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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O novo problema do tempo: a pressa dos dias e a sensação de insuficiência

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Imagem: iStock

Julián Fuks

Colunista do UOL

16/10/2021 06h00

Deixo do lado de fora o movimento em que estou imerso, o ruído contínuo, o caos sucessivo, tento que tudo cesse quando me fecho para escrever. E então, cercado pelo silêncio precário que consigo, escrevo sobre o tempo, seguidas vezes escrevo sobre o tempo. Esse tem sido o assunto subterrâneo de quase todos os textos que aqui publico, o argumento furtivo, variações sobre o tempo e seu assombro. Parece que a cada frase a palavra tempo quer saltar à superfície, mas eu a contenho, procuro dar a ela alguma medida. O caso é que o tempo se tornou o fundo oculto dos meus pensamentos, a obsessão que só agora confesso a quem me lê e a mim mesmo.

O problema do tempo já foi uma questão existencial, o medo inelutável da passagem, da morte, do fim. Disse Ariano Suassuna em uma entrevista sobre o tempo, anos atrás: "todo o problema da angústia humana vem da percepção dessa coisa misteriosa que nos mata". O tempo era o nosso verdugo implacável, a razão por que temíamos o futuro, a força obscura que lentamente dissiparia os nossos corpos. Hoje, suspeito, o tempo é um problema de outra ordem, mais imediata. Não é a falta do tempo futuro o que aflige, e sim o tempo que falta agora. Não é a vida que um dia se encerrará, mas a vida encerrada na pressa dos dias, a vida sempre adiada a um tempo que não virá.

Minha casa foi tomada pelo problema do tempo, minha casa agora é dele, e nós sobrevivemos. Com minha mulher, especialista nas relações entre tempo, trabalho e gênero, criamos nossa estratégia de resistência. Cuidamos de estabelecer um cronograma rígido para enfrentar o problema, uma divisão milimétrica das horas de trabalho, de cuidado das filhas, de convivência coletiva, de leitura, de descanso, de distração irrefletida. Não há generosidade nessa partilha, cada minuto é valioso demais para que seja cedido sem consequências. O que buscamos é a justiça possível, e o uso livre de qualquer quinhão de tempo que porventura nos reste. Mas perdemos sempre, do tempo não se vence: a cada hora nos visita também o sentimento de insuficiência.

Já não me assusta tanto a inexistência: muito mais me intimida a inadequação, a impossibilidade de ser pleno no que quer que seja. Dividimos o tempo para garantir uma dedicação mínima a cada um dos campos da vida, mas em todos eles nos acompanha alguma ausência. Sou um pai ausente enquanto busco o sustento, sou um marido ausente enquanto leio, sou um leitor ausente enquanto faço o jantar, sou um profissional ausente enquanto encontro os amigos, sou um amigo ausente enquanto escrevo. A soma dos tempos, que poderia levar a alguma totalidade e a algum apaziguamento, às vezes resulta apenas num sujeito cindido, a meio caminho de tudo o que desejaria ser.

E, no entanto, sei que não sou eu o sujeito cindido, sei que sou um entre muitos que padecem desse mal contemporâneo. Foi num curso de parentalidade e psicanálise, surpreendentemente multitudinário, que me deparei de novo com a explicação que tantas vezes ouvi da minha mulher: hoje quase todos se impõem demandas inconciliáveis, e sofrem com a impossibilidade de atendê-las, sofrem com o fracasso inevitável — quem diz é Vera Iaconelli. Alguma onipotência própria da nossa época parece nos exigir a perfeição que não alcançaríamos nunca, a máxima plenitude de pais dedicados, profissionais bem-sucedidos, corpos saudáveis, tudo ao mesmo tempo e sem desespero, sem cansaço.

Lembrei-me do tempo remoto em que decidi ser escritor. Acho que não tinha grandes ilusões: se decidia ser escritor num país em que a literatura não encontrava grande espaço, estava conformado em não dispor nem de dinheiro nem de popularidade. Essas resignações se somavam a outras, imemoriais. Já tinha me acostumado à ideia de que não seria bonito, por lucidez na observação dos meus próprios traços; já imaginava que não seria de partida um pai divertido, por inaptidão no diálogo com crianças menores. Almejava ser bom escritor e nada mais: um escritor sério e prolífico, dedicado às minúcias de seus livros pouco lidos, a conversar com os outros através das páginas, esse era o destino que eu vislumbrava para mim, esse era o futuro que me bastava.

Hoje nada disso me basta, e por isso preciso do tempo como aliado, preciso de todo o tempo que consiga amealhar. Busco um reconhecimento que não pensei que me importaria, tento ganhar mais dinheiro do que precisaria, quero acompanhar cada relance da vida das minhas filhas, quero participar de um debate público sobre a nossa época, e de um debate íntimo sobre os nossos dias. Tudo desejo, sou esse sujeito iludido que a psicanálise descreve, e assim acabo por negligenciar aquele que era antes o meu único propósito. Não tenho sido capaz de produzir mais do que estes textos, adio indefinidamente o livro que quero escrever. Quem sabe chegue a ele quando voltar a aceitar minha precariedade, minha imperfeição, minha insuficiência, quando puder por fim falar de outra coisa além do tempo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL