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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um escritor pode mentir? Interrogações a partir do caso de Sebald

W. G. Sebald, autor alemão - Divulgação / Youtube / 92nd Street Y
W. G. Sebald, autor alemão Imagem: Divulgação / Youtube / 92nd Street Y

Colunista do UOL

18/12/2021 06h00

Um escritor mente, descubro num artigo da New Yorker, e estranhamente fico chocado. Não um escritor qualquer, genérico, explico para mim mesmo ou para o leitor, e sim alguém em que eu acreditava, alguém que provocava em mim grande confiança. Alguém em cujas obras eu julgava encontrar verdades sinuosas e incomunicáveis, alguém cuja prática literária se tornara um modelo para tantos autores contemporâneos, um modelo para o que eu mesmo faço. "W. G. Sebald, o trapaceiro", intitula-se o artigo, com ar de alarme. Nele conhecemos alguns detalhes de sua aparente prática de falseamento, de sua apropriação sistemática de obras e vidas alheias, e do rastro de desilusão e mágoa que ele deixou nos sujeitos que inspiraram seus personagens.

O retrato é, a um só tempo, reverente e impiedoso, acabando por suscitar mais interrogações do que juízos morais e acusações categóricas. É claro que um escritor mente, alguém poderia de partida ressalvar, é nisso que consiste o seu trabalho. Seria tolo quem exigisse da ficção um compromisso com a realidade factual, quem rejeitasse toda presença da invenção e desejasse encontrar na literatura a literalidade. Seria estúpido quem perseguisse numa obra ficcional as distorções que lhe são próprias e necessárias, seus deslocamentos temporais e espaciais, suas deturpações biográficas ou históricas, quase sempre voluntárias. Eis alguém que não entendeu o princípio da criação literária, sua simultânea atenção e desatenção à realidade, eis alguém que não soube aceitar esse exercício radical de liberdade.

Mas por que então o problema se coloca no caso de Sebald, por que as mentiras desse específico autor chegam a causar repulsa e alarde? Deveríamos discernir entre os escritores que podem mentir e os que não podem, ou entre as mentiras aceitáveis e as indecorosas? Sebald não estaria autorizado a mentir exatamente porque suas obras são tão convincentes? Não poderia falsear porque suas obras tendem a disfarçar sua ficcionalidade e se revelar como retratos imediatos de figuras reais? Mas essa não seria afinal sua maior qualidade, essa construção de uma linguagem quase documental que nos cativa, que suspende a nossa desconfiança e nos convida a acreditar de novo na palavra ficcional?

Toda interrogação parece aqui um salto, uma simplificação indesejada. Para tentar responder essas perguntas incômodas, é preciso sempre saber mais, ponderar mais. Há uma delicadeza extrema no assunto que Sebald aborda em quase todas as suas obras, um sobressalto que atravessa as décadas. Em Austerlitz, em Os emigrantes, em tantos outros livros inclassificáveis, o que Sebald faz é tentar capturar as muitas reverberações da dor gerada pelo Holocausto e pela Segunda Guerra Mundial, as consequências profundas do trauma histórico e suas manifestações nas mais diversas personalidades. Sebald, um alemão, tenta se haver com a culpa de seu povo colocando em relevo não sua própria dor e seu próprio trauma, mas a dor e o trauma das vítimas de seus ancestrais.

É inestimável a importância desses livros na reflexão sobre a atrocidade humana e seu impacto sobre a subjetividade. É inestimável também seu poder de contágio: a partir da leitura dessa obra, tantos outros autores, em diversos contextos e épocas, se puseram a explorar literariamente outros traumas históricos, outras atrocidades humanas, uma interminável sucessão de arbítrios e violências oficiais que precisam sempre ser compreendidos com precisão e profundidade. Mas devemos aceitar, diante de tal valor, que esse mesmo autor tenha provocado dores suplementares sobre as pessoas que converteu em personagens? Devemos relevar que possa se tratar, como sugere a própria biógrafa de Sebald, Carole Angier, de uma nova etapa da espoliação de judeus realizada por um homem alemão?

Jacques Austerlitz não existiu, a foto dele que Sebald apresenta em seu livro foi comprada por trinta centavos numa feira de antiguidades. Austerlitz não existiu, mas todo o arco de sua vida parece ter sido retirado de um livro de memórias de Susi Bechhöfer, separada de seus pais deportados aos campos e transportada à força para a Inglaterra com centenas de outras crianças. Quando foi entrevistá-la, Angier encontrou uma mulher ainda indignada, a mesma que insistira por um reconhecimento de Sebald no próprio livro e escrevera um artigo em que se afirmava "despojada de seu próprio passado por um autor de best-sellers."

Max Ferber, talvez o mais impressionante personagem de "Os emigrantes", foi inspirado em dois outros sujeitos, um dos quais, Frank Auerbach, se mostrou muito incomodado e acusou Sebald de ter realizado um "empreendimento narcisista". Aqui o caso é complexo pelo efeito estético que se cria na leitura: pode ser um caso não de apropriação, mas de identificação. Sebald descreve com apuro o método artístico de Ferber, um retratista que compunha suas obras despejando sobre a tela uma quantidade enorme de tinta, e raspando o excesso com decisão e fúria, gerando a um só tempo um rastro de pó e uma imagem surpreendente. O narrador se vê incapaz de definir qual é a obra, o quadro ou o pó que se espalha pelo piso, e que se faz tão íntimo do artista. Pouco a pouco entendemos que Sebald está escrevendo sobre si mesmo, sobre sua escrita a partir do pó, sobre os restos da realidade que ele despejou sobre a página e agora se tornaram seus, se tornaram o que ele tem de mais íntimo.

O que pensar, enfim, sobre Sebald, o que pensar sobre sua obra, e sobre sua liberdade de artista em manipular aquilo que transforma em sua matéria? Num sumário juízo ético, o homem Sebald talvez não se salve, merecendo um repúdio inocente — a não ser que consigamos aderir à sua concepção elástica de verdade, à sua naturalização da apropriação e do falseamento, o que parece improvável. Mas termino de novo com interrogações, que afinal são só o que tenho: não podemos distinguir entre autor e obra, ainda que o autor os confunda propositalmente? Não podemos enxergar o valor transcendente dessa prática tortuosa de encontro com a verdade através da mentira estética? Não será esse o jogo inerente à literatura, de tantas maneiras, em tantos tempos?

Termino também com a certeza de que Sebald se faz agora um personagem ainda mais interessante, digno de sofrer nas mãos de algum romancista ardiloso e consequente, que saiba se valer desses mesmos efeitos e infligir sobre ele sua sistemática de distorções e apropriações, para quem sabe criar assim uma literatura de semelhante potência.