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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sobre a miséria que nos cerca: teremos passado ao tempo de não ver?

Gabriel Moreira/UOL
Imagem: Gabriel Moreira/UOL

Julián Fuks

Colunista do UOL

02/10/2021 06h00

"Vamos brincar de notícias do mundo?", minha filha propõe, e eu já sei que ela quer que simulemos um jornal, que fantasiemos reportar a realidade. Desta vez será ela a apresentadora, percebo quando a vejo na frente da TV, tomando um enfeite como microfone. Sua escalada de notícias começa tranquila, anuncia um longo dia de chuva seguido de sol, o aumento no ritmo da vacina, o retorno de muitas crianças às escolas. Passa à queda no número de doentes, com uma peculiar análise da reação futura do presidente, que "vai ficar triste quando não tiver mais coronavírus". E chega então à frase que me assombra, à notícia tão conhecida, tão óbvia, mas que em sua voz infantil torna-se mais desoladora: "Cada vez mais pessoas moram nas ruas".

Impressiona a quantidade de informações precisas que uma menina é capaz de amealhar aos quatro anos. Costumamos abastecer as crianças com desvarios e excentricidades, uma profusão insólita de animais, uma infinidade de seres extemporâneos e inexistentes. Assim acreditamos turvar em alguma medida sua clareza sobre a realidade, protegendo-as do peso da existência, preservando em seu imaginário algo de leve, de lúdico. Ao ouvir minha filha nessa manhã, me pergunto então se falhei: eu deveria tê-la poupado de algo tão duro, da noção de que cada vez mais pessoas moram nas ruas, penam nas ruas, morrem nas ruas?

Não demoro a perceber que essa não é a questão que me move, se devo ou não lhe transmitir a consciência de tantas dores. Não demoro a perceber que o que me assombra é a minha própria consciência vacilante: que eu mesmo saiba e não saiba desse dado, veja e não veja esse fantasma. Acompanho as notícias do mundo, conheço as estatísticas da pobreza extrema, da miséria brasileira, da miséria humana. Vi a matéria sobre o caminhão dos ossos, que antes levava restos esquálidos de carne a uma fábrica de sabão, e agora vai parando no caminho para atender ao apelo dos que não têm nada, dos que veem num osso indigente uma oportunidade alimentar. Tudo ouvi, com tudo me indignei e me comovi, e ainda assim, como muitos, tudo esqueci no instante seguinte — fui capaz de me distrair, esse o recurso que me autorizo para continuar a viver.

Volto seguidas vezes a um poema em prosa de Baudelaire, "Os olhos dos pobres", o relato de um jantar a dois no mais novo café da cidade, no mais novo bulevar, com suas paredes cheias de espelhos emoldurados em ouro. Um jantar interrompido por uma família que assoma ao café, por um homem em farrapos que chega à vitrine e se encanta com o brilho do lugar, e por seus filhos, igualmente fascinados, mas também aflitos e angustiados pois sabem que ninguém lhes permitirá entrar. O encontro a dois então se parte, porque o poeta se enternece com aquela família de olhos e, quando volta aos olhos verdes da companheira de jantar, só vê neles indiferença, um desgosto indisfarçado por aquelas pessoas que ela só quer afastar.

Num livro de Jacques Rancière aprendo algo sobre o contexto da cena, sobre essa época em que se inauguram bulevares e cafés, todos cheios de brilhos e luzes e vitrines e espelhos. Inaugura-se uma cidade em que as pessoas são mais capazes de ver umas às outras, uma cidade em que a visão dos outros se torna espetáculo, como espetacular também se faz a desigualdade e a miséria. Para Rancière, ou para Baudelaire, havia uma descoberta nesse processo, uma possibilidade mais franca de observar o outro, de conhecer o outro ainda que através da vitrine ou do espelho. Era o tempo de ver, de enxergar o rosto da humanidade, o rosto da opressão e da injustiça, e de enrubescer diante delas.

Me pergunto agora se teremos passado ao tempo de não ver, ao tempo de ignorar aquilo que sabemos tão bem. Por um ano e meio andamos isolados, abrigados tantos de nós entre as nossas paredes, muito cientes e muito ignorantes de tudo o que nos cerca. Agora voltamos às ruas com objetividade e com pressa, não nos demoramos em cafés ou calçadas, não nos fazemos contemplativos a acompanhar o ir e vir de toda a gente. Nossa relação com o mundo está mediada por aparelhos, está turvada por distrações e desvarios, e assim nos afastamos do real, nos afastamos de uma percepção concreta. Não vemos o que está ao nosso redor, por toda parte, não vemos quanto se agravou o problema, a infinidade desses seres que não são animais, e nada têm de extemporâneos, de inexistentes.

Qual palavra, qual notícia do mundo romperá esse torpor, nos despertará dessa consciência vacilante? Essa manhã foi minha filha quem restituiu a noção que já me escapava outra vez, quem voltou a recordar aquilo que eu jamais deveria esquecer. Talvez por isso eu escreva este texto, para que me sirva de registro, para que me sirva de lembrete, e me desperte, e me mobilize. É preciso outra pressa, é o que sinto. Escrevo isso um segundo antes de que volte a me alcançar o inadmissível, de que volte a me acossar o esquecimento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL