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Um imenso borrão de brasas: A imagem de um país cujo nome arde

Imagem de satélite da Nasa mostra focos de fogo ativo (pontos vermelhos) neste momento no Brasil - Nasa
Imagem de satélite da Nasa mostra focos de fogo ativo (pontos vermelhos) neste momento no Brasil Imagem: Nasa
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

Colunista do UOL

19/09/2020 04h00

Ainda não tínhamos, seria possível dizer, uma imagem forte e dramática o bastante para representar a ruína do país em que vivemos, para denunciar o rumo equivocado que tomamos, tão destrutivo e abjeto. A imagem-testemunho, a imagem-documento, a imagem-trauma, a imagem-símbolo, aquela que sintetiza o descalabro e atesta o exercício mais cruel da política. Cada regime nefasto da nossa história parece deixar um rastro de imagens sombrias feitas à sua semelhança. Mas no atual regime, até agora, tudo parecia ficar oculto sob a profusão de palavras brutas, de gestos desastrados, de leis e projetos fundados no arbítrio e na impiedade, mas incapazes de produzir o devido impacto.

Até agora. O conjunto de imagens que surge das queimadas simultâneas e descontroladas no Pantanal e na Amazônia tem potência para nos restituir a capacidade do choque - ou deveria ter. Uma imagem-síntese circula pelas redes sociais: o Brasil flagrado por um satélite da Nasa, um satélite que detecta cada foco de incêndio e o marca com um ponto vermelho, o Brasil tão tomado de incêndios que se faz um imenso borrão de brasas. O Brasil em chamas, em carne viva, a queimar por toda parte. Brasil, "esse enorme lugar nenhum cujo nome arde" - a frase de Caetano Veloso em sua "Verdade tropical" agora é evocada por alguns com um sentido bem mais imediato.

O que vemos é um documento científico e preciso da devastação a que estamos submetidos, e a um só tempo uma poderosa metáfora. O Brasil arde literalmente: impossível ouvir as notícias dos incêndios sem se alarmar com as ferozes estatísticas, o país a queimar em níveis muito superiores aos dos demais registros históricos, flora e fauna a se consumirem com uma intensidade arrasadora. O Brasil arde simbolicamente: impossível ouvir as notícias da política sem se alarmar com os ferozes governantes, o país a queimar com suas decisões inflamadas pelo ódio e pelo ímpeto destrutivo, Estado e direitos a se consumirem com uma intensidade arrasadora.

Da imagem-síntese se desdobram também as mais sensíveis fotografias, o retrato ao rés do chão dessa calamidade de muitos níveis. Grandes planícies verdes convertidas em detritos, a desolação violada onde antes se encontrava a mata virgem. Rios se tornando corredores de fogo, erguendo sob o céu uma espessa cortina de fuligem, gerando nas cidades próximas chuvas de cinzas. E a mórbida sequência de animais calcinados ou agônicos, jacarés, araras, macacos, jabutis, onças com suas patas encarnadas incapazes de dar um passo sobre o chão tórrido, a terra em brasa profunda que imagem nenhuma consegue exprimir.

Vendo as fotos já me deixo tomar por uma aflição incontida, como se a indecência estivesse nas imagens, e não no acontecimento em si. Descrevendo-as, como fiz no parágrafo acima, sinto que eu mesmo exerço alguma violência, como se voltasse a infligir sobre os animais a sua dor, ainda que uma dor agora abstrata e imperceptível, feita apenas de palavras. E se tão sensível é o momento, se nos exige o cuidado até na imagem que contemplamos, e nas palavras que lhe atribuímos, quanta insensibilidade flagramos no presidente com seu negacionismo, e quanta indiferença no calamitoso sujeito que finge ser ministro do meio ambiente. Que atrocidade que estejam ambos agora de braços cruzados, ou pior, a um átimo de erguer os braços, de celebrar o sucesso agrícola que resultará de todo esse desastre.

No final do romance "As nuvens", o argentino Juan José Saer descreve com riqueza impressionante a planície de seu país assolada pelo calor, prenúncio do fogo que logo virá com o terrível poder de consumir a tudo e a todos. Os animais estão ali como os nossos, imobilizados, letárgicos, exaustos. Surpreende, porém, que assim também estejam os seres humanos, todos vagando como se adormecidos, "homens e mulheres, civis e soldados, crentes e agnósticos, ilustrados e analfabetos, cordos e loucos, igualados por aquela luz esmagadora e aquele ar ardente e embrutecedor". Embrutecidos, é assim que podemos ser vistos a vagar por este país ardente, incapazes de superar a letargia provocada por tanta dor, por tão fartas e terríveis notícias.

Abri este texto afirmando que até o momento não tínhamos imagens significativas do desastre em curso no Brasil, mas quanto já tivemos? Incêndios, desabamentos, grandes manchas de óleo, a maior cidade do país a anoitecer em plena tarde, a morte em massa que nenhuma lente conseguiria captar. Quantas imagens fortes e, passado o devido tempo, tudo esquecemos, tudo parecemos dispostos a ignorar, presos ao presente feito de tristeza e sobressalto. Penso no futuro com frequência, escrevo sobre o futuro mais do que seria razoável. Mas se queremos ter uma perspectiva de futuro, será necessário realizar uma ação no presente imediato, será necessário não desviar a atenção de um tão recente passado.