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Julián Fuks

Para que essa ansiedade, essa angústia? Breve confissão ao general

O ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello - ADRIANO MACHADO
O ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello Imagem: ADRIANO MACHADO

Julián Fuks

19/12/2020 04h00

Nunca me confessei a um general. Sempre me senti mais à vontade em confidências à minha mulher, aos meus amigos, a algum psicanalista, a algum leitor numa página sutilmente mais sentimental. Nunca me senti compelido à palavra, coagido a falar, nunca fui torturado por sinistras forças oficiais. Mas há neste país um tal pendor para a violência, uma tal vocação de nos tirar dos nossos lugares habituais, que aqui venho eu estrear nessa outra tradição nossa. Suas perguntas torturam, general Pazuello, e por isso trago a minha confissão, arrisco algumas razões para toda essa angústia, essa ansiedade.

Por que tanta angústia, você pergunta. Alguém já o terá alertado, convém que alguma hora você ouça. Porque a morte campeia pelas ruas, pelas praças, porta adentro em tantas casas. Porque a morte abarrota hospitais, alarga cemitérios, abre com retroescavadeiras valas anônimas alinhadas. Porque a morte agora só quer ser contada às centenas, aos milhares, às centenas de milhares. Minha angústia não é minha, general, é uma angústia nossa, uma angústia compartilhada pelo povo e pelos povos. Algo que se contagia sem o mínimo contato, sem o mais breve abraço, e também por isso cala fundo nos nossos ossos.

Por que tanta angústia, você pergunta. Erga o rosto, olhe um pouco ao seu redor. Porque, bem à sua volta, aí do lado, existem homens obscuros que fazem da morte o seu ofício, que realizam sua política de assistência à morte, de estímulo fiscal à morte, de subsídio estatal à morte. Você é um desses homens, general. Esses homens matam com suas polícias, com suas milícias, com suas leis, com suas palavras. Estão desenvolvendo uma nova estratégia comercial: que, bem abastecidas de falácias, as pessoas não queiram se cuidar e assim matem umas às outras, e se matem por si próprias. Minha angústia, general, nossa angústia é com o progresso da indústria nacional de cadáveres.

Por que tanta angústia, você pergunta. Suba a um avião, esqueça um pouco a sua função, percorra em sobrevoo o nosso solo. Observe em particular as matas, observe os territórios indígenas, as reservas florestais. Porque a terra calcina, general, porque a terra arde sob os nossos pés descalços. E porque não são só os nossos pés que queimam, tudo queima, animais, árvores, rios, céus: queima algo muito maior do que isso que você chama de pátria. Ouça o que dizem sobre isso os seus colegas, general, ouça como propagam o fogo com seu bafejar nefasto. Nós os ouvimos: essa é também uma razão para a nossa angústia.

Por que tanta angústia, você pergunta. Vá a uma biblioteca, leia um dicionário de psicanálise. Você já ouviu falar de Freud, general, mas não sei se conhece um tipo de angústia que ele descreve, não sei se conhece seu conceito de Realangst. Não só uma angústia real, mas uma angústia diante do real. A angústia que sentimos quando enfrentamos um perigo imediato, quando constatamos a iminência do trauma. Ou quando já estamos tomados por ele, por inteiro, quando o presente já se fez trauma futuro, e ainda assim parece inelutável. Essa é a angústia que sentimos, general, é Realangst, você reconhece?

E por que tanta ansiedade, você também pergunta. Nesse caso a resposta talvez seja mais fácil. Porque queremos voltar às ruas, general, ocupá-las com nossos corpos ainda saudáveis. Porque queremos tomar as avenidas, tomar as praças, abarrotá-las de vida, queimá-las com outro fogo inelutável. Porque nossa indignação não consegue esperar, quer percutir em cada esquina nosso grito de basta. Porque temos uma sanha por justiça, general, temos pressa em derrotar os brutos e encerrar o desgoverno, o descalabro. Por isso a nossa ansiedade, general, para isso a nossa ansiedade, para que enfim a vida possa calar os agentes da morte.