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Sobre a beleza, etc. A importância do lirismo no tempo da indelicadeza

Rose-Lynn Fischer criou a "topografia das lágrimas",  uma sequência de imagens de microscópio analisando lágrimas diversas - Getty Images
Rose-Lynn Fischer criou a "topografia das lágrimas", uma sequência de imagens de microscópio analisando lágrimas diversas Imagem: Getty Images
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

13/06/2020 04h00

Que me perdoem os muito feios, os muito ignorantes, os muito sórdidos, mas beleza é fundamental. Já disse Vinicius de Moraes num poema equivocadíssimo, que aqui prefiro malversar: é preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso, qualquer coisa de dança. É preciso fertilizar a agrura do concreto, colorir a brancura das paredes lisas, romper a imobilidade asséptica dos dias com alguma dose de beleza, de delicadeza, de lirismo. É preciso que a vida não deixe de ser nunca, ainda que só por um instante, a eterna dançarina do efêmero.

Mantenho ao lado da minha cama uma pilha de pequenas belezas, tão banais quanto íntimas, para acessar em momentos de insensata paz, ou de sutil desespero. São livros que me habitam há um tempo incerto, transitórios e perenes, livros que têm o estranho poder de me afastar do mais contingente dos eus e assim me devolver a mim mesmo. Com eles atravesso a mim e ao mundo, atravesso a turbulência agressiva das notícias, a algazarra de tantos analistas, peritos, especialistas, todos munidos de suas razões e certezas. Com eles me abrigo na dúvida, tantas vezes saturada de lucidez.

Esta manhã constava no topo da pilha um livro de ensaios de Nuno Ramos, seu fulgurante "Ó", que tomei nas mãos para que rompesse a penumbra e iluminasse o ambiente. De cara ele se pôs a falar sobre o que temos de melhor e mais generoso, entre todas as chamadas virtudes: a capacidade de perder tempo. Pensei de imediato na minha filha e na perplexidade que vi em seu rosto, dias atrás, quando usei do meu tom mais assertivo e ordenei que deixássemos de perder tempo. "Mas, papai, o que é perder tempo?". Eu queria era que Nuno Ramos lhe respondesse. Contra o imperativo universal de produzir, contra a premência de tantos deveres, e afazeres, e quereres, perder tempo é que se faz urgente, lançar ao mar as horas e o tambor constante do presente.

O parágrafo acima talvez sirva apenas para perder tempo, e agora não sei se o leitor deve lamentar ou agradecer. O que eu queria era falar da beleza, mas há um inevitável pudor em falar da beleza quando estamos cercados de tanta dor, tanto desvario, tanta tristeza. É aceitável que a tristeza seja bonita? Que tentemos encontrar algum relance de beleza mesmo nas circunstâncias mais sombrias? Hoje me valho da minha porção diária de incerteza para dizer que sim. E, quem sabe, para ilustrar essa ideia com o rosto da minha filha mais nova, que chora com estridência até que percebe a presença da irmã, e então vai tentando abrir um sorriso torto, sem nenhum dente e nenhum jeito. O leitor não o conhece, não irá lhe servir, mas esse rosto a meio caminho entre o choro e o riso é o que tenho de mais bonito a descrever.

Há imagens mais universais, é claro, imagens que tentam captar com precisão a natureza da tristeza, e da alegria, e da beleza. Penso agora em Rose-Lynn Fischer, a quem chego por Marília Garcia, cujo "Parque das ruínas" também ocupa lugar dileto na minha mesa de cabeceira. Fischer, que há de ser uma mulher estranha e bonita como sua obra, e como a obra de Marília, resolveu fazer uma "topografia das lágrimas": uma sequência de imagens de microscópio analisando lágrimas diversas, de tristeza, de alegria, de despedida, lágrimas de um bebê ao nascer. Marília as descreve como fotos aéreas, como mapas que registram o que há de mais temporário, de mais fugidio. As imagens concordam com ela, e apontam quanto tudo é indefinível, quanto tudo, alegria ou tristeza, é inexoravelmente diverso e semelhante a seu oposto, e a si mesmo.

Penso necessário algum lirismo no tempo em que vivemos porque o lirismo, por definição, altera o mundo com a direção subjetiva do olhar, contrariando assim toda a clareza ilusória, toda a objetividade falsa dos argumentos. O lirismo refunda a complexidade do mundo turvando-o com a mais pessoal das lentes. E, sejamos sinceros, como olhar sem nenhuma lente este mundo em ruínas que a cada manhã nos desperta? Como não fugir, diante dessa vista horrenda, a algum lugar íntimo, como não tentar olhar a vista com a lente das lágrimas ou a lente da beleza?

Triste sina destes tempos: a gente se propõe a falar da beleza, e a feiura, a ignorância, a sordidez, dão um jeito de invadir o que escrevemos. Não queria terminar este texto com um argumento, ou com o repúdio óbvio a tudo o que temos visto de abjeto. Em vez disso me recolho num dos meus lugares favoritos no mundo, um lugar cheio de beleza e tristeza e melancólica lucidez. Não vou me ofender se o leitor quiser ir lá se abrigar agora mesmo, em "Sobre o amor, etc.", talvez a crônica mais célebre e mais bonita que Rubem Braga já escreveu.

Era 1948, e o mundo devia se parecer muito pouco a este que tento turvar com a minha lente. Mas Rubem Braga fala já de um mundo de distâncias, de irremissíveis separações, de quanto seremos todos diferentes quando pudermos voltar a nos ver porque teremos incorporado o tempo da ausência. Não sei do que fala Rubem Braga, que passageira circunstância o afastava de seus amigos, de seus amores. Mas percebo enquanto ele fala que a beleza tem sempre algo de transcendente, algo que transtorna passado e presente e assim se eterniza, e assim nos leva para fora do tempo. Fora do tempo: não há de ser lugar ruim para se estar neste momento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.