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Reféns do presente: por que nos submetemos tanto ao assunto da vez?

Carlos Drummond de Andrade - Divulgação
Carlos Drummond de Andrade Imagem: Divulgação
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

Colunista do UOL

11/07/2020 04h00

Não há algo de uníssono, algo de monocórdio neste burburinho incessante de que tem sido feita a vida? Não provocam forte impressão de repetição as sempre tão novas notícias? Estranha dinâmica esta que criamos de debater incansavelmente - numa infinidade de vozes a um só tempo diversas e idênticas - os mesmos temas urgentes. Estranha dinâmica de discutir entre tantos, com palavras infinitas, nada além da questão do ano, do mês, da semana, da vez.

Lembro de um tempo em que os jornais pareciam um vasto catálogo de assuntos e acontecimentos, expressão de um mundo imprevisível e imenso. Folheá-los era transitar pelo inusitado, era descobrir com fascínio a absoluta inverossimilhança dos fatos corriqueiros. Hoje é tudo ainda mais inverossímil, a realidade se fez extravagante como não esperaríamos, mas os jornais parecem ter se tornado repetitivos, monotemáticos, insistentes. São quase edições especiais, todos os dias, dedicadas ao tópico mais ruidoso do presente, os números crescentes da pandemia, o último desaforo do presidente. Tudo tratado muito mais em suas minúcias do que em suas profundezas.

Um colunista já não escolhe sobre o que escrever; só o que lhe cabe é reconhecer o assunto do momento e encontrar palavras novas para dizê-lo, na esperança de que a própria linguagem refunde o tempo. Todos nós, colunistas das conversas diárias, das redes, das mesas, nos tornamos comentaristas disciplinados da pauta da vez, atendendo a alguma ordem coletiva, a algum inaudível apelo. Como o assunto não costuma valer grandes saltos interpretativos, ficamos tantas vezes rendidos à superfície, sem motivo para novas ideias. Apenas decidimos a posição mais razoável, e vamos conferindo quem concorda e quem discorda do que já dissemos. Menos que debate, o que se cria é adesão e alinhamento entre pares - algo, aliás, que muito já se repetiu.

Nunca se cala esse burburinho. Eu me alinho a Drummond e repito que a casa é pequena para um homem e tantas notícias. Fico pensando que destino pode ter a literatura quando todo desvio de assunto parece incorrer em impertinência, quando toda incursão pelo desconhecido se torna um gesto de alienação. Não nego: eu mesmo tenho defendido que a literatura deve estar atenta ao presente, deve dar sua resposta a estes tempos indignantes e convulsivos. Esquecer nos livros esse presente, escondê-lo, seria afinal negar algo de fundamental que toma os nossos dias e provoca as nossas emoções mais fortes, seria trair a nós mesmos. Mas quanto não traímos a própria literatura com essa fidelidade à superfície dos nossos pensamentos?

Nos mais sérios jornais do mundo têm saído artigos que tratam do futuro da narrativa depois da pandemia, antecipando a forma ainda imaginária do romance pós-pandêmico. Seria uma profusão de livros idênticos publicados simultaneamente, relatos autobiográficos sobre depressão e isolamento, atravessados pelo tédio e pelo medo da morte, transcorridos por inteiro nos confins de um apartamento. Para resolver esse problema ainda inexistente, surgem já uns quantos conselhos: que os romancistas esperem alguns anos até que a questão amadureça dentro deles; que não escrevam direto sobre a doença, em vez disso fazendo da pandemia um quadro subjacente.

Acompanho a aflição de escritores que há pouco estavam produzindo obras alheias a tudo isso, obras que não adivinhavam a súbita emergência do drama sanitário e da quarentena massiva. Sofrem porque, a meio caminho da escrita, já concebem seus livros como envelhecidos, inconvenientes. Contra seus próprios projetos, começam a batalhar frestas para inserir em suas tramas um hospital, uma morte qualquer, um recolhimento contrafeito. Não é a primeira vez. Nos últimos anos, muitos viveram momentos semelhantes: indagaram-se se deviam escrever sobre manifestações em 2013, golpes parlamentares em 2016, a ascensão do autoritarismo em 2018.

Escuto vocês todos, irmãos sombrios - com versos de Drummond prossigo este texto. Sinto vozes amigas, recados furtivos. Compreendo e compartilho a aflição de todos, escritores ou não, o sentimento de que é preciso não se calar, não se distrair, não se alienar, não dar paz ao tirano do momento - vírus ou presidente, tanto faz. Só acho que não podemos nos tornar reféns do presente, dessa versão monolítica de um tempo, desse rumor uníssono e homogêneo.

E me pergunto para quando estaremos adiando a multiplicação de mundos, a diversidade, a distração, a diferença, o desvio, a complexidade. Me pergunto até quando nos privaremos de tudo isso que sempre se abrigou na literatura, mas que também sempre foi muito além dela - foi a base dos nossos melhores encontros, das nossas melhores conversas. Até quando esse apelo inexistente assombrará nossos pensamentos mais profundos, calará nossas palavras mais sinceras?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.