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Contra a brutalidade: é hora de dissolver o ódio que se apoderou do país

Entre as manifestações de ódio, estão pedidos pela volta do AI-5, que remete ao período mais violento da ditadura militar no Brasil - Ettore Chiereguini/Futura Press/Estadão Conteúdo
Entre as manifestações de ódio, estão pedidos pela volta do AI-5, que remete ao período mais violento da ditadura militar no Brasil Imagem: Ettore Chiereguini/Futura Press/Estadão Conteúdo
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

Colunista do UOL

18/07/2020 04h00

"Vejam como ainda é eficiente, como se mantém em forma o ódio no nosso século." "Ele próprio gera as causas que lhe dão vida. Se adormece, nunca é um sono eterno." Ele próprio, o ódio, se impõe sobre os outros sentimentos, todos "fracotes e molengas". "Quantos a dúvida arrasta consigo? Só ele, que sabe o que faz, arrasta."

Assim escreveu a poeta Wislawa Szymborska ainda no século passado, e é triste ver como esses versos têm sobrevivido bem ao tempo. Sobrevivem igualmente à travessia de mares e fronteiras: esse poema polonês poderia servir de soturna epígrafe ao Brasil dos anos recentes. Um país que odeia tanto que instalou o ódio no poder, e se deixa governar pela violência e pelo desprezo. Um país tomado pela odiosa ilusão de que é preciso tudo destruir, que só da ruína poderá nascer um Brasil limpo, puro, expurgado de seus inimigos. Um país que reage ao ódio com um ódio aditivo, e passa a discutir agora se é lícito ou não, se é ético ou não, desejar a morte de seu presidente, líder maior no exercício do ódio.

Pode parecer súbita a maneira como o ódio se apoderou do país, a rapidez com que despertou de seu sono leve. Há poucos anos não era difícil continuar a propagar a imagem do brasileiro sorridente, cordial, hospitaleiro, do povo capaz de fazer de suas dores a fonte de um riso alegre. É claro que, para acreditar em tal imagem, era preciso ignorar a violência endêmica, os séculos de racismo estrutural, a aceitação tácita da pobreza e muitas outras mazelas que passamos a achar corriqueiras. Ainda assim, foi tão surpreendente a ascensão da extrema direita que muitos preferiram julgá-la incondizente, forasteira, um produto importado que aqui alcançou boas vendas.

Basta ler Contra o ódio, análise fundamental desse aspecto do nosso tempo realizada pela alemã Carolin Emcke, para que essa impressão se desfaça de vez. Ela própria admite ter se surpreendido com a forma descarada e aberta que o ódio assumiu na Alemanha nos últimos anos, o modo como o discurso público se brutalizou e voltou a ecoar aquele das décadas mais sinistras. Emcke superou a surpresa, porém, e se pôs a examinar como o ódio nunca tem nada de vago, de casual ou fortuito, como não brota repentinamente, sem razão alguma. Como é cultivado com decisão e esmero, como é formado coletiva e idelogicamente.

O ódio no Brasil foi gestado nos porões do debate público, alimentado por mãos poderosas e obscuras, e já era tarde quando o percebemos. Aproveitou-se de um momento de grande desnorteio, de uma democracia que perdeu seu rumo e entrou em crise permanente. Ante a dúvida que tomou conta de tantos, a dúvida que não é capaz de arrastar ninguém, ofereceu sua certeza vazia, a convicção violenta que é seu preceito. "Não se pode odiar duvidando do ódio", diz Emcke. "É necessária uma certeza absoluta para odiar. Qualquer 'talvez' já seria um estorvo".

O ódio no Brasil valeu-se também, como se vale sempre em qualquer parte, de uns quantos que não odeiam francamente, sujeitos elegantes que não vociferam. Esses não expõem nas ruas os seus preconceitos, evitam palavras fortes, alegam estar atentos a questões mais importantes - e por isso se privam até de repudiar o ódio, são tolerantes com a intolerância. Oferecem ao ódio, como aponta Emcke, sua aprovação clandestina ou sua aquiescência silenciosa. São os cúmplices do ódio - os que acreditam poder usá-lo para seus fins próprios, econômicos ou políticos, sem saber que também serão engolidos por ele.

Há, no entanto, um equivocado fatalismo quando falamos do ódio, como se ele não pudesse senão vencer. Szymborska encerra seu poema com versos que provocam calafrio: "Dizem que é cego. Cego? Tem a vista aguda de um atirador, E afoito olha o futuro - só ele." A visão de Emcke é menos desalentadora, para nosso alívio, e se manifesta desde o título de seu livro. É possível, sim, se contrapor ao ódio, é possível rejeitar seu convite à propagação infinita. Para isso é essencial recusar sua lógica simplista. "O ódio só pode ser combatido com o que escapa aos que odeiam: observação cuidadosa, diferenciações contínuas e dúvidas sobre si mesmo."

É urgente, agora, desbrutalizar o discurso, aprofundar o pensamento, qualificar o que nos resta de debate público. De nada serve aderir à violência retórica dos propagadores do ódio, assemelhar-se a eles na pobreza de argumentos, tentar competir com eles em seu terreno pútrido e lamacento. E a mensagem central de Emcke guarda relação direta com o nosso momento: "O gesto mais importante contra o ódio talvez seja não se isolar. Não se deixar confinar na tranquilidade da esfera privada". Isolados estamos, confinados continuaremos, mas aos poucos vamos gestando uma aliança ampla contra o ódio, e alguns efeitos disso já se veem. Avançamos uns em direção aos outros, e assim, quem sabe, nos arrastaremos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.