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Julián Fuks

Outras vivências são possíveis na quarentena que se anuncia

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

21/11/2020 04h00

Que nos revelaria verdades, que alteraria nossa forma de conceber a vida, que criaria amplas redes de solidariedade, que transformaria as relações que travamos entre todos e com a natureza. Na pandemia já investimos grandes expectativas. Passado um ano inteiro desde seu início, e vendo se estender indefinidamente seu rastro de dores e perdas, vendo como o excepcional se faz diário e repetitivo, a sensação mais comum é de que pouco aprendemos. Se algo podemos tirar disso, talvez não passe da descoberta de verdades conhecidas, a confirmação de velhas certezas.

Afirmo uma dessas verdades possíveis sob o risco de afirmar uma obviedade: que somos uma comunidade tremendamente partida, que nos deixamos cindir em núcleos particulares, em espaços privados, comprometidos quase por completo com vínculos convencionais. Que imensa parte da nossa sociedade está fechada num modelo único, aparentemente intransponível, dividida ao infinito na mais comum das medidas: a família. "Fique em casa", foi a palavra de ordem que tanto ouvimos, e os que puderam e se importaram em obedecer parecem tê-la interpretado quase sempre da maneira mais literal possível: cada um se fechou em sua própria casa, entre as suas próprias paredes, com seu núcleo íntimo e nada mais.

Tão arraigada é essa visão de mundo fundada na família normativa que mal conseguimos imaginar algo diferente, mal conseguimos enxergar que tínhamos alternativas. O imperativo de isolamento social não trazia especificidades, não definia onde ou com quem deveríamos nos isolar. Reduzindo ao mínimo o contato com o exterior, seguindo com disciplina as diretrizes sanitárias, poderíamos sim ter inventado outras unidades, outras formas de existência, poderíamos ter composto novas comunidades. E, no entanto, no automatismo de nossas vidas tão regradas, como se a quarentena se iniciasse ao fim de um dia qualquer, apenas mais uma jornada laboral que se acabava, voltamos para casa, nos abrigamos em nosso teto familiar, nos acomodamos no sofá habitual e passamos a lamentar a imobilidade.

Não é difícil imaginar as consequências dessa falta coletiva de imaginação. Para os que vivem sós, por meses que se alongaram sempre idênticos a si mesmos, a quarentena implicou a conformidade com um silêncio peculiar, a interrupção de todo contato físico, toda possibilidade de diálogo reduzida à insuficiência das telas. Para mães solo, a situação foi dramática de maneira quase contrária, na inexistência do silêncio, na impossibilidade de um espaço pessoal, de um tempo pessoal, de uma conciliação mínima entre trabalho, cuidado e vida social. Todos ouvimos essas histórias, a quarentena ao menos não foi carente de relatos: em cada casa habitou uma dor menor, uma perda menor, um cansaço menor que preferimos ignorar.

Na minha própria casa, pelas manifestações a um só tempo enfáticas e indecifráveis das crianças, percebo que toda essa limitação também deixou sua marca. Minha filha mais nova completou um ano agora: quase dois terços de sua vida se deram em reclusão domiciliar, com severas restrições de convívio, descobrindo do alto um mundo feito de janelas, ruas, carros, algum eventual desconhecido que passava. Sua concepção de família, de conforto, de intimidade, é tão exígua quanto o espaço que lhe coube habitar: limita-se à mãe, ao pai, à irmã, a todos os que ela chama, alternativamente, de "mã-mã" - algo que em sua língua deve designar a única entidade íntima. Só agora, com a relativa abertura que temos exercido, ela começa a compreender que outros amigos e familiares também podem integrar o seu círculo, também merecem confiança e carinho.

A aflição da minha filha mais velha já narrei por aqui, sua melancólica nostalgia de um mundo perdido. Agora, diante das pequenas reconquistas, o seu humor mais frequente talvez seja uma espécie de euforia, a alegria incontida que uma menina de três anos nunca se preocupa em esconder ou guardar para si. A alegria é acompanhada de um inconformismo: não quer mais aceitar que essas outras relações sejam interrompidas, empenha todas suas forças em rejeitar a restrição ao nosso núcleo específico. Adota a cada encontro uma nova família, tentando se camuflar entre seus membros, já quis se emancipar e formar uma casa nova com a prima.

Eu aceito sua inaceitação, compartilho de seus anseios, identifico também em mim sua resistência. Percebo a insuficiência desse modelo geral que concebemos, sinto que a vida poderia se ampliar enormemente, que somos capazes de construir outras formas de coexistência. A humanidade já soube ser mais criativa: releio agora a abertura do "Decamerão", de Bocaccio, sem mais atentar ao retrato da morte, das múltiplas dores e perdas provocadas por uma cruel epidemia. Releio o livro e admiro os dez jovens que abandonam suas casas, que mal se conhecem e no entanto decidem se recolher juntos num casarão abandonado, para conviver intensamente enquanto a peste não passa, intercambiando músicas e vinhos e abraços e histórias.

Escrevo este texto com consciência de que as pequenas reconquistas recentes estão em risco, de que em pouco tempo talvez seja necessário retomar o rigor maior da quarentena. E se assim for, nutro, já não tão secretamente, a esperança de podermos nos valer da experiência que tivemos e desenvolver algumas ínfimas estratégias de sanidade e sobrevivência. A esperança de que possamos ser mais livres e criativos na maneira de encarar o desafio que se apresenta, e quem sabe assim nos vejamos transformados no final desse processo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.