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Júlia Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A voz das ruas precisa ser a voz do povo brasileiro

20 fev. 2021 - Concentração de manifestação contra Jair Bolsonaro em frente ao estádio do Pacaembu, em São Paulo - VINICIUS NUNES/ESTADÃO CONTEÚDO
20 fev. 2021 - Concentração de manifestação contra Jair Bolsonaro em frente ao estádio do Pacaembu, em São Paulo Imagem: VINICIUS NUNES/ESTADÃO CONTEÚDO
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

04/05/2021 06h00

O último primeiro de maio, Dia dos Trabalhadores, surpreendeu muitos observadores da cena política nacional. Enquanto partidos progressistas e de esquerda comemoravam a data organizando atos virtuais e movimentando as redes com registros de grandes doações de alimentos ou de pequenos atos nas capitais do país, a extrema-direita brasileira foi em peso às ruas para apoiar o projeto de Paulo Guedes e Bolsonaro.

Nitidamente em maior número, apoiadores do presidente tinham a seu favor o grande "dane-se" que já disseram há meses para os riscos impostos pela pandemia do novo coronavírus. Sem muita preocupação com máscaras ou distanciamento, eles ocuparam avenidas das maiores cidades brasileiras. Grandes faixas onde se lia "Nós te autorizamos, Presidente" eram resposta a uma fala recente de Bolsonaro. O presidente disse há menos de um mês que esperava "o povo dar uma sinalização" para que ele pudesse tomar providências a respeito das medidas de restrição de circulação de pessoas e distanciamento social implementadas por estados e municípios.

Evitando aglomerações e empreendendo um legítimo esforço para influenciar suas bases a fazer o mesmo, as principais lideranças da esquerda brasileira vieram desencorajando atos presenciais e se limitaram às mobilizações virtuais nas redes desde o início da pandemia.

Errados, eles não estavam. Em meio a um morticínio que parece não ter fim, incentivar pessoas a protestar presencialmente nas ruas parecia, há bem pouco tempo, um desatino. Pedir por lockdown e sair de casa para pressionar o governo em grandes passeatas soava como uma grande contradição. Soava.

Uma análise mais aprofundada dos quase quinze meses de pandemia no Brasil mostra que abrir mão das ruas não está nos protegendo. Pelo contrário. Sem as ruas, não conquistamos auxílio emergencial por tempo suficiente, alimento para os mais pobres, lockdown, vacinação em massa e nem os insumos necessários para tratar os que adoeceram gravemente e precisaram de hospitalização no SUS.

Cabe destacar aqui que o Congresso Nacional, longe de ocupar-se da missão de tentar salvar o maior número possível de vidas, vem, na contramão dos interesses populares, acelerando a aprovação de uma agenda ultraliberal e antipovo, que busca reduzir ainda mais os já mirrados direitos democráticos que temos.

Nesse intento, já aprovaram a "autonomia" do Banco Central (que nada mais é que a entrega do órgão nas mãos do capital privado, em definitivo) e buscam privatizar os Correios, a Eletrobras e a Petrobras. Querem ampliar a participação do capital privado nos bancos públicos e potencializar os ataques aos serviços públicos com a contrarreforma administrativa.

Sem a força das ruas, Guedes, Sales, Tereza Cristina, Bolsonaro e companhia editaram com pouquíssimo esforço ou resistência as normas e decretos que nos trouxeram até este momento caótico. O país se tornou o segundo país do mundo em mortalidade por milhão entre as nações com mais de 20 milhões de habitantes e a vacinação avança a conta-gotas. Enquanto países como Inglaterra e Espanha vivem dias com vinte e poucas mortes, o Brasil segue com uma média de mortes diárias acima de 2.000.

