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O sentimento da História: entre a paralisia e a vertigem do presente

9.nov.2015 - Homem olha através do memorial do Muro de Berlim, em Bernauer Strasse depois de uma cerimônia que marcou o 26º aniversário da queda do Muro de Berlim, na Alemanha - Hannibal Hanschke/Reuters
9.nov.2015 - Homem olha através do memorial do Muro de Berlim, em Bernauer Strasse depois de uma cerimônia que marcou o 26º aniversário da queda do Muro de Berlim, na Alemanha Imagem: Hannibal Hanschke/Reuters
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

Colunista do UOL

20/06/2020 04h00

Nem sei dizer quantas vezes nos últimos dias, meses, anos, corri para diante da televisão para acompanhar um súbito acontecimento. Destituições, prisões, votos, pareceres, entrevistas, pronunciamentos, a cada vez era movido pela impressão de estar assistindo a algo urgente, importantíssimo, uma notícia que se perpetuaria no tempo. Sabia que, nesse mesmo instante, em outras casas, uma infinidade de cidadãos tão alertas quanto eu corria para diante da televisão, tomados talvez pela mesma euforia e o mesmo medo. E porque era tão grandioso, tão surpreendente, e se propagava em redes e jornais com incrível pressa, aquilo só podia ser um acontecimento histórico. Eu, como tantos outros, me deixava tomar pelo sentimento da História.

Nasci no começo da década de 1980, faço parte de uma geração peculiar que, em momento crucial de sua formação, sentiu que a História podia não ser mais que repetição e inércia. Não acreditávamos no fim da História - na tão impopular afirmação de Fukuyama de que, com a queda de um muro, o capitalismo e a democracia teriam alcançado seu triunfo derradeiro e se instaurado de vez, não havendo nada mais de relevante a acontecer. Não acreditávamos no fim da História, mas, se aquela declaração nos incomodava de tal maneira, era porque de fato sentíamos que o tempo se fazia intocável e lento, que a política se fazia tédio, que o presente era marasmo e silêncio.

Quanto contraste em relação a esta realidade indomável que hoje nos convoca com estridência, em tantos fins de tarde, anunciada tantas vezes pelo ruído das panelas. À queda de um muro sucedeu-se a queda de duas torres gêmeas, e diante da ruidosa evidência houve quem dissesse que a História voltava de férias, e que talvez já não precisasse descansar por umas boas décadas. Desde então, e sobretudo no Brasil em anos recentes, nem preciso fazer a longa enumeração das ocorrências históricas porque todos as acompanhamos com alarde e estupefação. Desde então, temos penado para assimilar cada detalhe dessa História em sua trama extravagante - uma trama que foi se tornando soturna como não imaginaríamos, e que agora extrapola os dias e ocupa também os nossos pesadelos.

Há algo aqui a dizer sobre a História, mas, confesso, não sei bem o que é. Se havia equívoco na percepção de paralisia dos anos noventa, quanto não há de ilusão também na aceleração desmedida do presente? Quão contingentes não são esses acontecimentos imperiosos que nos convocam com urgência, tão numerosos que não cabem em memória alguma e deverão se conformar com o esquecimento? E quanto nos vemos imóveis ao contemplar o movimento, passivos diante de tanta ação, condenados à observação e ao ofuscamento enquanto a máquina do mundo nos fascina e nos atropela?

Passamos de um polo a outro, da estagnação à moção contínua, e no entanto muitos ainda estamos inertes. À espera, talvez, de algo indefinido, de algo que não seja nem morosidade nem vertigem, de um improvável meio termo que acomode melhor os nossos anseios e os nossos projetos. Talvez, para agir, precisemos antes vislumbrar algum futuro, e isso é o que tem sido mais difícil. No tempo do fim da História, o futuro se insinuava idêntico ao presente, sendo assim futuro nenhum. Nesta história recente do tempo incontível, o futuro é de absoluta incerteza, impossível de delinear com precisão mínima. Não se deixa antever nem em seus aspectos mais imediatos: não sabemos quando poderemos sair de casa, ou quem nos governará nos tempos por vir, imersos como estamos numa pandemônica democracia que é tudo menos triunfante.

Sobre a imprevisibilidade da História muito já se disse, a ponto de ter se feito, para a sensibilidade deste presente, um dos pouquíssimos pontos pacíficos. História e fatalismo se tornaram antípodas: quem afirmar em tom assertivo o curso inevitável dos acontecimentos estará mentindo, ou fazendo um tipo de política.

Não há sentido, então, na contemplação passiva do nosso destino coletivo, como se estivéssemos diante das viravoltas de um roteiro inverossímil cujo desfecho já foi escrito. Para romper com a passividade a que o presente nos relega, paradoxalmente, talvez convenha mergulhar com todo fôlego em seu caos, em seu movimento. Se paralisamos quando a História parecia paralisia, agora que o presente refutou de vez esse equívoco vale fazer algo mais da nossa existência coletiva, vale encontrar novas direções para o nosso ímpeto e a nossa euforia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.