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Julián Fuks


Julián Fuks

Um país sem máscara: postura do presidente revela nossa monstruosidade

Javier Zayas Photography/Getty Images
Imagem: Javier Zayas Photography/Getty Images
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

01/05/2020 04h00

Saio num fim de tarde, vou ao mercado, levo minha filha ao meu lado. Nas ruas o que vejo não se distingue muito da normalidade, mas tudo parece transformado porque estou de máscara, e porque cruzo rostos neutros quase sempre mascarados. São atos de cuidado, estamos protegendo uns aos outros, mas ainda assim não deixo de sentir quanto a cidade se faz estranha, sinistra, insondável. Entre máscaras é como se atravessássemos uma zona contaminada, nociva, como se algo obscuro e inominável pudesse a qualquer momento atacar.

Já é noite quando volto. Deixo minha filha poucos passos para trás e ela logo corre para abraçar as minhas pernas, atemorizada. Tem quase três anos, e pela primeira vez na vida parece sentir hostilidade nas ruas, sentir que está em perigo diante da própria casa. Eu a acalmo, a pego no colo, nego que haja qualquer razão para o medo. No íntimo, porém, sei que de forma tortuosa ela acaba de chegar a um conhecimento inescapável, à noção ainda imprecisa de que vive num país opressivo e feroz.

Bolsonaro, ela ouve o nome pronunciado no noticiário e pergunta intrigada: "Esse é o homem que a gente quer fora da nossa casa, não é?" Eu rio, mas não consigo sustentar o riso por muito tempo diante das notícias, diante daquele homem. O jornal faz um apanhado de suas muitas frases insensíveis e disparatadas, as muitas formas como ele tem desprezado a realidade, desdenhado o sofrimento de tantos. "E daí?", ele questiona quando confrontado com o número crescente de mortos. Desprezo e desdém vão além das palavras: alteram sua voz, dominam seu olhar, distorcem suas feições, convertem-se em sua máscara.

É sintomático que, contra toda orientação, ele se recuse a usar as máscaras sanitárias. Bolsonaro se erigiu como líder de muitos sob a ilusão de que seria um raro político sem máscara, e por isso um não-político. Criou essa ilusão muito menos pelas ações do que pela linguagem: é um ser desbocado e rude, disposto a dar voz aos pensamentos mais reprováveis de toda uma horda. Nem precisávamos ouvi-lo tanto para saber que se trata de uma fraude, que ele reúne todos os traços negativos que se costumam atribuir aos políticos lamentáveis. Enquanto afirma realizar um projeto maior - que por si mesmo já se mostra execrável -, empenha todas as forças em defender seus interesses sectários, seu grupo político, sua família, seu destino pessoal. A ausência de máscara é, portanto, precisamente a sua máscara.

Há sempre algo de horrendo no desmascarar. O prazer que poderia haver na revelação de uma verdade é logo superado pelo horror de encará-la diretamente, sem obstáculos físicos ou simbólicos. Alguns dos maiores escritores brasileiros souberam descrever com riqueza essa experiência atroz. Machado de Assis, em "O espelho", narra um sujeito incapaz de contemplar seus próprios traços, que vê em si apenas uma figura vaga e esfumada, a não ser - eis o seu expressivo autoengano - quando veste a sua farda, quando veste essa máscara que lhe cobre o corpo todo.

Guimarães Rosa respondeu com um conto de mesmo título e evocou a superstição interiorana, a ideia de que nunca se deve olhar num espelho às horas mortas da noite, porque "neles, às vezes, em lugar da nossa imagem, assombra-nos alguma outra e medonha visão". O narrador, no entanto, se afirma racional, rejeita as explicações fantásticas, e a pergunta que acaba por fazer a si mesmo resulta muito mais dramática: "Que amedrontadora visão seria então aquela? Quem o monstro?"

Naquela noite, enquanto encadeava estes pensamentos e guardava silêncio com minha filha ao lado, eu percebia que não era Bolsonaro o monstro que se desmascarava aos nossos olhos. A máscara dele sempre foi das mais frágeis, crestada no rosto como lama seca, como alguma vez descreveu Clarice Lispector, os pedaços irregulares caindo um a um com um ruído oco. Que seu rosto seria tão feio quanto a própria máscara acho que muitos de nós sempre soubemos.

O que se desmascarava ali, de novo, o que vem se desmascarando nestes últimos tão tristes anos, é a monstruosidade do país em que moramos. Um homem deplorável se fez líder maior, e isso revela quanto temos caminhado em zona contaminada, nociva, isso revela o que há de mais obscuro e inominável disposto a nos atacar. O país, agora, olha-se no espelho e vê essa figura vaga e esfumada, e descobre a atrocidade do seu próprio rosto. Mas é também o raro momento de acesso a uma verdade: tem agora a chance de contemplar-se profundamente, já sem máscara, e quem sabe começar a construir uma nova, viva, livre identidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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