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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Viver fora do tempo: não há, agora, sentimento mais libertador do que esse

MARCEL PROUST - Divulgação
MARCEL PROUST Imagem: Divulgação

Julián Fuks

Colunista do UOL

10/07/2021 06h00

Fora do tempo vivia Marcel Proust, e por isso não faz sentido comemorar os 150 anos de seu nascimento, que neste sábado se cumprem. Ou melhor, fora do tempo ele almejava viver, alheio ao alvoroço do presente, alijado do ruído do mundo, preferindo ouvir os murmúrios de outros seres, de outro século. Já cheguei a julgar inconsequente, confesso, essa disposição do grande autor francês de se ausentar de sua época e existir apenas em sua memória, em sua consciência -- ou nas páginas de um livro eterno que ele compunha sem nunca alcançar o desfecho. Hoje, não sei por que, chego bem mais perto de entendê-lo. Não vejo, no presente, refúgio mais agradável do que esse, viver fora do tempo.

Desde o início, escrevi como tantos outros, a pandemia pareceu irromper com força imprevista numa instância improvável, justamente em nossa experiência do tempo. Vivíamos algo como uma impressão coletiva de paralisia, um inchaço do presente em seu excesso e sua estranheza, algo que enevoava o passado e ameaçava cancelar o futuro inteiro. Não era, acho, um cancelamento do tempo, e sim o contrário. Uma sensação que ainda nos visita, que ainda habita os nossos dias, embora agora mais sub-reptícia ou discreta: a sensação de estarmos dentro demais do nosso tempo, imersos no tempo, embebidos de tempo. O receio de termos nos tornado reféns do próprio tempo.

Proust, na teoria narrativa que sua obra encerra, talvez possa nos acudir num momento como este. Em Proust podemos ler um convite a nos ausentarmos do presente, sem que isso precise resultar em escapismo ou evasão indevida, sem que isso signifique uma desistência. Neste mesmo presente, em qualquer presente, por um recurso simples ao alcance de qualquer sujeito, através de seus mais elementares sentidos e da experiência estética, seria possível recolher-se do horror presente e passar ao extemporâneo. Seria possível, assim, escapar à contingência e enfim "gozar a essência das coisas", situar-se, como propõe o narrador de O tempo redescoberto, "no único meio onde é possível viver".

A chave dessa recuperação do tempo perdido estaria nos momentos de plena identificação entre o presente e o passado -- algo que temos julgado quase impossível, tal a atipicidade que testemunhamos em nossos dias. Mas eram também dias atípicos aqueles em que Proust escrevia, era o tão convulsivo início do século vinte, e ainda assim lhe era dado escapar, ainda assim ele se permitia o asilo temporal. Seu recurso evasivo era a atenção total ao gesto ínfimo. Cada mínimo gesto, comer um bolinho e sentir um sabor antigo, ouvir o som tão conhecido de uma colher contra o prato, tropeçar entre pedras numa rua deserta, cada mínimo gesto conteria, potencialmente, uma epifania, um salto para fora do tempo, uma possibilidade de vivência extratemporal.

A obra de Proust é o território da complexidade, da sinuosidade discursiva, da busca incansável pelas nuances infinitas de um acontecimento, por sua multiplicidade de sentidos, e nisso ela também difere muito do que hoje vemos. E, no entanto, há simplicidade em seu princípio estético, e uma conclusão que ecoa com força em nossa época. O efeito de estar fora do tempo, de se tornar por um instante esse ser extratemporal, é ver como cessam, dessa maneira, as inquietações onipresentes sobre o fim, ver como deixamos de temer a morte. Que outro sentimento, em nosso tempo, poderia ser mais libertador do que esse?

"Um minuto livre da ordem do tempo recriou em nós, para o podermos sentir, o homem livre da ordem do tempo", é como seu narrador explica. Proust soube se libertar de suas circunstâncias, e a liberdade que alcançou com esse gesto ele quis usar para escrever. Fugiu assim às convenções, às pressões sociais que o deprimiam. Na escrita de si encontrou uma saída: "a quem me visitasse ou convidasse, eu teria a coragem de responder que, a fim de ser informado de coisas essenciais, tinha uma entrevista urgente, importantíssima, comigo mesmo." E isolado de todos, encerrado consigo mesmo, para sua própria surpresa, paradoxalmente, ele se fez um dos grandes intérpretes de seu tempo e de qualquer tempo.

A saída de Proust não precisa ser a nossa, isso é evidente. Há algo nela que não nos convence por inteiro, ainda que sua obra não deixe de convencer. Mesmo assim, não sei bem por que, acho que alguma coisa aprendo com sua lição de liberdade, e com seu compromisso com a própria intimidade. Da próxima vez que me vir ante a estridência insuportável do presente, talvez eu evite a pretensão de responder que tenho uma entrevista comigo mesmo. Melhor será dizer que, a fim de ser informado de coisas essenciais, tenho um encontro com as páginas de Proust.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL