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Julián Fuks

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Sobre a dor dos outros, esse abismo em que nos debruçamos

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Julián Fuks

Colunista do UOL

27/03/2021 06h00

A dor dos outros tomou conta de tudo, já não permite nenhum contorno, nenhuma fuga. Por todo lado ela nos confronta, mostra seu rosto em cada notícia, faz-se curva nas estatísticas, ganha corpo na concretude das ruas, ressoa na voz dos amigos. A dor dos outros é variada e expansiva: é a dor da morte, da perda, da fome, dos planos desfeitos, dos sonhos esquecidos. É a dor da desilusão, da desesperança, da indignação, da saudade, da espera. A dor dos outros é plural, são muitas dores, mas é também uma única dor a lancinar o país, talvez o mundo. A dor dos outros é tão vasta quanto o mundo e por isso a perdemos de vista.

A dor dos outros é um abismo sobre o qual a nossa dor assoma. Tenso e hesitante, dela um homem se aproxima. Se ele recua um passo, se decide se resguardar da queda, acaba por se alienar do sofrimento, se faz indiferente e frio. Segue sua vida com alguma calma, sobressaltado apenas pelos gritos que sobem do precipício. Se, no entanto, dá um passo adiante, deixa-se tomar pela súbita vertigem, seu corpo estremece, as lágrimas o visitam, ele paralisa. Faz da dor do outro uma dor sua e só escuta o seu grito, abafando as muitas vozes que deveria ouvir. No fino fio entre a segurança e o tombo é que procura o equilíbrio impossível.

A dor dos outros é um problema de resolução inexistente, um impasse, uma aporia. Diante desse problema, estamos quase sempre sós, em meio a uma comunidade ilusória e esquiva. "Nenhum 'nós' deveria ser aceito como algo fora de dúvida, quando se trata de olhar a dor dos outros", Susan Sontag diz. Contemplamos a mesma dor, a mesma dor nos afronta, lado a lado nos deixamos tomar pela repulsa e pelo horror. Por um átimo, essa companhia nos apazigua, sentimos que nela haveria força para mitigar a dor. E então discutimos como saná-la e palavra por palavra vamos divergindo, não chegamos a nenhum acordo, voltamos a ser rostos tristes e sós espiando o abismo.

"Por longo tempo as pessoas acreditaram que, se o horror pudesse ser apresentado de forma bastante nítida, a maioria das pessoas finalmente apreenderia toda a indignidade e a insanidade da guerra", comenta Sontag. Diz guerra, mas poderia dizer tirania, miséria, pandemia. A circunstância não altera o erro de julgamento: muitos continuam a deturpar o horror, a ignorar suas razões, a renovar os argumentos de suas certezas equívocas. Diante da imagem crua da catástrofe, seguimos por Sontag, as reações podem ser bem diversas: uns apelam pela paz, uns clamam por vingança, e outros tantos talvez se limitem a aceitar, bovinamente, que "coisas terríveis acontecem".

A dor dos outros é exigente, nos pede mais que compaixão, mais que o exercício breve da empatia. Para ela não basta a indignação inespecífica, não basta a aversão repentina e efêmera. A dor dos outros conclama ao pensamento e à ação, a uma compreensão profunda de suas origens e seus mecanismos, a uma tomada de posição assertiva. Mas de nada lhe vale a ação individual, nada fará aquele que ponderar profundamente e então lançar seus braços sobre o abismo. A dor dos outros nos exige o acordo improvável, a comunidade que perdemos entre ódios e indiferenças.

Da literatura não esperamos que nos salve do abismo, ou não deveríamos. Na literatura, a dor dos outros se fez um novo problema, igualmente insolúvel. Já não acreditamos que podemos acessar, compreender, descrever a dor dos outros. Restam duas opções insuficientes. Explorar a minha própria dor até o limite, na remota esperança de que o outro sim consiga acessá-la e compreendê-la, consiga até se reconhecer nela. Ou simular a dor do outro tão bem quanto eu puder, correndo o risco de avançar sobre ela e enchê-la de palavras insinceras, de cobrir o abismo da dor alheia e já não o ver.

Mas há momentos em que a literatura supera o seu impasse e se faz maior do que o seu problema. Foi o que senti ao ler "Vista chinesa", de Tatiana Salem Levy, o relato cru e contundente de uma violência indizível, de um estupro e suas múltiplas reverberações na vida de uma mulher. É duro submergir nessa dor, entre tantas dores do mundo, é duro acompanhar o relato que foge a qualquer alusão, a qualquer elipse, que tudo narra minuciosamente. Por vezes senti estar saltando no abismo da dor dessa mulher, um abismo que me devolvia intacto ao meu corpo, pois essa dor não me era dado conceber.

A força do livro está em sua construção sensível, em sua linguagem, mas também em sua concepção: Tatiana não narra sua própria dor e tampouco inventa a dor alheia. Dá a mão a Joana Jabace, a vítima do crime em questão, e juntas elas encontram as palavras para expressar o que uma fatalmente calaria, o que a outra não se atreveria a explorar. E agora o gesto solidário se faz explosivo, vai tomando uma comunidade de leitores e leitoras e já tem dado lugar a outros relatos do indizível, já tem se feito a ação comum que o presente nos exige.

Nunca terminaremos de testemunhar a dor dos outros, o abismo não se fechará diante de nós. Mas por vezes é possível vislumbrar o movimento que o cobrirá de terra ao menos um palmo, e isso devolve vigor ao nosso corpo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL