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Júlia Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nós não queremos saúde para todos. Só pra quem pode pagar

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Imagem: iStock
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

18/05/2021 09h54

Você já parou pra pensar no quanto a maioria das recomendações médicas mais simples e corriqueiras excluem uma parcela imensa da população e ninguém liga?

Muitas das nossas falas cotidianas de consultório são na verdade sonhos distantes para milhões de brasileiros e pouco se fala sobre isso.

Por exemplo, amamentar o bebê por pelo menos seis meses. De preferência por muito mais tempo que isso. Prescrevemos leite materno em livre demanda certos de que seguir o passo a passo para se ter sucesso no aleitamento é apenas uma questão de querer. Basta desejar e se empenhar. Quase nunca paramos para pensar que, para conseguir amamentar, uma família precisa de direitos que inclusive julgamos muito básicos mas que não são a realidade da maioria das pessoas neste país.

Água potável em abundância, licença maternidade e licença paternidade, uma casa digna, espaçosa e limpa, soberania alimentar, uma geladeira para congelar o leite na época de voltar ao trabalho, acesso ao sistema de saúde, informação de qualidade e um profissional capacitado para orientar e apoiar o aleitamento. É o mínimo, e é tão raro.

Quando orientamos pacientes a seguir melhorias dietéticas para o controle de suas comorbidades, sequer consideramos que muitos não estão certos do que vão comer nas próximas refeições. Insegurança alimentar voltou a ser a realidade de milhões de pessoas em nosso país. Aliás, quem tem geladeira para guardar os vegetais mais perecíveis? Quem consegue comprar alimentos que não estejam encharcados de agrotóxico? Quem são os brasileiros que escolhem o que vão comer?

Nossas orientações mais triviais não tem a menor chance de serem seguidas pela imensa maioria das pessoas e, via de regra, não nos questionamos sobre como construiremos um país que permita que a classe trabalhadora que o coloca de pé tenha acesso às condições materiais que geram saúde de fato.

Como praticar atividade física depois de acordar às cinco, trabalhar das oito às dezoito, passar quatro horas em transporte público precarizado, e chegar em casa às vinte? Não sem antes organizar a casa, fazer a refeição do outro dia, cuidar das crianças e só então buscar lugar seguro para praticar um esporte. É simples. Nestas condições, não há disciplina ou força de vontade que dê jeito.

Das coisas que mais impactam a saúde de uma criança, a escolaridade de sua mãe certamente está antes da presença de um médico. Poder comer, brincar, crescer num território de paz, sem medo também são pontos geradores de saúde.

Dá pra ser saudável em meio à poluição do ar e à destruição do meio ambiente? Veja você que quando a boiada passa, ela derruba floresta, cerrado e a nossa saúde também.

Ministro do meio ambiente, da agricultura, dos direitos humanos e da economia também são ministros que geram saúde. E, no nosso caso atual, doença. Em uma visão ampliada e holística, saúde tem mais a ver com democracia do que com medicamentos, exames ou intervenções cirúrgicas.

Aliás, saúde tem pouco a ver com médico, suplemento vitamínico, hospital. Saúde tem muito de soberania alimentar, tempo livre para o ócio e o lazer, acesso à educação, à arte e à cultura.

Quando abrimos mão de debater saúde para todos e construímos muros e proteção apenas para a saúde de alguns poucos que podem pagar, não conseguiremos prover saúde e nem saída para quase ninguém. Um país que não se pensa para todos não é um país. É um campo de concentração.

Nossa saúde é determinada por fatores sociais. É por isso que nascer negro e pobre em uma comunidade carioca significa ter expectativa de vida uma década menor do que quem nasce em bairro caro da zona sul.

Um militante político que luta pelo SUS, por educação, contra reformas ultraliberais, e por reforma agrária gera mais saúde que um profissional de saúde. Justiça social impacta mais em saúde que consulta médica. Descriminalização do aborto e das drogas reduz muito mais mortes que assistir suas vítimas. Educação de qualidade que inclua o debate sobre igualdade entre homens e mulheres, sobre a liberdade de ser quem se é na sua religiosidade ou na sua sexualidade, salvará vidas de mulheres, de pessoas trans, de candomblecistas e umbandistas, e de LGBQIA+. Mas quem se importa, não é mesmo?

Promover saúde de fato passa por abrir mão da nossa hipocrisia e agir para proteger os que hoje estão vulnerabilizados. Não por serem biologicamente mais frágeis, mas por viverem sob um sistema que ganha com a desigualdade, com a morte, com o desemprego, com a criminalização da pobreza, com a exploração de mulheres, de negros, de trabalhadores.

A saída, obviamente, é política e será construída, como já vem sendo, pela organização e luta populares.

Saúde é um direito humano, não um bem a ser consumido numa relação de compra e venda. Prover saúde é um dever do Estado. É este dever estatal que nos protege dos interesses puramente mercadológicos de quem quer lucrar e não gerar bem-estar social.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL