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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O fim da juventude não precisa ser o fim do sonho, da utopia, da festa

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Julián Fuks

13/11/2021 06h00

Decreto o fim da minha juventude. Ou talvez não me caiba decretar nada, se falam mais alto os meus documentos, as minhas costas, o meu rosto no espelho. Cheguei aos quarenta anos e, a partir de agora, me querer jovem será uma desfaçatez, mera infantilidade, ou irracionalidade senil. Ainda assim, prefiro eu mesmo decretar o fim da minha juventude para torná-lo uma decisão consciente, um ato de vontade. Abandono a minha juventude sem hesitação ou receio de arrependimento. Não quero passar a longa vida que me resta tomado por uma nostalgia besta, num pálido lamento pela falta de algo tão inefável, quase inexistente: a falta do que nunca tive e nunca voltarei a ter.

Envelheci há tempos. Há tempos estranho uma cultura que insiste em enaltecer rostos jovens demais, palavras jovens demais, ideias jovens demais. Quando foi que resolvemos definir como ideal da existência a linguagem noviça, o pensamento aprendiz, o corpo incipiente? Quando foi que resolvemos atribuir à juventude nossas mais prezadas virtudes, a coragem, o entusiasmo, a beleza? "Os velhos desconfiam da juventude porque foram jovens", escreveu o velho Shakespeare. Eu desconfio da juventude porque, se algum dia fui um desses jovens, nenhuma das grandes qualidades que imputamos a eles chegou a me acometer.

Há algo que perco com o fim da juventude, sim, além do fôlego e dos cabelos. Perco os contornos mais flexíveis do meu mundo, perco a capacidade de reinventá-lo a qualquer momento. Meu mundo, agora, tem mais história e mais peso, é mais difícil transportá-lo em direções novas, refundar a totalidade da experiência. É mais difícil me descobrir outro, recriar a mim mesmo. Mas não sei, digo isso e me pergunto se é de fato a valiosa liberdade o que perco, e não uma ilusão de liberdade. Se essa perda não contém também um ganho de lucidez, se não me livro assim da ingenuidade de pensar que poderia fazer de mim o que bem quisesse. Sou menos do que isso, menos do que um sujeito de possibilidades infinitas, e entendê-lo pode ser uma libertação e um alívio.

Não sei bem que fim decreto quando decreto o fim da juventude. Queria com isso me desvencilhar da ignorância, da inocência, mas achar que me purgaria desses defeitos simplesmente ao completar quarenta anos seria sem dúvida algo ignorante, algo inocente. Bem sabemos, o presente é eloquente em nos dizer, que nenhum desses lamentáveis atributos é privilégio dos jovens, que eles grassam em todas as idades e todos os contextos. Melhor então é se valer de alguma experiência para perceber quanto eles podem ser sedutores e atraentes, e guardar vigilância dos próprios defeitos — quem sabe dedicando alguma parte dos dias a combatê-los.

Sei que fim não decreto ao decretar o fim da minha juventude. Não decreto o fim da alegria, do riso, da festa. Não decreto o fim do descontrole, da imprudência, da embriaguez. Observo meus colegas de geração, os amigos e conhecidos que vão chegando, um a um, à nova década, com um suspiro comum e uma sutil resignação. Alguns deles se preparam para um tempo de moderação e descanso, guardam a rolha do vinho para não precisar tomar tudo, encerram cedo os encontros para garantir uma noite de sono pleno. Mesmo aos quarenta, não os entendo, não sei para que estão poupando os seus corpos. Prefiro me unir aos que veem, neste novo tempo, a oportunidade renovada de seguir a ordem de Baudelaire, de se embriagarem de vinho, de poesia ou de virtude, com a displicência que enfim aprendemos.

E não decreto, sobretudo, o fim das minhas utopias, o fim da aposta nas transformações verdadeiras. Aos brasileiros de quarenta, a realidade política demorou a mostrar sua face mais severa, o rosto sórdido que agora nos assusta, inevitavelmente. Diante dele não cabe nenhuma intimidação, nenhum medo paralisante. Se por vezes chegamos a ver até os mais jovens desanimados e perdidos, melhor será tomar de volta o ímpeto que já julgamos seu e abraçá-lo como se nos pertencesse. Há um mundo a ser reconstruído, com sua história e seu peso, e para isso teremos que empenhar toda coragem, todo entusiasmo, toda beleza. Há um mundo a ser reconstruído, e já não temos direito à juventude de esquecê-lo. Quem sabe até nos tornemos outros na forja desse novo mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL