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Júlia Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sair de casa talvez seja o seu remédio

Edwin Tan/iStock
Imagem: Edwin Tan/iStock
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

07/12/2021 15h09

Eu sei que muitos vão pensar que o título da coluna de hoje está com uns seis meses de atraso. O mundo quase todo já saiu e já se aglomerou e Júlia só percebeu agora! Sim, mas esta não é uma coluna que escrevo para os que já saíram. Ela vai especialmente para uma paciente querida e, certamente, vai fazer sentido para mais pessoas que seguem contemplando apenas da janela os shows, os bares e os estádios de futebol apinhados de gente.

Sabe, pessoa querida que se trancou em casa,

Esta não é uma competição para saber quem aguenta mais tempo um nível cada vez mais agudo e frio de isolamento. Calma. Respira. Com o que já acumulamos de conhecimento até aqui, seguir absolutamente isolado talvez não faça muito sentido e pode causar um estrago ainda maior na nossa cuca.

Estamos, muitos de nós, exaustos. Aliás, mais que exaustos, estamos deprimidos, pensando em morte, em compensar a dor dos nossos sintomas com cocaína, cigarro, clonazepans e alprazolans. Respira, pessoa querida que ainda está em casa!

De um modo geral, num país como o nosso, desigual, injusto e sob um governo genocida, as pessoas fizeram o que puderam, até onde conseguiram, da forma que foi possível fazer. Talvez não seja uma boa ideia colocar a culpa de mais de 600 mil vidas perdidas nas costas do seu vizinho churrasqueiro. A gente faz o que faz e tomas nossas decisões influenciado por tantas coisas... nossa história de vida, nossa personalidade, nosso senso de coletividade, nossas condições materiais, nossa rede de apoio.

Você fez tudo certo, só que agora ninguém suporta mais seguir a vida trancado num apartamento ou num barraco de 45 m². Precisamos sair, sim, porque já sabemos o que fazer para estarmos protegidos nas ruas, mas também porque nossa saúde mental está em frangalhos. Estamos severamente deprimidos, emocionalmente frágeis, com insônia, chorando toda hora, incapazes de estabelecer um diálogo tranquilo com muitas pessoas. Estamos perdendo ou ganhando peso de uma forma nada saudável.

Há uma distância considerável entre sair e dar umas voltas ao ar livre com a família e frequentar lugares lotados (por mais deliciosa que esta lembrança de outros tempos soe para mim).

Pessoa querida, saia de casa urgentemente! Não precisa fazer tudo de uma vez. Comece devagar. Dê uma voltinha perto de casa, vá a uma praça, visite uma amiga ou amigo que tem quintal. Conversem ao ar livre. Se vejam, pelo amor que você tem a você e à sua cuca.

E se o impacto desses 20 meses foi além do que você conseguiria lidar sozinho, busque ajuda. Busque apoio. Não há nada de errado com você. Se permita sentir o que você está sentindo, mas não se paralise. É tempo de sair da toca. Sem aglomerações, usando máscara quando perto de outras pessoas e contemplando o mundo além das telas. Vale a tentativa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL