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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

História de passarinho, ou o mundo coberto de penas

Luiz Novaes/UOL
Imagem: Luiz Novaes/UOL

Julián Fuks

Colunista do UOL

04/06/2022 06h00

É noite alta na primeira vez que os ouço. O ruído vem de algum canto remoto, não vem do meu próprio quarto, não vem do quarto das minhas filhas, e por isso um pouco me sobressalto. Alguém entrou no apartamento e faz barulhos estranhos, arranha, raspa, atrita as costas contra as paredes, parece querer deixar sua marca. Meus passos são receosos enquanto cruzo a sala e a cozinha, o fôlego quase me falta quando chego à área. Sei que é improvável que a selvageria do mundo tenha me alcançado agora, nas horas neutras da madrugada, no canto frio e pobre da minha intimidade, mas por um onírico instante temo o pior. Só recupero a calma com o vislumbre da plumagem a manchar de verde a brancura do espaço.

Dois passarinhos vieram morar na minha casa. Se eu fosse um verdadeiro cronista teria aí uma história, e decerto começaria por não os chamar de passarinhos: seriam coleiros, andorinhas, tuins, sabiás. Como nada sei de pássaros, e como só o que vi foi o verde das asas, quando o dia nasce anuncio às minhas filhas que temos de visita dois papagaios. Quase não se veem, enfiaram-se no cano do aquecedor, estava fria a noite, coitados, digo no tom próprio da piedade. Elas se animam mais do que seria de se esperar, sabem de papagaios, passam a lançar palavras profusas ao aquecedor e a estreitar os ouvidos na expectativa da resposta. Quando só o que nos volta são arrulhos, ou trinos, ou gorjeios indecifráveis, quando percebo que nem mesmo sei o nome do ruído, julgo mais prudente me corrigir: periquitos, devem ser periquitos.

Nem por isso o ânimo cai, temos agora dois passarinhos a nos acompanhar inverno afora. Dois passarinhos que não cantam, não voam aos nossos olhos, quase não se veem, e no entanto povoam de vida animal nossa casa demasiado humana. Há algo de debilmente bonito nessa circunstância, é o que sentimos todos, é o que por vezes comentamos: que aos tais periquitos agrade a nossa companhia, nosso calor, que não se incomodem com a nossa voz, nosso caos de palavras, nossos rompantes de riso, nossas aflições diárias. Tão bruto tem lhes sido o mundo, tão áspera a cidade que habitam, que por algumas ingênuas semanas nos contenta lhes servir de alívio.

Vocês têm que matá-los já, é o que o zelador sugere em tom sinistro quando descobre os nossos hóspedes. Eles não podem mais ficar ali: em pouco tempo terão destruído o cano inteiro, o aquecedor, os chuveiros. Imaginem as fezes, as doenças que podem transmitir. São selvagens de todas as maneiras concebíveis, é o que o homem nos diz em suas palavras bem mais acerbas, e nosso dever cidadão é combater essa selvageria, é matar para não morrer. Assustados, estremecidos, acabamos por consultar outra autoridade do prédio. Não, não é preciso matar, não sejamos desumanos, nos diz agora uma mulher. Mas é fundamental denunciá-los ao órgão adequado, para que a prefeitura possa se ocupar do serviço, desalojá-los da casa que não é deles, e exterminá-los apenas se julgar preciso.

Nada fazemos, não compramos nenhum veneno nem averiguamos o órgão competente, mas na manhã seguinte os ruídos já não soam tão graciosos, já não existimos tão em paz na companhia dos passarinhos. Estamos em silêncio quando toca a campainha. É a vizinha do apartamento da frente, que nos traz com toda a gentileza um pudim de leite, e então passa sem demora ao assunto dos periquitos, e implora que não os matemos, que não os entreguemos à justiça, que aqueles são seus passarinhos, que há anos ela os alimenta. Devem ter se abrigado no cano porque precisam se reproduzir, é o que ela suspeita, e roga para que lhes concedamos só mais alguns meses, até que formem a família que tanto desejam e assim possam partir.

O pudim é bom, mas tem também algum gosto de embaraço e indecisão. As meninas rapidamente se alinham à vizinha, estão curiosas para ver os filhotes, nutrem alguma ilusão de que, se falarem com eles desde os primeiros dias de vida, talvez eles aprendam a repetir algumas palavras simples. Nós já não sabemos o que pensar, há mais de um mês estamos paralisados, inertes, nada fazemos quanto aos passarinhos — também por julgar toda a questão, devo admitir, um tanto risível e insignificante. Mas na madrugada ainda me levanto, às vezes, e refaço na escuridão o caminho até a área de serviço. Paro ali onde antes parei e, com máxima atenção, me ponho a ouvir o arrulho ou o trino dos periquitos. Não sei bem por quê; talvez na secreta esperança de que os passarinhos enfim digam algo de mais claro e mais preciso, que lancem um pio definitivo sobre a nossa perplexidade, nossa selvageria.