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Julián Fuks

Por uma educação ao vivo, feita de corpos que a tecnologia não mutile

Getty Images
Imagem: Getty Images

Julián Fuks

12/12/2020 04h00

Talvez nos caiba, no exato dia em que pudermos julgar que tudo isso acabou, e que já não precisamos nos isolar ou guardar cautelosas distâncias, talvez nos caiba nesse dia agradecer por tudo o que a tecnologia pôde nos dar. As conversas íntimas que nos permitiu travar, os vídeos que nos enterneceram a cada poucos minutos, os shows, as palestras, as aulas, tudo o mais que se prestou à conversão em vivas lives. E então, nesse exato dia, quando já expressa a nossa gratidão sincera, talvez convenha acompanhar o gesto com um parcial aceno de despedida. Obrigado, encerramos por aqui, já não precisamos tanto assim dos seus serviços - sinto muito, mas nossa vida agora vai seguir outros caminhos.

De tudo o que há de se transformar no mundo a partir da experiência-limite que tem sido a pandemia, eis uma novidade a que não convém aderir: a transposição quase completa da vida ao universo virtual, intangível, a deserção tão perceptível do universo físico, sensorial, tangível. Que acabe por se realizar uma atrofia dos corpos, dependentes como nunca de seus apêndices eletrônicos: esse é o risco que agora chega a nos assombrar, ou deveria. Se, nos convulsivos meses que temos vivido, a tecnologia cuidou de dirimir distâncias e aproximar corpos inacessíveis, o risco futuro é que ela própria se faça razão da distância, obstáculo entre corpos já indiferentes, já insensíveis.

Uso termos genéricos, falo de um mal difuso e expansivo, mas penso em específico no perigo que sofrem os processos educativos. Não nego que tenha havido surpresas positivas, improváveis benefícios. Um tanto às pressas, no improviso, descobrimos que são viáveis cursos inteiros que prescindem da presença física, e que por isso nos permitem superar os limites do nosso bairro, da cidade, do país. Desconfiado de partida, confesso que cheguei a tomar gosto pelos cursos que dei online, que me agradava fechar uma porta da minha própria casa e estar de imediato numa sala de aula, em diálogo com alunos numerosos que não ocupavam espaço algum em meu escritório, que não produziam nenhum ruído. Era um gosto compartilhado: também os alunos se mostravam contentes em esquivar intempéries e transgredir geografias.

Foi com o tempo, e da maneira mais sutil, que a comodidade se converteu em acomodação, que o entusiasmo com o teletransporte foi cedendo a algum desânimo. Pode ser só reflexo das circunstâncias tão duras, deste ano terrível, do mau humor compreensível que domina tantos - é o que tenho dito a mim mesmo, é o que outros justificam. Mas não consigo deixar de sentir que o incômodo vem do meio em que nos relacionamos, do meio em que nos estranhamos. Desse desencontro cotidiano que chamamos encontro, da nossa voz que o aparelho traduz em som mecânico, do nosso rosto que a tela estilhaça em pixels. Tão completa e discretamente a tecnologia nos dilapida, que talvez do outro lado não cheguemos a sair vivos.

Não é nada novo o que digo. A mesma perda de entusiasmo se viu desde os primeiros meses, com o escasseamento gradual dos encontros virtuais entre amigos e familiares, reuniões cada vez menos prazenteiras, mais insuficientes, mais indesejáveis.

Toda uma comunidade que batalhava para preservar o contato de repente já não quis mais se ver, cansou-se da presença espectral do outro, cansou-se de sua ausência. Também o festival internacional de lives pareceu arrefecer, foi perdendo o encanto, aos mais sensíveis chegou até a aborrecer. À educação, porém, restou a obrigatoriedade dessa insuficiência: professores e alunos a perpetuarem uma experiência inautêntica, algo que só parece educação, mas no fundo não passa de sua simulação empobrecida.

Já há décadas a teoria da comunicação foi capaz de apontar a origem do problema. Em aguda autocrítica, compreendeu que não podia apenas atentar a meios e mensagens, que não podia limitar seu olhar ao trânsito de informações. A comunicação humana começa no corpo, afirmou o alemão Harry Pross, do corpo é que emanam os gestos, sons, movimentos, odores, entre corpos é que se constrói um possível vínculo. Sem corpos, ou com sua diluição em mera imagem, pode até se difundir algum conhecimento, mas não se constrói real afeto, não se constitui uma troca. Sem o encontro entre corpos no espaço, sem também o atrito e a fricção entre os corpos, não se constitui uma comunidade, nos limitamos à condição de espectros a trocar palavras impalpáveis.

A educação precisa se repensar, precisa aproveitar a oportunidade e se transformar, é o que muitos têm dito ante a interrupção forçada. Concordo, mas sempre que ouço o apelo sinto a urgência de ressalvar: que a transformação tome o rumo contrário disso tudo que temos experimentado, que não se dê como forma de aceitar a distância, a experiência depauperada. Que não se conceba a educação como troca eficaz de conhecimento e informação, pois essa eficácia silencia algo muito mais imprescindível, mais vital. E que não se realize o abandono das universidades, das escolas, da cidade, o abandono com que tantos já parecem conformados. Quando chegar a hora, que a vida volte a ser feita de corpos no espaço, corpos em contato, corpos em contágio.