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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

As palavras, vítimas suplementares de uma política destrutiva

A primeira-dama Michelle Bolsonaro discursa em libras (linguagem de sinais destinada à comunidade surda) no Parlatório do Palácio do Planalto, antes do pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro. -  Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
A primeira-dama Michelle Bolsonaro discursa em libras (linguagem de sinais destinada à comunidade surda) no Parlatório do Palácio do Planalto, antes do pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro. Imagem: Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Julián Fuks

Colunista do UOL

01/05/2021 06h00

Já não restam nomes para chamar Bolsonaro, para referir sua abjeção, sua atrocidade. Invejo aqueles que iniciam seus textos confiantes de que encontrarão a palavra exata, o nome ainda não dito que gere a comoção necessária. Com inocência e um senso agudo de responsabilidade, continuam a crer na potência do discurso, de uma linguagem que abale as estruturas e nos salve. Há momentos em que sou um desses. Outras vezes, porém, entendo bem os que desistiram, os que conseguiram dispensar o imperativo de afirmar infinitamente a mesma crítica, de expressar de novo a mesma velha indignação que os corrói, que nos corrói a cada dia.

Eu poderia estar falando apenas de um esgotamento lexical ou criativo, mas sinto que me aproximo de algo maior. Falar dessas palavras que fracassam, que giram em falso numa repetição incansável de termos abrasivos, é falar sobre um desgaste da linguagem, uma falência comunicativa. Tudo já foi dito uma infinidade de vezes, poucos governantes na história cometeram erros e crimes tão evidentes quanto os dele, tão clamorosos e explícitos, poucos foram denunciados tão continuamente, tudo já deveria ter sido compreendido. E, no entanto, se fugimos dos nossos círculos cotidianos, das nossas bolhas de informação, descobrimos que ainda estamos distantes de um consenso, ou de qualquer tipo de compreensão coletiva.

As palavras já não dizem o que deveriam dizer, não cumprem as expectativas que nelas investimos. As palavras se fizeram inoperantes e vazias, servindo somente a fins paliativos: estreitam laços já estabelecidos, abrem diálogos de cumplicidade e alívio, satisfazem um anseio íntimo de agir de alguma maneira. Perderam a capacidade de convencer e de engajar, de contribuir a um debate público mais efetivo e transformador, de atuar na reversão de uma tragédia que se agrava dia após dia. As palavras são as vítimas suplementares de uma política destrutiva em cada um dos seus aspectos.

Que o projeto bolsonarista propunha uma corrosão na comunicação e na linguagem é algo evidente há uns quantos anos. Algo nem um pouco surpreendente: é sabido que todo governo intolerante e autoritário começa a se impor a partir de um novo vocabulário, de uma novilíngua, de um discurso pobre que abre caminho ao fanatismo. "O fascismo começa não com as atrocidades, mas como uma determinada maneira de falar, de formular os problemas", diz o historiador Jean Baubérot. Mas o fascismo formula os problemas de tal maneira que os distorce, os escamoteia. O escritor David Grossman completa o pensamento: "Uma sociedade em crise forja um novo vocabulário para si usando palavras que já não descrevem a realidade, mas que tentam ocultá-la."

O esforço repetitivo que temos visto nos textos inflamados que nos chegam de toda parte é o de renomear a realidade ocultada, de recuperar os fatos tão vilipendiados. Mas esse esforço resulta inócuo e desesperado porque se vale justamente das ferramentas que se corroeram nesse processo cáustico: as palavras e sua credibilidade. Para grande parte da população, todo texto público é agora lido com desconfiança total, toda crítica ao presidente esconde uma perseguição insensata, todo especialista usa seu discurso para enganar os desinformados. Vocifera-se cada vez mais porque os ouvidos estão tampados.

Mas tudo isso também já se disse demais, e assim passa a ser importante considerar um outro aspecto que tendemos a ignorar. Também as nossas repetições vociferantes depauperam a linguagem, vão se tornando superficiais e esquemáticas. Como até os fatos mais elementares nunca chegam a ser assimilados, nos vemos a insistir no óbvio, a repisar as mesmas ideias com as frases de sempre que se propagam por todo lado, apenas com sutis variações de estilo e de tom. Grossman, desta vez, não nos salva: "Eu me torno parte da massa quando renuncio ao direito de pensar e formular minhas próprias palavras, na minha língua, e aceito, automaticamente e sem críticas, as formulações e a linguagem ditada por outrem."

Sem aderir ao discurso falso da polarização ou dos males que se equivalem, cumpre assumir, então, também a nossa responsabilidade pelo rebaixamento da linguagem. Admitir que algo tem nos faltado, que as ideias novas têm sido escassas nos últimos anos, e que também essa falta foi o que abriu espaço para a ascensão do horror que agora testemunhamos. O empobrecimento do nosso próprio discurso, essa é a hipótese que me vejo a aventar, talvez seja expressão de um empobrecimento maior: o da nossa visão de futuro.

Chego a Grossman e a Baubérot através de uma autora mais jovem, Lina Meruane, uma chilena de ascendência palestina que tem visitado com enorme lucidez os conflitos que marcam o passado e o presente de seu povo. Nela, em sua visão histórica e em seu ideal de literatura, encontro uma formulação possível para sair dessa encruzilhada comunicativa em que nos encontramos. "É preciso quebrar, com a linguagem, a sufocante dicotomia a que o discurso político nos submete, um discurso que intensifica dramaticamente as posições binárias", ela diz. "O pobre idioma da dicotomia acaba substituindo toda complexidade e todo pensamento crítico".

Contrariar o empobrecimento comunicativo seria, então, a principal função do engajamento no exercício diário da escrita. Na literatura, em sua rebelião contra as formas redutoras e as verdades inquestionadas, em sua recusa à simplificação e às certezas consabidas, o debate público poderia recuperar algo de sua vitalidade, e assim reencontrar seu futuro. Mas a literatura também escapa às mensagens taxativas, e Meruane cita Susan Sontag: "Nada é minha última palavra sobre algo".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL