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Comida industrial

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

24/05/2020 04h00

Num passado distante assisti a um documentário que se chama "Food.inc". Sim, ele é daqueles pessimistas como um outro que veio depois chamado "Uma verdade Inconveniente". Se você não assistiu a nenhum, prepare-se psicologicamente e assista. São antigos, mas ainda valem. Lembro que no meio desse primeiro chamei meu marido para assistir junto comigo, pois desconfiava que aquilo mudaria a maneira como consumiria comida em casa. Isso porque a ideia ali era mostrar o que estava mudando na produção de alimentos; de uma escala local, para uma global. E como a produção local fica prejudicada, quando a global se expande.

Eu sou do tempo em que a picanha era uma carne nobre (não entendo porque ela caiu no esquecimento, confesso). Mas não me lembro de comer carne no almoço e no jantar quando era criança. Tudo era mais comedido. "Carne é caro", lembro minha mãe dizer. Também não lembro do tanto de variedade de bandejas de isopor na geladeira do mercado. Ok, outros tempos, mas isso tudo pra dizer que é uma mudança relativamente recente, então ainda está em tempo de rever os "efeitos colaterais".

Comer carne barata é o que faz com que ela seja muito mais presente na nossa mesa hoje e se apoie em procedimentos altamente prejudiciais à saúde. Ouvi isso em uma entrevista com o professor Ricardo Abramovay. Ele relaciona pecuária, desmatamento, aquecimento global e coronavírus. Me impressionou o dado de que 70% dos antibióticos produzidos no mundo são consumidos por animais; esses animais que são alimentos na nossa mesa.

Isso porque leis sanitárias para produção em larga escala induzem a um consumo maior de antibióticos. Os animais devem ficar confinados. Em outras palavras, para conseguir corresponder ao consumo enorme de carne hoje, o custo de produção tem que ser barateado. E esse barateamento significa deixar os bichos todos confinados numa área pequena, e como a área é muito pequena, eles estão mais suscetíveis a doenças, então, dá-lhe antibióticos preventivos ou não. Só que, como sempre, os custos não são só esses, não é mesmo? E também, como sempre, os outros custos ficam invisíveis e somos nós, consumidores, que pagamos.

Nós comemos e bebemos antibióticos sem saber, já que eles acabam indo para o solo e para a água. Então, chegam até a gente de qualquer maneira, em maior ou menor escala, você comendo carne ou não.

Lembro de uma amiga designer que desenhou uma revista para uma empresa produtora de frangos. Tava lá no infográfico lindo da revista, o número assustador de 5 milhões de frangos produzidos por dia no Brasil. Fui procurar esse número de novo para escrever essa coluna e achei ele no site da empresa, apresentado com orgulho. Tinha ali também esses comparativos imagéticos, para te ajudar a visualizar melhor esse número. No caso, 6 mil torres Eiffel (que tem 300 metros de altura) é o que daria para se visualizar caso empilhássemos todos esses franguinhos. O que faz com que em um mês esse número chegue a 168 milhões de aves. É bastante, hein?

Para baratear custos e entrar nessa lógica da alta demanda, você acaba fazendo "concessões". E o que é uma lógica ligada à natureza, pois estamos falando de animais, acaba sendo regida por uma lógica industrial. O assunto também está ligado à comercialização de bens de consumo, que tanto falo aqui, em que acabou-se adotando materiais mais baratos e menos duráveis para que eles ficassem mais acessíveis a uma parcela maior da população. Mas aí, como eles ficaram mais baratos, tem que vender mais, então eles duram menos e a gente fica com lixo por todo o lado. No caso de "produtos" ligados à alimentação, o lixo fica na gente mesmo.

E o que acaba acontecendo é que pequenos produtores, para continuarem existindo, muitas vezes aderem a lógica industrial e trabalham para grandes empresas para continuarem existindo. Ou desistem de produzir "sem fazer concessões", já que o preço não se torna competitivo.

A entrevista com o professor termina com uma reflexão: as sociedades de um mundo que caminha para 10 bilhões de habitantes vão ter que decidir se precisamos mesmo comer tanta carne. Ele também fala de todas as outras consequências do alto consumo, que vão além do que cabe aqui nesse espaço.

Eu sou aquela saudosa da picanha, como falei ali no início do texto. Não carrego aqui uma bandeira vegetariana, mas ainda que seja um desafio, venho diminuindo o consumo de carne na minha casa, procurando comprá-la também de produtores menores. Um dos mandamentos do consumo consciente é justamente esse: comprar de pequenos produtores. Assim você garante um conhecimento maior sobre o que aconteceu com aquele alimento que está comendo. Também acredito (meu lado otimista que não desiste) que se todos reduzirmos o consumo, a demanda cai, a produção cai e todos ganhamos sem seguir carnívoros ou vegetarianos. Talvez o moço que vende as muitas torres Eiffels (e os envolvidos no processo também) deixe de ganhar dinheiro, mas sua parte vem em saúde e longevidade do planeta e isso fique para os seus netos. Tá valendo, não?

Acho que quanto mais informação, mais ferramentas temos para consumir de uma maneira mais consciente; de escolher caminhos melhores para si e para o coletivo. Então, caso se interesse sobre o assunto, indico também um outro documentário (2014, mais recente!): "Resistência natura"l. Ele fala sobre vinhos, mas do ponto de vista desse embate entre pequenos produtores e a grande indústria, o que serve para a agricultura de modo geral.

Lia Assumpção