Para se ter uma ideia do tamanho do buraco em que estamos, Cuba, uma ilha minúscula e pobre amargando um pesadíssimo embargo econômico, com recursos escassos, mesmo assim conseguiu agir estrategicamente, testou, isolou casos, garantiu com muita dificuldade que as famílias pudessem se proteger e soma hoje pouco mais de 650 mortes por covid-19. Com uma população de 11 milhões de pessoas, se tivesse tido a mesma quantidades de mortes por milhão de habitantes que o Brasil, teria perdido mais de 21 mil vidas.

Esta comparação serve para nos ajudar a entender o quanto foi importante que o governo Bolsonaro fizesse força para nos jogar desse precipício. Não bastaria apenas a negligência. Igualmente importante foi a ação deliberada em prol do espalhamento do vírus.

Hoje, os estados buscam itens básicos para intubar pacientes graves e mantê-los sedados nas UTIs. Não há mais profissionais médicos, fisioterapeutas, enfermeiros e técnicos para serem contratados e mesmo assim, em muitas localidades, a demanda por assistência é maior do que a capacidade de atendimento do SUS. A falta de insumos é consequência direta da negligência de um governo central que preferiu comprar cloroquina suficiente para abastecer o país por 18 anos a garantir as condições para que não faltasse oxigênio e sobrassem corpos empilhados em Manaus

Aparentemente, deixar morrer é uma opção razoável para estes governantes e, infelizmente, reagindo de dentro das nossas casas não estamos tendo nossos objetivos alcançados.

A decisão de ir para as ruas não é fácil e envolve muitos riscos. Qualquer ato convocado, por exemplo, exigirá um nível forte de planejamento e logística que garanta o fornecimento de máscaras e seu uso correto, álcool em gel e uma série de medidas de segurança sanitária. Aliado a isso, é quase certo que os monopólios de mídia criminalizarão as reações populares a este genocídio.

Ocorre que já morremos 400 mil vezes desde fevereiro do ano passado. Estamos expostos nos ônibus, nos metrôs, nas ruas. Estamos morrendo de covid e de tantas outras doenças evitáveis já que o nosso direito à saúde não está garantido no SUS, que se dedica quase que exclusivamente aos adoecidos pelo coronavírus.

Das mais de 400 mil mortes já ocorridas no país, mais da metade aconteceram nos últimos 4 meses, e o contador segue muito veloz. Não para! Como poderemos seguir esperando por uma eleição em 2022 e por um novo governo que começará em 2023? Como condicionar nossa ida às ruas a vacinação em massa se nos manter em casa parece ser a principal motivação para que este governo compre meia dúzia de imunizantes a cada semana? Até 2023 serão mais 20 meses lutando contra um vírus e contra a intenção de matar deste governo. Quantas mortes ainda precisarão ocorrer para que recalculemos nossas ações e tracemos novas estratégias para uma reação nacional que esteja a altura desta carnificina?

Infelizmente, não temos escolhas. Pressão institucional e mobilização na internet não demonstram ser capazes de causar o impacto que precisamos. Esperar até 2022 é uma irresponsabilidade com a classe trabalhadora, com o país, com o meio ambiente e com tudo que lutamos muito para construir - como as empresas públicas e o SUS.

Estaremos mais seguros em uma manifestação monumental de 1 milhão de pessoas com máscara PFF2, protetor facial, álcool gel e o máximo distanciamento possível durante 3 ou 4 horas do que por mais 20 meses sob o governo genocida/neoliberal de Bolsonaro, Paulo Guedes, Sales e companhia.

Este é o momento de ocuparmos as ruas e parar as cidades para pressionar onde o capital sente. Não podemos mais aguentar calados e apáticos enquanto esperamos a morte bater à nossa porta para levar mais um de nós. É arriscado, mas podemos fazer isto da forma mais segura e organizada possível. Vivemos uma encruzilhada histórica e não é aceitável entregar as nossas vidas e as vidas dos nossos irmãos sem lutar. É urgente! Tomemos as ruas!

* Esta coluna foi escrita em parceria com o historiador, educador e comunicador popular Jones Manoel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL