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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nem percorrendo o mundo inteiro, você conseguirá sair de casa

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Imagem: iStock

Julián Fuks

Colunista do UOL

07/05/2022 06h00

Atravesso um continente, me afasto de casa oito mil quilômetros, venho parar no Canadá. A vida aqui continua quase exatamente como lá, recebo as mesmas mensagens, leio as mesmas duras notícias, cumpro com disciplina as demandas da existência virtual. Ocupo um novo espaço, mas não desocupo o espaço prévio, não me desobrigo das urgências que não cessam, não escapo das estridências do meu cotidiano. Sem nem sair de casa, percorra o mundo inteiro, era o que nos prometia a utopia tecnológica. A realidade com que nos deparamos, percebo agora, é quase oposta: nem percorrendo o mundo inteiro, você conseguirá sair de casa.

Estava tomado por certa inquietude quando concebi este texto. Sentia a aguda dificuldade em fazer de uma viagem uma viagem, de me alienar dos meus lugares habituais, de me deixar visitar por novas paisagens e novos pensamentos. Caminhar pelas ruas de Montreal, como fiz por algumas horas na primeira tarde, me garantia ao menos a desconexão necessária, mas não chegava a me sossegar. São cada vez mais parecidas as ruas do mundo, era o que eu observava de novo. Os centros das grandes cidades, antigas ou modernas, ricas ou pobres, oferecem em diferentes fachadas as mesmas lojas, quase os mesmos restaurantes, os mesmos produtos em distintas embalagens. O capitalismo, que nos prometia variedade, tem sofrido de uma profunda falta de imaginação, ou melhor, tem sofrido de um conglomerado de multinacionais que limita toda a diversidade.

No quarto do hotel, com o celular à parte, também não adiantava me recolher. Ligar a televisão, como fiz na esperança de imergir por um momento em alguma cultura local, foi de uma previsível inutilidade. Em quase todos os canais não encontrava mais que programas conhecidos, em versões originais ou adaptadas, homens e mulheres encerrados numa casa em convivência banal, cantores fantasiados, pessoas lançadas nuas em terra selvagem. No jornal, notícias sobre os ataques russos na Ucrânia e a reação indignada da Casa Branca. Acabei me deixando ficar por alguns minutos num jogo de hóquei, que trazia lá sua singularidade bruta.

Freud já falou, há quase um século, desse mal-estar que acomete a nossa cultura, e que pode guardar uma relação inesperada com os avanços civilizatórios. Na leitura mais pessimista desses fenômenos, o desenvolvimento técnico não nos traria nenhuma conquista real, nenhum acréscimo de satisfação. "Não havendo estradas de ferro para vencer as distâncias, o filho jamais deixaria a cidade natal, não seria necessário o telefone para ouvir-lhe a voz. Sem os navios transatlânticos, o amigo não empreenderia a viagem, e eu não precisaria do telégrafo para acalmar minha inquietação por ele".

A preocupação maior, podemos notar, era com as pessoas queridas que podiam se desgarrar, que podiam ir parar longe demais, tornar-se inacessíveis por qualquer meio eficaz. Agora, não sei, contagiado por esse mal-estar, senti mais razoável a preocupação contrária: de estarmos todos próximos demais, de já não sabermos nos distanciar, de não nos tornarmos inacessíveis aos apelos excessivos e constantes. E se não nos afastamos de um ponto originário, se não nos afastamos do que somos por hábito ou necessidade, talvez pouco consigamos nos transformar. Talvez corramos o risco de nos tornarmos todos, pouco a pouco, tão parecidos quanto as lojas das grandes cidades, quanto os programas televisivos, quanto os produtos nas diversas embalagens.

Mas não, interrompo por aqui essa ideia, não quero insistir num argumento possivelmente retrógrado. Nesta viagem, ao menos, alguma experiência já permitiu que eu me afastasse desse raciocínio desalentado. Ontem à noite participei de um evento literário, expressei alguns dos meus pensamentos costumeiros sobre literatura e vida, mas sobretudo me pus a ouvir os dos outros, os dos muitos outros que ali estavam. Senti então a pluralidade que ainda há nesta cidade, feita das incessantes imigrações de muitas épocas, feita também dos tantos povos originários que ocuparam esta terra durante séculos. Na saída, fui jantar com alguns dos que acabava de conhecer, com canadenses, colombianos, venezuelanos, e a conversa percorreu o continente com tudo o que ele tem de comum e de díspar, com suas muitas realidades que confluem e divergem infinitamente.

Não tenho uma anedota para contar. Nada aconteceu que pudesse de fato alterar minha percepção prévia, nada contrariou a lógica inescapável do que me inquietava. Ainda assim, sinto que algo em mim sossega. Todas as ruas do mundo talvez venham a se parecer um dia. As pessoas, não. Há nas pessoas qualquer coisa que rejeita esse maquinismo, esse aparente empobrecimento da vida, há nas pessoas qualquer coisa que resiste.