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Não sou engenheira

Lógica do consumo dificulta que objetos sejam facilmente consertados - Getty Images
Lógica do consumo dificulta que objetos sejam facilmente consertados Imagem: Getty Images
Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

31/03/2020 04h00

Na coluna de 8 de março, escrevi sobre alguns casos de eletrodomésticos que me remetem à lógica da obsolescência programada (nome difícil que se refere à algo bem comum e atual que é a prática de trocar produtos em vez de consertá-los por impossibilidade ou alto custo). Um dos comentários me chamou a atenção: o de um leitor que, por ser engenheiro, conserta tudo, fazendo com que a obsolescência programada não seja algo que faça parte da sua vida. Digamos que sua profissão o torna menos refém dela?

Aí mora um ponto importante dessa discussão. Em casa, apesar de ninguém ser engenheiro, desmonta-se várias coisas para consertar. Isso graças à coragem e paciência do meu marido, minha resistência à lógica do compra-usa-descarta e as noções de design. Meus filhos realmente acreditam que "o papai pode consertar tudo". Não digo que somos menos reféns da obsolescência programada, como nosso amigo engenheiro, porque tem sempre uma hora que a bateria não segura a carga por muito tempo, o software não instala mais, que a peça não existe no mercado ou que o parafuso é de uma cabeça muito específica que não encontramos para vender. E aí, somos obrigados a trocar.

Mas a coisa é: se os objetos fossem desenhados para serem passíveis de conserto (e não todo o contrário como um pouco acontece hoje), qualquer pessoa, com vontade de consertá-la, poderia fazê-lo; sendo engenheira ou não, tendo habilidades para isso ou não. Aí não seríamos todos reféns do compra-usa-descarta. E isso evitaria muitas trocas indesejadas ou desnecessárias, diminuindo o desperdício e a geração de lixo.

Na verdade, se as coisas fossem feitas para serem desmontadas, essa lógica estaria enfraquecida, pois cada um poderia decidir se quer consertar ou se prefere trocar, mas não seria induzido a trocar a cada defeito apresentado. Essa maneira de projetar e pensar produtos leva o nome de design para a desmontagem. Produtos desenhados com esse pensamento, são mais fáceis de serem consertados, pois seus materiais costumam ser justapostos e não fundidos; o que permite separá-los. Isso ajuda tanto na parte da reciclagem como na parte de conserto, pois podemos substituir partes do produto e não ele todo. Além disso, como a ideia é que cada um possa abrir, desmontar e remontar, especificidades não são bem-vindas (como a do amigo que compra lanches no fast-food por causa dos brinquedinhos que vem de brinde, mas não consegue trocar suas pilhas, pois o parafuso usado ali é fora do padrão e não existe ferramenta para isso no mercado).

Na verdade, a obsolescência programada é algo que faz parte dessa maneira de funcionar do consumo que vivemos que pode ser chamada de sociedade do descartável ou do desperdício. É algo complexo pois relaciona-se com conceitos de economia, e eu não sou engenheira e nem economista.

Mas como designer, acabo sempre imaginando maneiras de projetar e produzir coisas com uma ideia de sistema, do todo; de tentar gerar menos impacto lá no fim, pensando do começo. Como consumidora, procuro encontrar produtos que me deixem menos refém dessa lógica e, ainda que encontre dificuldades, sempre tento consertar coisas em vez de descartá-las por aí.
Penso sempre que a obsolescência programada é um conceito até meio obsoleto hoje (datado mesmo), pois é de uma época de abundância e nos encaminhamos para uma época de escassez. O desperdício só acontece em épocas de abundância, porque quando tudo é escasso, economizamos, cuidamos, valorizamos. E o que eu me pergunto é: se temos muitos sinais de nos encaminhamos para uma época de escassez, por que seguimos levando a vida como se vivêssemos em uma época de abundância?

PS: entre os comentários do texto citado acima, também fiquei pensando no da pessoa que disse ter estranhado o fato de eu não querer sair do centro para consertar minha impressora. Tem alguns pensamentos aí: se o conserto fosse facilitado, todos consertariam; muitas pessoas, assim como eu, podem não ter carro e andar com um trambolhão daqueles não é exatamente fácil. Mas é pertinente o comentário. Ponto para você. Talvez até me anime de levá-la lá depois do confinamento, porque ainda não desisti, mesmo que ela esteja quebrada há mais de 5 anos?

Lia Assumpção