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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sobre o rosto monstruoso do mundo, sem mais ocultamentos

04.dez.2019 - Retrato do escritor Julián Fuks em visita à Ocupação 9 de Julho - Marlene Bergamo/Folhapress
04.dez.2019 - Retrato do escritor Julián Fuks em visita à Ocupação 9 de Julho Imagem: Marlene Bergamo/Folhapress

Julián Fuks

Colunista do UOL

15/05/2021 06h00

Nenhum choro foi mais estridente, neste tempo de choros sentidos, tristes, desvalidos, nenhum choro foi mais intenso que o da minha filha ao se deparar com o meu rosto nu. Era a primeira vez que me via sem barba, meu rosto sem ocultamentos, a primeira vez que via a pele do meu queixo, a totalidade das bochechas. Meu rosto era a razão de seu desespero, eu me tornava seu monstro, encenava em vigília, talvez, um de seus primeiros pesadelos. Meu rosto era algo terrível, a um só tempo familiar e estranho, a encarnação do inquietante freudiano. Eu era, por um instante, o seu mundo desfeito, a ruína de suas certezas. Quem convencerá uma menina de um ano que seu pai não foi trocado por um homem qualquer que se parece com ele apenas vagamente?

Foi tão grande o choque que ela logo quis fugir à consciência, suspender seus sentidos, tomada por um sono irresistível que me exigiu imediata diligência. Contrariada, ela se entregou às garras de seu monstro, ao colo de seu susto, e ouvindo as canções costumeiras se deixou embalar por seu pesadelo. Apertava os olhos para não me ver, suas pálpebras tremendo, e então os abria para me olhar de esguelha, para conferir se era o pai ou o horror quem a ninava com um carinho suspeito. Quando eu lhe devolvia o olhar, ela fingia dormir, e esse foi o nosso movimento até que, nos meus braços, ou nos braços de outro, ela fingiu tão bem que finalmente dormiu.

Pude então, com seu sossego provisório, observar o meu próprio rosto no espelho, observá-lo com máxima atenção, e só por uma concessão ao comedimento adulto não cedi também ao desespero. Há sete anos não me via desse jeito, há sete anos a barba era vasta e espessa e de alguma maneira me protegia, me alienava de mim. Era inquietante voltar a me ver, inquietante em seu sentido pleno, carregado de ambivalência: não era só a presença de um estranho na minha imagem mais íntima, mas também a aparição do que deveria ter permanecido oculto, reprimido, secreto. Visto de muito perto, meu rosto era uma vastidão de poros e curvas e rugas que não me pertenciam, que me eram desconhecidos: visto de muito perto, eu era monstruoso até para mim mesmo.

Tive que me afastar do espelho para chegar a pensar que havia algo mais naquele sentimento, ou que ele guardava alguma relação com o que todos temos vivido nestes tempos. Que impressionante estranheza temos notado no rosto do mundo, que monstruosidade ele agora assume diante dos nossos olhos ingênuos. Há algo de terrível nas feições do mundo, algo que nos espanta, nos assusta, nos inquieta e poderia nos convidar ao choro estridente, se fôssemos mais sinceros. Algo que vai abatendo, progressivamente, cada uma das nossas certezas. Quem nos convencerá de que nosso mundo não foi trocado por um mundo qualquer que se parece com ele apenas vagamente?

Algo nos foi exposto com súbita crueza, sem mais ocultamentos, algo que talvez jamais desejássemos ver. A impiedade, a injustiça, a ignorância extrema compõem a pele agora à mostra de um mundo que já nos foi familiar, mas que se degradou tanto que já não o reconhecemos. É nos braços desse mundo que nos deixamos embalar, que ouvimos nossas canções costumeiras, que dormimos ou fingimos dormir, incapazes de qualquer resistência. Comprimimos os olhos para turvar as imagens, mas quando os abrimos ele ainda está lá, ele também nos contempla e se funde a nós, muito mais íntimo do que gostaríamos de admitir. Esse mundo monstruoso também é composto por nós mesmos.

Quando acordou, Penélope já não sofria tanto, seu desespero era bem mais sutil, talvez não passasse de uma aflição menor que ainda a obrigava a desviar o olhar. Foi pelos outros sentidos que ela começou a se reaproximar de mim, procurou o meu colo seguidas vezes, apertou-se aos meus ombros com força inédita. Primeiro buscou meu queixo com sua mão pequenina e se pôs a acariciá-lo, lentamente. Depois vieram os beijos, inesperados e insistentes, os primeiros toques de sua boca na minha bochecha, beijos carregados de reencontro e perdão, da generosa absolvição dos meus defeitos que ela enfim conhecera. Aqui já não encontro a correlação perfeita, mas sinto que temos algo a aprender nesse esforço radical de adaptação, nesse cuidado extremo, nessa entrega carinhosa ao ser que lhe resta, ao tempo que vem pela frente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL