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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por uma literatura total, uma arte total que confronte o ódio à cultura

Pablo Neruda - Fundação Jorge Amado
Pablo Neruda Imagem: Fundação Jorge Amado

Julián Fuks

Colunista do UOL

25/09/2021 06h00

"Os poetas odeiam o ódio e fazem guerra contra a guerra". Foi nisso que pensei de imediato, nessa frase histórica de Pablo Neruda, quando fui convidado a falar num evento político sobre guerra cultural e censura. Um evento bonito, auspicioso, desses que há tempos não se testemunham, um encontro entre escritores, artistas, indignados, militantes, cineastas, taciturnos. Pensei na frase de Neruda e depois não pensei em mais nada, fiquei meditativo e inquieto por alguns dias. O que dizer sobre a sombria perseguição à cultura que subjaz a tantas políticas soturnas, o que dizer sobre o ataque às artes e sua asfixia, entre tantos ataques e asfixias mais literais, mais duros?

Há tão pouco tempo teria sido simples encontrar respostas a essas perguntas, alinhavar um discurso possível. Bastaria denunciar com palavras firmes as diversas maneiras em que a política tem afrontado os artistas, as agressões gerais e as particulares, as perseguições oficiais e as oficiosas. Bastaria vociferar contra o regime de ódio e terror que tomou conta do país, contra a ignorância e a truculência dos novos governantes, contra a baixeza sucessiva dos ministros da cultura. A isso se seguiria a afirmação incontestável de que a arte resiste, de que a arte deve se fazer punho erguido, ou punhal afiado a furar o ventre de seus inimigos. Arrancaria, talvez, alguns aplausos, mas sairia desconfortável com as metáforas brutas que cometi, com o vocabulário bélico, com a retórica inflamada, com a lógica simplista.

Na brutalidade e no belicismo eles nos superam com larga margem, os nossos perseguidores, os nossos antípodas. Contra os seus gritos tão agressivos, os nossos têm soado frágeis, gritos roucos e repetidos. Contra seus dogmas e suas convicções inamovíveis, as nossas denúncias chocadas têm se revelado inócuas, inoperantes. Esses velhos homens reacionários, cumpre admitir, são melhores que nós na prática da vociferação, do simplismo, da certeza acrítica. Se é nesse campo que se trava a guerra, sugiro que a desertemos já, neste mesmo momento. Nosso lugar, nosso pensamento, nossa escrita, têm que ser em tudo opostos a isso, opostos ao ódio, opostos à guerra.

É na guerra, mesmo antes de vencê-la, que eles nos mantêm reféns. Com justa indignação reagimos a cada um de seus ataques, contra eles escrevemos artigos, manifestos, notas de repúdio, deixamos que seus nomes e suas ignomínias ocupem os nossos escritos, as nossas ideias, os nossos dias. Muitos de nós passamos a sentir que já não é possível escrever os livros que escreveríamos, criar as obras que criaríamos, diante de tal política de despautério, diante de tão cotidiano acinte. Muitos de nós deixamos de ter novas ideias, deixamos de pensar no futuro, abandonamos utopias artísticas ou políticas, tomados de preocupação pelo presente convulsivo.

Há algum tempo venho defendendo a prática de uma literatura ocupada, em consonância com o gesto mais transformador de nossa época, e com o brado mais ressonante que temos ouvido: ocupar e resistir. Por toda parte, em décadas recentes, movimentos sociais diversos tomaram ruas, praças, escolas, edifícios oficiais, edifícios abandonados, fazendo de seus corpos agentes eficazes de mudança e protesto. A uma literatura atenta a esses processos caberia deixar-se também ocupar por esses corpos, por essas vozes, por essas lutas. Caberia deixar-se ocupar, ainda que momentaneamente, em movimento pulsante, pelo presente e pela política, pela liberdade e pela justiça que tanto almejamos — e que agora, mesmo antes que se cumpram em nossa sociedade, já vemos sob ataque.

Ocupar a literatura, ocupar as artes, ocupar a cultura, é um gesto fundamental, ainda penso, é a forma de luta mais imediata que nos resta. Mas é um gesto insuficiente diante de tamanho desafio. A uma tentativa tão clamorosa de desmanche da cultura e das artes, não se pode reagir em uníssono, com uma prática única, com um único pensamento. Em nome de uma arte política e incisiva, não cabe calar outros anseios, não cabe interromper outros processos artísticos que nos guiam, não cabe abdicar da pluralidade, da vastidão, da complexidade que desejamos em nossos ofícios. Não cabe sucumbir a nenhuma forma de silenciamento, algo que corresponderia com exatidão ao desejo desses homens velhos.

Me sinto, então, impelido a pensar em uma proposta maior, mais abrangente, tão ampla quanto possamos conceber: uma literatura total, uma arte total, uma cultura da totalidade criativa. Que em nossas obras tenha lugar a nossa resistência, mas também todas as outras formas em que existimos, que tenham lugar os afetos, a intimidade, o lirismo, o humor, o sexo, o que quer que seja. A totalidade não tem nome, não se esgota em enumerações, só pode ser vasta e diversa. Da totalidade das artes talvez se possa derivar uma totalidade da política, e quem sabe uma totalidade da vida.

A vivacidade e a diversidade do que podemos produzir, e a visão de futuro que elas albergam, e os tantos anseios emancipatórios que nos governam, tudo isso é a fonte do desespero desses homens e a razão por que nos odeiam. A esse ódio contrapomos o nosso ódio, e contra a sua guerra fazemos a nossa guerra. "A poesia é uma insurreição", volta a dizer Neruda, mas uma insurreição em novos termos. Nosso ódio não pode ser feito de ódio, e nossa guerra não pode ser feita de guerra.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL