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Júlia Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um lockdown à brasileira

24.fev.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) visita o município de Sena Madureira, no Acre - Diego Gurgel/Ishoot/Estadão Conteúdo
24.fev.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) visita o município de Sena Madureira, no Acre Imagem: Diego Gurgel/Ishoot/Estadão Conteúdo
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

09/03/2021 10h48

A receita é simples. Em uma panela coloque um governo central que lava solenemente suas mãos e não institui sequer uma medida razoável para o enfrentamento deste caos sanitário. Ao contrário, faz uma força monumental para atrapalhar quem se organiza para resistir.

Isto é o que diz o boletim Direitos na Pandemia publicado em janeiro deste ano e que avaliou a linha do tempo da estratégia federal de disseminação da covid-19. A intenção de espalhar o vírus e expor as pessoas fica explícita.

Governadores e prefeitos, acuados pelos índices de ocupação dos leitos de UTI e pelo número de mortes que sobe vertiginosamente, fazem o que podem fazer. Restringem horários de circulação, fecham comércio, obrigam uso de máscara e multam quem promove aglomeração.

A questão é como a negligência, a imperícia e a irresponsabilidade presidencial se refletem no cotidiano.

Lockdown, estadual ou municipal, não protege os trabalhadores mais pobres e mais vulneráveis. Sem indenizá-los para que possam realmente ficar em casa e proteger a saúde de seus familiares, o simples fechamento do comércio ameniza, mas não resolve o grave problema de super transmissão do vírus.

Quem consegue manter trabalho remoto segue seguro em casa. Ainda bem. Quem só pode trabalhar presencialmente, justamente os mais pobres, seguem superlotando o transporte público com máscaras inadequadas ou sem elas.

Sem vínculos trabalhistas, dependendo do salário do dia para sobreviver e sem direito a afastamento por motivo de saúde, sintomáticos respiratórios se espremem nas estações e nos vagões com outros trabalhadores em busca do alimento do dia.

Não que fechar comércio seja completamente ineficiente. É uma medida que reduz contatos, sim, mas é muito pouco perto do que o país precisa.

Só uma ação centralizada que certamente não virá de Bolsonaro poderia nos levar a um arrefecimento desses números.

O mais triste é a deseducação das pessoas promovidas pela inconsequência do presidente. Enquanto o meio científico discute sobre máscaras mais eficientes, ele desfila sem máscara, provavelmente por que já se vacinou antes de decretar o sigilo do seu cartão de vacina por cem anos, deseducando seus seguidores e incentivando que se exponham. Um péssimo exemplo que ressoa no desejo de todos por uma vida mais próxima do normal. Afinal, quem não quer andar sem o imenso incômodo da máscara por aí?

Que não caiamos no discurso fácil e desconectado da realidade de dizer que não somos educados ou que o Brasil tem um povo irresponsável ou que estas atitudes são parte da nossa cultura.

Cultura não é imutável. Modos de agir se transformam com exemplos, educação e multa.

O lockdown à brasileira é um remendo. Estamos tentando frear um tsunami com a palma das nossas mãos.

Uma piada para o mundo. Uma piada sem graça e só quem ri é Bolsonaro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL