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Uma prateleira de antídotos

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Imagem: iStock
Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

03/05/2020 04h00

Uma vez vi um banco lindo em um site norte-americano. Achei mais bonito ainda quando li que era comercializado utilizando o conceito de "open source". Uma tradução livre para este conceito é "fonte aberta".

Este banco (e seu conceito) funcionava assim: você compra o desenho técnico todo detalhadinho, de maneira que pode construí-lo você mesmo ou com o marceneiro mais próximo de você. Meio trabalhoso, né? Achar um marceneiro, fazer o orçamento, decidir materiais… Sim, meio trabalhoso. Mas olha que bonitas as ideias por trás:

  1. Fica mais barato, porque o banco era norte-americano e o frete de lá pra cá custaria dinheiro e não amor;
  2. nessa economia de frete, economizaria-se também combustível e tudo que envolve o transporte desse banco como impostos e embalagens;
  3. você usa o desenho americano mas usa matéria-prima e mão de obra local, então o dinheiro fica aqui, para a pessoa que ganhou gastar aqui e não lá.

A revista "Exame" do mês passado (ano 54, nº 7) tem como manchete "A hora do novo capitalismo". Traz várias entrevistas e matérias sobre as mudanças nas empresas em tempos de Covid-19 e a eminência de um novo capitalismo. A revista traz um pouco uma ideia de que quem não se adaptar a essas novas demandas de mercado e lógicas de produção mais sustentáveis (mas o sustentável verdadeiro, não o pra inglês ver) não existirá no futuro.

Três notícias me chamaram a atenção nesses tempos de Covid-19: a dos pesquisadores da Unicamp que estão desenvolvendo um exame para detectar se a pessoa está com o vírus com matéria-prima brasileira (antes dessa pesquisa um dos reagentes é importado e está em falta, porque o mundo inteiro precisa dele). A de uma empresa de detergentes que botou de pé em 3 dias uma linha de produção de álcool gel para distribuição gratuita. E, claro, das montadoras de carro que aderiram a uma campanha de conserto de respiradores quebrados pelo Brasil.

Quando fui procurar os links para inserir aqui nesse texto, me deparei com mais um tanto de iniciativas que ainda não conhecia que extrapolariam o espaço que disponho aqui. Mas hospitais construídos em 5 dias, empresas doando sabonetes e cestas básicas, devem ser registradas em nossas mentes como prova da nossa capacidade de empatia enquanto sociedade. Pelo menos em tempos de crise.

Em todos os casos, houve a colaboração de diversos setores e pesquisadores para que as coisas acontecessem. Bom saber que quando a coisa aperta, todo mundo se ajuda, mas e se a gente invertesse a ordem e se ajudasse também para a coisa não apertar?
Para quem estuda aquecimento global, lixo, poluição, o colapso já se anuncia faz um tempo… Não é de hoje que a crise está aí, é que agora, com o vírus, ficou mais claro, certo? E que talvez com ele, os objetivos sejam mais claros: criar uma vacina, desenvolver tratamentos ou distribuir insumos. Mas vale dizer que os números dessas outras crises são tão claros como os que vemos agora.

O "open source" do primeiro parágrafo é, digamos, um dos antídotos à lógica do compra-usa-descarta. Ele também está aí há muito tempo (junto com alguns outros como logística reversa por exemplo). Mistura-se agora com novos, que surgem nesses tempos de crise e que apontam para uma mudança na maneira como produzimos, consumimos e vivemos nesse mundo.

Então tá, não vai ser sempre assim, isso tudo acontece agora que estamos aqui imersos nesse momento inédito da nossa história como humanidade. Mas, mesmo que não consigamos manter esse padrão de antecipar a crise, que possamos usar todas essas iniciativas, descobertas, invenções, modificações, ações disruptivas para fazer uma espécie de estoque de antídotos, que todos podem acessar e fazer uso, assim como uma prateleira de soluções para as mudanças que se apresentam, tornando-se real para todos.

Lia Assumpção