PUBLICIDADE
Topo

Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Escrever é um ato de agonia: a literatura e sua relação com a angústia

"Ninguém se engane: para um escritor, escrever não se torna mais fácil, não deixa nunca de ser um esforço em amansar palavras esquivas, indomáveis, ariscas." - mactrunk/iStock
"Ninguém se engane: para um escritor, escrever não se torna mais fácil, não deixa nunca de ser um esforço em amansar palavras esquivas, indomáveis, ariscas." Imagem: mactrunk/iStock

Julián Fuks

Colunista do UOL

30/10/2021 06h00

Acordo cedo, acordo aflito. Vasculho meu pensamento à procura da aflição, tantas vezes nestes tempos acordar tem sido assim, sentir o presente em sua desolação e tardar um instante para acomodá-lo no dia. Desta vez não encontro coisa alguma, nenhuma razão maior para um lamento específico. É sexta-feira, tenho um texto a entregar no início da tarde, este texto aqui, e não me ocorre nada que mereça ser escrito, nenhuma ideia inesperada, nenhum acontecimento inaudito. Expiro entre aliviado e aborrecido: não é uma angústia real, é a mais comezinha das angústias, mas quem não terá passado uma vez por esse ligeiríssimo suplício, quem não terá sentido a opressão da escrita impossível? Leitor, leitora, você me acompanha?

Ninguém se engane: para um escritor, escrever não se torna mais fácil, não deixa nunca de ser um esforço em amansar palavras esquivas, indomáveis, ariscas. Em seus piores momentos, as palavras são animais brutos que atropelam a delicadeza de tudo, que devastam todo sentido. Isso mesmo que aí escrevi não estava previsto: de repente a palavra se fez cavalo selvagem, me obrigando a construir um texto que lhe sirva de cercado. Abandono a metáfora crua, mas não a apago, já não posso apagar nada a esta altura. A clássica imagem da página em branco, e o pavor que ela suscita, não é propriamente a imagem do vazio. É um cemitério de ideias abandonadas, de histórias e reflexões mortas, assassinadas por algum juízo.

Para seguir, talvez o escritor precise fugir de si, talvez eu precise fugir de mim. Penso em Flaubert e sua aflição rotineira com o ofício da escrita, Flaubert acometido "mil vezes por dia de momentos de angústia atroz", como ele confessou numa carta a uma amiga. Dizia passar horas terríveis tentando encontrar a forma necessária de uma única frase, sua composição precisa, seu teor, seu ritmo. Era um sujeito abastado Flaubert, vivia de renda, podia dedicar todo o seu tempo à perseguição agônica de abstrações e quimeras. E, no entanto, sua entrega absoluta à literatura fazia com que se sentisse "como o bom operário que, braços arregaçados e cabelos suados, bate a sua bigorna sem se importar se chove ou se venta." O escritor como operário das letras: Flaubert também cedia às metáforas equívocas.

Penso em Balzac, antípoda de Flaubert, antípoda de todos nós. Balzac não podia se intimidar, se retrair. Escreveu uma das obras mais vastas da história, um romance interminável composto por dezenas de romances, com mais de três mil personagens, quis recriar no microcosmo de suas páginas a totalidade de uma sociedade. Balzac não podia parar, era impelido sempre adiante por suas ambições e suas dívidas. Dizem que a mulher o trancava no escritório e não o deixava sair enquanto ele não preenchesse ao menos dez páginas. Dizem que chegava a escrever dezoito horas por dia, abastecido de alguns litros de café - tudo em Balzac parece superlativo. E eu imagino, então, a angústia superlativa que podia sentir esse homem, a dor maior que o acometia quando o silêncio se agarrava aos seus dedos.

Agora talvez já possa voltar a mim, preenchi uma página inteira. Talvez meu erro seja não tomar café, achar que posso escrever a seco. Talvez meu erro esteja nas origens, ter sentido sempre algum temor das letras, contemplá-las em sua gravidade, seu peso. Aqui me confesso, aqui me mostro mais vulnerável, mais perdido do que de costume, e assim ao menos ganhamos intimidade. Aqui admito: nunca consegui sorver nenhum prazer do ato da escrita, a não ser o prazer do dia seguinte, o sutil contentamento de ter escrito.

Escrever foi desde sempre um imperativo antipático. Algo me impelia a escrever depois de dias, semanas ou meses de morosidade e silêncio. Algo me obrigava a escrever quando sentia que as palavras definhavam em mim, que eu as engolia. Era como se estivesse me apagando, me ausentando do mundo, e então uma angústia ia crescendo até que eu me decidisse a escrever, não importa o que, numa madrugada qualquer. Assim decidi que seria escritor, por livre pressão da angústia. Já poderia imaginar que a angústia nunca me abandonaria, que escrever seria sempre expressão da agonia, desprovida de todo prazer.

Mas hoje escrevo por profissão, o prazo tem tomado o lugar da coação mais íntima. Aproxima-se a hora-limite deste texto, e eu sinto que ainda não encontrei o que dizer, sinto que ele se extraviou em metalinguagem, como tudo o que escrevi desde o princípio. Tudo o que quero é escapar para o dia seguinte, chegar à manhã de sábado em que meu trabalho está feito, esta manhã em que você me lê. Sobrevivemos à sexta-feira, você e eu, embora o sentido tenha se furtado ao meu texto, e embora lhe tenha sido negada a palavra que você desejava ler. Desta vez partilhamos a angústia, numa próxima quem sabe a dissipemos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL