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Júlia Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É possível humanizar o cuidado em saúde em tempos de atendimento remoto?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

08/07/2021 06h00

Esta é a pergunta que se lê e se ouve em todos os cantos desde que a pandemia chegou e exigiu afastamento e restrição da circulação de pessoas. Principalmente aquelas com doenças crônicas.

Ficaram mais vulneráveis justamente os pacientes que mais frequentemente deveriam estar sob o nosso olhar atento e cuidadoso nos consultórios. Os que mais precisam ser examinados e reavaliados de tempos em tempos. Mas dá pra cuidar de alguém estando longe?

A pergunta, então, é uma provocação para a contemporaneidade. É possível prestar assistência em saúde de maneira acolhedora, empática, gentil e eficiente vendo a pessoa através de uma tela ou ouvindo suas queixas por uma chamada telefônica? E o exame físico? E a nossa interpretação dos gestos, da postura, do olhar, do autocuidado, do caminhar? Como ficam estas e outras observações que fazíamos ao entrar em contato físico com o paciente dentro do nosso consultório?

Há poucos dias, uma amiga médica de família que também é geriatra compartilhou comigo um vídeo de sua paciente apresentando a ela seu jardim. Flores lindas e bem cuidadas plantadas por ela e por um de seus netos em latas grandes de tinta, todas devidamente pintadas com capricho.

Minha amiga seguia recebendo aqueles registros mensalmente. Era um pedido seu que acabou motivando sua paciente a cuidar das flores, a conviver com o neto que também amava o espaço e ainda a sentir amor e orgulho de sua casa simples mas cheia de encantos.

Com o vídeo das flores também chegavam notícias sobre seu estado geral que eram devidamente registradas em prontuário.

As duas haviam estabelecido ali um novo jeito de cuidar, mas minha amiga, a médica que também ama jardins, já era esta profissional cuidadosa e acolhedora desde sempre. Fazer coisas assim não é uma novidade para ela. A diferença é que antes havia a possibilidade de visitar os jardins. E ela ia.

Questionar se é possível humanizar a assistência que prestamos nesses tempos de telas e consultas remotas é um debate inadequado, a meu ver. A pergunta não cabe.

Quem trata o outro com empatia e considera a sua humanidade, faz isso por todos os meios. Quem desconsidera a singularidade e a importância de cada pessoa, o faz de forma remota ou presencial.

Humanizar a assistência à saúde é considerar a pessoa que precisa de cuidados como um ser humano. Minha mãe diria: "tratar gente como gente."

Num mundo onde a maior parte das pessoas não nos é apresentada como gente, é muito fácil que não sejam tratadas assim em todo canto.

O processo de desumanização e coisificação do outro é amplo e envolve todas as esferas da vida. Quem é tratado de forma desumana e desumanizada pelo serviço de saúde, seja ele público ou privado, também experimenta humilhações e desprezo na escola, no banco, no comércio, na delegacia, na rua, no transporte público. Contrariar esta lógica, seja como médico, nutricionista, psicólogo, professor, fisioterapeuta é parte de um posicionamento político diante de um sistema que trata grande parte da população como objetos descartáveis e substituíveis.

Ter um equipamento razoável e boa internet para uma chamada de vídeo é importante? Sim. Ter um ambiente silencioso e organizado também é. Registrar estes encontros de forma cuidadosa para que as informações não se percam faz parte da nossa obrigação. Contudo, o ouvir, o estar atento, o se importar faz parte (ou deveria fazer) da nossa formação como profissionais e como pessoas!

Em tempos de dicas, eu deixo a minha: o caminho para o cuidado humanizado está, sobretudo, nos livros e nos debates de sociologia e política. É lá que a gente descobre coisas importantes que os cursos da saúde normalmente não nos oferecem.

Beijos remotos, científicos e humanizados a todes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL