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Julián Fuks

O inimaginável em Manaus: retrato de um país à beira da asfixia estatal

Vista do Cemitério Público Nossa Senhora Aparecida, na cidade Manaus - Lucas Silva/Agif
Vista do Cemitério Público Nossa Senhora Aparecida, na cidade Manaus Imagem: Lucas Silva/Agif

Julián Fuks

Colunista do UOL

16/01/2021 04h00

É inimaginável. O que nos chega numa profusão de notícias dramáticas, de vídeos caóticos, de áudios desesperados, o que subjaz à aflição de tantas vozes, sim, é inimaginável. O que acontece neste mesmo instante atrás das fachadas dos hospitais, através de suas portas escancaradas, por seus corredores abarrotados, nas câmaras de cuidado que se fizeram câmaras de morte: é inimaginável. O que nenhum fotógrafo até agora parece ter se atrevido a registrar, nenhum cinegrafista, os corpos arfantes subitamente privados do elemento mais essencial: é inimaginável. E porque é inimaginável, e porque seu horror foge às palavras, vale a incitação de Didi-Huberman: devemos imaginá-lo apesar de tudo.

Certas imagens têm o poder de se fazer emblemas de uma situação maior, sínteses de um processo mais vasto. Neste caso específico, basta a imagem que constituímos em nossas mentes, o cenário de terror composto pelos relatos que nos chegam de Manaus. Há homens e mulheres morrendo por falta de oxigênio dentro dos hospitais, definhando no exato espaço que os deveria salvar. Simultaneamente em várias unidades, por toda a cidade, o ar se faz escasso e sufoca uma infinidade de corpos. Falta fôlego também a enfermeiros e médicos, bombeando os pacientes com respiradores manuais. Falta-lhes o fôlego quando têm que decidir quem vive e quem morre, e quando têm que preencher "covid" no atestado de óbito, quando gostariam de dizer: "indigência estatal".

Dói ouvir cada uma dessas palavras, dói reiterá-las com as minhas próprias. Dói retornar seguidas vezes ao lugar onde nunca deveríamos entrar, dói chegar ao âmago de tal desastre. Dói, mas é fundamental que o façamos para compreender a dimensão do descalabro, é fundamental que todos o façam para que enfim se crie uma indignação compartilhada. Do inimaginável partimos, e então alcançamos o intolerável. O que acaba de acontecer, o que está acontecendo ainda agora, é da ordem do inaceitável e tem que ser interrompido de imediato.

Não deveria surpreender, mas surpreende. Bolsonaro cansou de dizer que faria um governo letal, que torturaria, fuzilaria, distribuiria a cada cidadão de bem as ferramentas necessárias ao assassínio em massa. Para o nosso azar, as circunstâncias foram generosas com seus impulsos macabros: com a pandemia, o mais lamentável presidente que já tivemos pôde tornar indiscriminada sua política de dizimação, pôde amealhar vítimas de qualquer perfil e em qualquer parte. Não cabe acusá-lo de incapacidade, julgá-lo despreparado para o ofício. Quem o diz é a jornalista Eliane Brum: "A negligência é deliberada. Não é incompetência para enfrentar a covid-19, mas sim competência para o extermínio."

As metáforas já se fazem desnecessárias: é da forma mais literal que o governo asfixia o país, sufoca o seu povo no momento de maior fragilidade. É assim que hoje se morre no Brasil, é assim que hoje se mata. A necropolítica ampliou suas potencialidades, barateou-se, simplificou-se ao máximo. Vale-se dos recursos mais acessíveis em tempos de crise econômica: suas armas são o descaso, a indiferença, a negação, a mentira, a adesão a toda falsa verdade que agrave a pandemia, que possa estender o sofrimento ao infinito. Toda ação do governo tem como fim a inação, a produção generalizada do abandono.

Não nos enganemos, não deixemos que nos enganem. A urgência da situação não comporta palavras apaziguadoras, ressalvas, relativizações, insustentáveis transferências de culpa. Quem está no cargo mais alto do país tem responsabilidade total pelo naufrágio humanitário - todos vimos como suas atitudes nos conduziram à catástrofe. Ninguém negará que um impeachment é uma medida difícil, traumática, que atinge duramente o Estado e fere em alguma medida aquilo que foi, incompreensivelmente, a escolha popular. Mas, sim, agora há algo mais em jogo do que uma disputa de poder, agora está em risco a sobrevivência de mais algumas centenas de milhares. De novo fenecem as figuras de linguagem: não há nenhuma hipérbole em dizer que se trata de um caso de vida ou morte.

Somo a minha voz aflita a tantas outras vozes. Por sua condução desastrosa da pandemia, equivocada em todos os aspectos, deliberadamente irresponsável e impiedosa, Bolsonaro tem que ser afastado do poder. Cabe imaginar o inimaginável: que a urgência seja enfim reconhecida, e que as muitas forças do país se somem nessa medida indispensável. Quem sabe assim o oxigênio volte a circular entre nós, quem sabe assim o país escape à morte por asfixia estatal.