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Sobre o sofrimento dos professores e a urgência de recusar silenciamentos

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Imagem: Getty Images
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

22/08/2020 04h00

Tantas palavras nos cercam, tantas indignações, tantos gritos, que às vezes nos escapa a mais clamorosa evidência: que este tempo tem se constituído sobretudo de silêncios e silenciamentos. Na semana passada resolvi romper um silêncio a um só tempo íntimo e coletivo e afirmei a necessidade de contemplarmos com seriedade um retorno às aulas, sem nenhum adiamento a mais do que o necessário. Mas não falei só do meu silêncio, e sim daquele a que submetemos as crianças, isolando-as das outras e de si mesmas, alijando-as de todo o debate público. E soube então que, ao falar do meu silêncio, e do silêncio das crianças, deixava de ouvir o silêncio de que padecem os professores, seu sentimento tão difundido de que ninguém está disposto a ouvi-los.

O texto que escrevi, "Sobre a tristeza das crianças e a urgência de priorizar as escolas", propunha-se como uma declaração de princípio. Era a afirmação de um ideal de mundo em que nossas decisões não estivessem pautadas por razões econômicas, em que prevalecesse em vez disso algum sentido do humano. Se assim fosse, muito antes de abrirmos shoppings, restaurantes, bares, abriríamos as escolas e cumpriríamos ao menos alguns dos direitos que reputamos essenciais, o direito à educação, o direito infantil à saúde mental. O tema era sensível, claro, mas ainda assim me surpreendeu o vasto alarido que causou, muito além do que costumam gerar estes meus textos, um burburinho ressonante de entusiasmo e repúdio.

Entre as críticas mais exaltadas é que se manifestava o eloquente desamparo dos professores, sua percepção de que estão sendo atropelados num debate que os ignora, que julga prescindíveis suas vidas. Num eventual retorno das escolas, eles se somariam a tantos trabalhadores externos da pandemia, médicos, enfermeiros, entregadores, vendedores, garçons, seguranças, a toda uma multidão que quase nunca opta pela exposição ao vírus, que acaba por ser forçada a encará-lo. Sentem então que o destino de suas vidas em momento dramático está nas mãos de outros, e que nada podem dizer pelo risco de perderem seus empregos, ou de parecerem insensíveis e indiferentes à causa das crianças.

O retrato dessa aflição, quando foi possível vencer a irritação e passar ao diálogo efetivo, se alongava no tempo e retomava o sofrimento que os acomete há meses. É claro que todos temos as nossas histórias de inadaptação à quarentena, mas no caso dos professores de crianças pequenas a situação chegou a ser mais extrema. De um momento para o outro se viram obrigados a realizar uma transição impossível, passar de uma relação corporal atravessada pelo afeto a um regime precário de educação por aparelhos. Um regime imposto às pressas e sem as condições mínimas, sem formação para isso, sem equipamentos adequados, resultando, dizem, na experiência laboral mais frustrante de suas vidas.

Com boa parte dos alunos, de escasso acesso à internet e a computadores ou celulares disponíveis, o corte na relação foi brusco e irrevogável. Mas mesmo quando têm sido possíveis as aulas virtuais, realizadas com um grau elevado de improviso e diante de alunos desmotivados e perdidos, parece haver sempre alguns traços de uma experiência inautêntica - com perdão pelo uso tão livre do conceito de Walter Benjamin. A vivência é de descontinuidade, de percepção fragmentária do acontecimento, de desconfiança total sobre a possibilidade de construção comum de um sentido. A distância, que nesses casos poderia ser apenas física, se faz então anímica, professores e alunos vão se tornando seres cada vez mais alheios, cada vez mais apartados de uma relação verdadeira. Dia a dia vão perdendo a intimidade que apenas começavam a construir quando tudo foi interrompido.

Pensar a retomada, na perspectiva desses professores, é deparar-se ainda com a impossibilidade de reconstrução desse vínculo. Pelo protocolo de segurança que têm proposto algumas autoridades, os contatos diretos entre professores e crianças devem ser mínimos, reduzindo o exercício benquisto do abraço, ou do colo em momentos críticos. Temem a austeridade que isso criaria, e temem ter que se tornar eles mesmos professores austeros, obrigados a impor aos alunos a disciplina severa das atitudes que minimizem riscos. E como a pedagogia do cuidado teria que ser realizada também às pressas, sem respeitar o tempo razoável do aprendizado, sentem que não estariam aptos à tarefa, e que o efeito de um fracasso poderia ser dos mais terríveis.

Leio esses comentários, ouço esses depoimentos, e começo a entender melhor por que se cria no debate uma falsa disputa entre alunos e professores, por que a defesa do direito de uns parece se converter em ataque aos outros. Que a afirmação da necessidade de priorizar as escolas tenha sido entendida por alguns como afronta aos professores é uma mostra de quanto o debate público está tomado pelo ruído, pela incompreensão, pelo vício das polarizações. Se é preciso dizer o óbvio, priorizar a educação é muito mais do que abrir escolas e entregá-las à própria sorte: pressupõe investir todo o recurso possível em sua melhoria, e no apoio a professores e funcionários, garantindo que elas sejam sempre, com ou sem pandemia, espaços saudáveis e seguros para crianças e adultos. Pressupõe também cuidar de toda a rede de pessoas que a compõem, preservando os que pertencem a grupos de risco.

Evidentemente, não há polaridade entre alunos e professores, ou entre pais e professores, não há antípodas nesse debate ruidoso que a todos silencia. Se foi preciso expressar empatia pelas crianças, cabe sempre afirmar também solidariedade e apoio aos professores, sobretudo diante de uma reabertura que, com razão, os atemoriza. Se algo a crise de agora evidencia é que a escola deve ser concebida como comunidade, aberta e viva. Resguardada, assim, das iniquidades de uma lógica financeira, e das relações autoritárias e hierárquicas em que uns mandam e outros não podem senão calar, senão obedecer.

A noção não é nada nova, e não responde apenas ao contexto agudo em que vivemos. Mas parece mais urgente do que nunca quando vemos a omissão com que o governo federal trata a questão, e as pressões variadas a que se submetem governadores e prefeitos diante de uma decisão difícil que pode lhes custar votos. Não estou sozinho nesse pensamento: só formando uma comunidade de vozes consonantes, vozes que aceitem o dissenso sem tentarem anular umas às outras, poderemos fazer frente ao desnorteio dos discursos oficiais, esses sim os que nos relegam ao silêncio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.