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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A crise de um jurado: sobre o limite dos prêmios em apreciar a literatura

Mrdoomits/iStock
Imagem: Mrdoomits/iStock

Colunista do UOL

20/11/2021 06h00

"Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganhá-los, conferidos por juízes que o seu senso crítico jamais premiaria." Esse foi o conselho que Carlos Drummond de Andrade deu a um jovem escritor, ou melhor, esse foi um de seus "anticonselhos", uma de suas lições de ceticismo e mordacidade. Desta vez, como nunca faço, vou discordar do nosso poeta maior. O pior que pode acontecer a um escritor, num prêmio literário, é não o ganhar e se ressentir, e se amargurar pela injustiça, e passar a maldizer todo juízo crítico, e logo se anular corroído por dúvidas, e já não conseguir escrever mais nada, e tratar apenas de fugir da empreitada vazia fadada ao fracasso em que consiste a literatura. Caso raro, alguém dirá. Ao que outro poderá convocar o onipresente meme: é raro, mas acontece muito.

Em vinte anos, muitas vezes desobedeci a Drummond e disputei prêmios literários: ganhei uns poucos, perdi muitos outros — embora tenha aprendido, nos momentos sãos, que ninguém nunca perde um prêmio, que um prêmio deve ser um agrado inesperado ao vencedor e nada mais. Mas também tenho sido, com frequência, um desses juízes não premiáveis pelo senso crítico dos jovens escritores, membro insistente dos júris malditos do nosso mercado editorial. Essa é a situação que agora quero abordar, uma prática mais agônica do que seria de se imaginar, mais carregada de apreensões, inseguranças, indecisões. Uma experiência extrema que parece poder revelar, a qualquer instante, a violência de toda leitura, a fragilidade de toda apreciação crítica, a insensatez inescapável de toda a literatura.

Sim, já sem a incerteza paralisante, digo que poucas experiências de leitura são mais desnorteadoras do que a do jurado de um prêmio massivo e importante. É uma falácia a imagem do juiz magnânimo a deliberar sobre o destino de seus contemporâneos, a dividi-los com soberba entre bons e ruins, entre valiosos e desdenháveis. A prática muito mais se parece à do tabelião principiante afogado em papéis incontáveis, num esforço vão contra o prazo apertado e a vastidão das páginas desconhecidas, tomadas da primeira à última linha por palavras esquivas, resistentes à pressa, indevassáveis. O jurado é um ser ínfimo a afrontar a enormidade da produção literária de um país, ou de uma língua.

Espanto e solidão: são esses os sentimentos mais comuns que chegam a tomar conta do pobre tabelião. O espanto pode vir da percepção de sua pequenez ante a magnitude do esforço coletivo que alcança as suas mãos, a diversidade de propostas e estilos, a multiplicidade de projetos e visões, numa prática que tantas vezes ele e seus pares julgam acomodada e comprometida com a mesmice. Em qualquer tempo, em qualquer regime, a literatura é uma atividade imensamente variada e farta, tendente ao infinito. Seu sentido, no entanto, sua pertinência, sua relevância, são muito mais incertos. A literatura falha infinitas vezes, por culpa do autor, do leitor, do crítico; infinitas vezes ela se faz apática, fechada, incomunicativa. O jurado teria a dura missão de recusar cada momento de falha e insistir, dar nova chance ao livro falido, desconfiando sempre que o erro pode estar em seu próprio juízo, em sua desatenção, em seu cansaço.

Mas ninguém lhe oferecerá condição para isso, e talvez daí decorra seu incontornável sentimento de solidão e desamparo. Diante da fartura de livros, sobretudo numa cultura que muito publica, mas negligencia cada vez mais a crítica, e num país bastante desinteressado de sua própria produção escrita, diante da fartura de livros, eu dizia, quase sempre o jurado está só. Ouviu pouco ou nada sobre a maioria dos autores, leu pouco ou nada sobre a maioria dos livros, e ainda assim tem o dever ético de avaliá-los com justiça, de ouvir com concentração máxima o que cada um tem a dizer. Que não pense em tomar atalhos que outros condenariam: em pesar o valor da editora, em atentar para o nome célebre que estampa a capa ou que assina a orelha do livro. Nada disso deveria turvar o seu juízo, já tão turvo ante a tarefa impossível.

Não sei por que faço esse relato detalhado que a ninguém realmente interessa. Talvez como forma de desabafo, para dar conta dessa experiência desmedida, talvez ainda com uma finalidade cívica. Para que compreendamos enfim a precariedade inevitável de todas essas instâncias de avaliação, para que saibamos lhe dar o peso devido, a importância relativa. E para que assumamos todos nós, sob nossa ampla responsabilidade, a missão de ler e estranhar e rechaçar e estimar a nossa própria literatura, que pode ir muito além dos nomes premiados e incensados nos jornais. Que falhem os júris todos, como hão de falhar: um grande contingente de leitores pode dar conta de apreciar a imensidão insondável estampada em tantas páginas.

Mas para quê? Com que finalidade última, afinal?, poderia perguntar alguém mais cético, mais mordaz. Para que a literatura em si possa fazer o que faz melhor, possa superar sua condição de expressão solene e hierárquica de uma cultura nacional, e tornar-se enfim a experiência única de encontro com o outro através das palavras, a experiência autêntica de espanto e solidão que por vezes chega a nos arrebatar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL