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Julie Dorrico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Paneiro de saberes: ensaios indígenas refletem a Antropologia

Justino Sarmento Rezende, organizador da obra "Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas" - Divulgação
Justino Sarmento Rezende, organizador da obra 'Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas' Imagem: Divulgação
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

05/01/2022 12h15

A obra "Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas" (Mil Folhas, 2021) protagoniza organização e autoria indígena em ensaios que refletem a Antropologia desde a percepção de pesquisadores pertencentes a diversos povos originários.

Ela é organizada por Justino Sarmento Rezende, indígena Tuyuka, povo que se localiza no estado do Amazonas. Justino é graduado em Filosofia (UnB, 1995); mestre em Educação (Universidade Católica Dom Bosco, 2007) e doutorando em Antropologia Social (PPGAS/UFAM, em curso).

Todos os ensaios são de autoria indígena, pertencentes aos povos do Estado-nação Peru (2) e do Brasil (10), localizados majoritariamente no estado do Amazonas. As nações indígenas são: Yahua (Peru), Macuxi (RR), Ticuna (AM), Sateré-Mawé (AM), Kokama (AM), Kaixana (AM), Tuyuka (AM), Tukano (AM), Bará (AM) e Desana (AM).

Antropologia indígena?

Em uma palestra em 2018, no salão da UFRGS, o antropólogo Gersem Baniwa, do povo Baniwa, destacou que os estudantes indígenas, ocupantes de vagas da graduação ao doutorado, desafiavam os currículos da disciplina Antropologia. A Antropologia, na concepção do também educador, ainda reflete a visão de mundo que coloca o homem no centro de tudo. Esta visão moderna e hegemônica, porém, não representa os povos indígenas por excluir seus respectivos regimes de dar sentido ao mundo que simetrizam a relação homem e natureza. É possível ver mais as reflexões do Gersem Baniwa sobre o paradigma homem e natureza, bem como educação e política, em sua obra "Educação escolar indígena no século XXI: encantos e desencantos" (Mórula/Laced, 2019), disponível para download gratuitamente em: MN_EducacaoIndigena.pdf (hospedagemdesites.ws).

O Brasil conheceu um pouco mais a visão indígena, com a concepção do não humano e do sentir-se parte/filho da natureza, durante a pandemia da COVID-19. Isso esteve muito presente nas palavras do intelectual Ailton Krenak, por meio de suas palestras, conferências e entrevistas, bem como de suas obras "Ideias para adiar o fim do mundo" (Cia das Letras, 2019), "O amanhã não está à venda" (Cia das Letras, 2020) e "A vida não é útil" (Cia das Letras, 2020).

Ambos, Gersem e Ailton, invocam não a extinção da disciplina Antropologia, mas uma que seja capaz de reconhecer a humanidade dos povos originários no país. Bem como a antropologia e outras disciplinas que oportunizem a prática de metodologias propriamente indígenas, pois a diversidade de povos exige tal demanda.

Paneiro de saberes

No "Paneiro de saberes", os autores ensaístas ensejam suas especificidades para demonstrar sua relação com a natureza diante da Antropologia contemporânea, no desejo de que esta reconheça a diferença entre os modos de vida ocidental e nativo, sem, no entanto, anular-nos. Nesse sentido, João Paulo Lima Barreto (Tukano) argumenta que "Apesar da desestruturação de nossas 'instituições', em decorrência do complexo esquema de formação de novos especialistas, das formas de organização social, do sistema de casamento, das práticas de cuidado de corpo, das concepções cosmológicas, das regras de parentesco etc., sofridas historicamente pelas imposições externas ocidentais, obrigando-nos a negar o tradicional os povos indígenas do rio Negro ainda guardam as práticas de cuidado do corpo de acordo com seus esquemas de conhecimento".

Nesse sentido, não obstante o atravessamento do colonialismo sobre os territórios e corpos, e a colonialidade sobre os saberes e formas diversas de expressão, os sujeitos indígenas resistem produzindo conhecimento na academia desde suas identidades e culturas, em constante diálogo com o currículo dominante. Tudo isso desvela o desejo de reaver nossa soberania de povos para um projeto além do da sobrevivência, predominante nestes 522 anos. É chegada a hora de outros saberes. Que venham muitos outros paneiros.

Obra - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Como adquirir a obra

Para adquirir a obra "Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas" clique aqui: IEB Mil Folhas: Paneiro de saberes - Transbordando reflexividades indígenas - Livraria Virtual Mil Folhas (iieb.org.br).

Ficha Técnica
Realização: Mil Folhas do IEB, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS/UFAM)
Organizador: Justino Sarmento Rezende
Autores: Roberto Suarez Rengifo, Iranilde Barbosa dos Santos, Mislene Metchacuna Martins Mendes, Clarinda Maria Ramos, Deyse Silva Rubim, Gilberxe Santana Penaforte, Mayra Luz Alvarado Davila, Justino Sarmento Rezende, Dagoberto Lima Azevedo, Silvio Sanches Barreto, Jaime Diakara e João Lima Barreto.
Editora: Mil Folhas (Brasília)
Ano: 2021.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL