de ele ser ator, tem uma fazenda de orgânicos e pegou um pouco pra si essa missão de difundir e disponibilizar uma comida mais saudável. Nessa entrevista ele diz que uma das coisas que o motivou a entrar nesse mundo foi conhecer alguém que trabalhava numa grande lavoura, mas que não comia as hortaliças produzidas ali porque "tinham veneno".

Uma das coisas que me chamou atenção para os orgânicos foi justamente essa entrevista com o Marcos Palmeira. Fiquei pensando em como é, digamos, curioso, a pessoa não comer o que planta e vender porque discorda do que é colocado ali; mas ao mesmo tempo achar que tudo bem isso ir para os mercados e um montão de gente consumir. Curioso não é bem o termo, mas não quis soar agressiva.

Enfim, a ideia aqui não é destrinchar o tema dos orgânicos, mas sim a frase do seu Joaquim, que é oposta à do moço que conversou com o Marcos Palmeira. O que me leva à associação, inicialmente descabida (que às vezes me valho por aqui), com o O experimento Milgram. Esse filme narra um experimento científico feito na década de 60 pelo cientista político, Stanley Milgram, que procurava entender aspectos da obediência.

O experimento era apresentado aos participantes como um teste para saber a real eficácia da punição no método de aprendizagem. Realizado em duplas, um fazia o papel do aluno, enquanto o outro de professor, cada um em uma sala separada. O professor vai narrando frases, e o aluno deve memorizar e repetir. A cada erro, o aluno sofre um pequeno eletrochoque começando em 15 volts e que aumenta progressivamente — de acordo com os erros —, até 450 volts. Durante o experimento, o único eletrochoque realmente aplicado é o inicial, no professor, para que ele se sinta seguro de que não machucaria o aluno. Quando o teste começa, quem responde as perguntas do professor na outra sala é, na verdade, uma gravação do aluno apresentado inicialmente; e ela é sempre a mesma para todos os que participaram do experimento. O que acontece é que o aluno (a gravação dele na verdade) começa a errar e os choques vão (teoricamente) começando a aumentar até que o suposto aluno comece a pedir para parar. E a o pesquisa sobre a obediência estava justamente nesse momento em que o aluno começa a dizer que os choques estão doendo e que ele quer parar. Apesar da aflita e recorrente inquietação dos participantes sozinhos em uma sala, são poucos os que se recusam a interrompê-lo. Entre os 40 participantes iniciais do experimento, apenas 14 pararam os choques antes de chegar ao máximo de 450 volts.

Num dos diálogos do filme, uma pessoa recebeu o choque máximo se queixa ao pesquisador, dizendo que aquilo não era ético. Ao que o pesquisador responde: mas em nenhum momento eu disse que você não podia parar a hora que você quisesse.

A conclusão desse pesquisador é que sob a proteção de algo como "eu estou seguindo ordens" as pessoas se eximem de responsabilidades e consequências. O experimento — polêmico até hoje, pelo que entendi — foi realizado outras vezes, com resultado quase sempre igual: 65% dos participantes levam o experimento até o fim.

Um pouco extremo e triste, colocar o seu Joaquim ao lado desse experimento tanto cruel, quanto aflito. Mas a associação deu-se porque acho que ainda existe muito um pensamento de "o que os olhos não veem, o coração não sente" ou mesmo de "se outros fazem, porque eu não poderia fazer?".

Carrego comigo até hoje a consciência do seu Joaquim no dia daquele telefonema. Desconfio que, se ele tivesse participado do experimento, teria saído da sala antes do fim. Pelo simples fato de que a consciência, responsabilidade e empatia dele, falariam mais alto do que sua obediência.

De certa maneira senti que ele cuidava de mim e de todos os que compram o seu alimento. De uma certa maneira, senti que ele cuidava de todos nós enquanto sociedade. Com a sua frase, ele estava dizendo que a classe social não pode determinar a qualidade do alimento e por isso o preço era crucial em seu negócio. Acho que o seu Joaquim compartilha comigo do plano de dominação do mundo com comidas saudáveis, ele só tem consciência de que não vai fazer isso sozinho. Ele também recebe escolas lá no seu sítio, acredito que dentro da área de Educação Ambiental. Mas desconfio também de que o que ele conta para as crianças vai além da disciplina em que está inserido.

Lia Assumpção