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O fim do velho homem: fragilidade de Trump é emblema de uma derrocada maior

Drew Angerer/Getty Images
Imagem: Drew Angerer/Getty Images
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

Colunista do UOL

17/10/2020 04h00

Uma cena risível da semana passada, uma entre as muitas cenas risíveis deste ano estrambótico, talvez mereça mais do que o nosso riso, talvez mereça uma reflexão roubada à perplexidade. Donald Trump chegando a seu comício em Nevada ao som de "Macho Man", convalescente ainda, sabidamente fraco, possivelmente ainda infectado pelo coronavírus. A cena é marcante por seu contraste: no momento máximo de sua debilidade, depois de dias de especulação sobre seu precário estado de saúde, e vendo crescer a probabilidade de uma iminente derrota nas urnas, o homem decide fazer sua máxima declaração de força, de potência, de virilidade.

Todo esse esforço poderia resultar comovente, mas não, entendendo o gesto em seu contexto, e conhecendo a sordidez do personagem, resulta não mais que patético. O ato é transparente em seu caráter de negação, de recusa a enxergar com sinceridade a si mesmo e a sua situação, de alienação sobre seu corpo e sua interioridade. Compreendendo, como tantos, todo tipo de sofrimento, de dor e de medo como um traço de feminilidade, recusando toda necessidade de cuidado, Trump decide contrariar as manifestações mais patentes de seu corpo e afirmar-se macho, rijo, imperturbável. Curiosamente, num possível lapso, o faz apelando àquele que entrou para a história como um hino à homossexualidade - uma música que não afirma o padrão de macho que ele deseja encarnar, e sim ironiza essa lamentável exigência social.

A psicanálise já cuidou de descrever bem esse quadro. Não é difícil notar que estamos diante de um mecanismo compensatório, daquilo que se costuma chamar de "formação reativa". Acometido por um desejo que ele próprio não consegue aceitar, talvez o desejo de assumir sua fraqueza em tudo o que isso pode implicar, talvez o desejo de se entregar ao cansaço, o sujeito emprega todos os seus esforços na direção contrária. Investe contra si mesmo e quer se tornar um bastião no combate àquilo que secretamente o acossa. É o caso clássico do libertino que se faz puritano, ou do exibicionista que defende enfaticamente o pudor, e também, como agora, do homem tão assombrado por sua própria insegurança que só sabe se afirmar onipotente.

Mas o quadro psíquico de Trump e seus íntimos pendores, é claro, importam pouco numa perspectiva maior. Muito mais interessante é contemplar a cena no que ela tem de emblemático, como eloquente figuração de um momento histórico. Ali, às claras, diante de uma horda de homens eufóricos, não vemos apenas um homem velho que se recusa a usar uma máscara: vemos desmascarada uma velha masculinidade. Todo um conceito de homem marcado pela violência, pela truculência, pela opressão dos mais vulneráveis, pela subjugação das mulheres e mesmo de outras masculinidades, todo o conceito hegemônico de homem surge envelhecido aos nossos olhos, revelando como poucas vezes sua fragilidade.

"Paradoxalmente, o homem virilizado é frágil", dizem os feministas Pascale Molinier e Daniel Welzer-Lang. "Seu ego carece de espessura e flexibilidade psíquica; não sabendo suportar nem elaborar o sofrimento, resiste mal aos remanejamentos de seu status social." E porque não aceita que possa ocupar qualquer outro posto hierárquico que não o do poder máximo, porque não aceita que possa perder o monopólio da força e o privilégio da violência, o homem preocupado com sua virilidade se desespera, se faz ainda mais violento, ainda mais histriônico e radical.

Não nos enganemos, não deixemos que o histrionismo do presente turve o nosso olhar para o movimento maior: o que temos visto nas últimas décadas é uma série de golpes severos contra esse velho padrão de masculinidade, um intenso questionamento de cada um de seus traços. A força dos movimentos feministas, LGBTQIA+, antirracistas, antifascistas, desestabilizou essa figura antes incólume, e ameaça construir novas hegemonias que derrubem esse homem até agora hegemônico. Acuado, embora ainda poderoso, o velho homem reage, mobiliza as forças conservadoras, atrai o poder financeiro, convence parte das massas. Decide então fazer sua máxima declaração de força, de potência, de virilidade, alçando ao poder os seus bufões, símbolos maiores de sua toxicidade - Trump por lá, por aqui seu servil Bolsonaro.

Formações reativas podem ser eficazes, podem ser bem-sucedidas na supressão do que se deseja recalcar. Ninguém poderá negar que tem sido poderosa a reação do velho homem, em defesa de sua masculinidade a um só tempo tão tóxica e tão frágil. Ainda assim, vejo a imagem sintomática de Trump, ouço as projeções cada vez mais assertivas de sua derrota, penso quanto essa derrota afetará também o poder de seu lacaio brasileiro, e sinto então outra coisa. Sinto que o que estamos testemunhando, neste presente estrambótico, não é a confirmação da força do velho homem, e sim uma etapa espetacular e ruidosa de sua derrocada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.