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Júlia Rocha

Assexualidade: a normalidade é um fio de navalha

Alina555/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Alina555/Getty Images/iStockphoto
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

02/02/2021 12h59

A experiência de ser considerado uma aberração, de ter seu comportamento julgado como errado, adoecido, de precisar ser corrigido, ajustado, disciplinado é de desmontar até a mais bem alicerçada autoestima. Passar pelo crivo social que avalia o corpo, a roupa, o modo de falar, o comportamento, o cabelo, a cor da pele, a capacidade intelectual, o tipo de trabalho, a sexualidade, o afeto e outros tantos critérios antes de nos premiar com o rótulo de normal pode ser uma experiência duríssima. Correr atrás deste rótulo pode tornar-se necessidade para muitos de nós. Assim, seguimos silenciando impulsos e modelando nossos gostos e preferências até que mereçam ser chamados de corretos. Isso pode ser profundamente violento e trazer danos imensos.

Não que eu pense que seja razoável não sabermos lidar com qualquer nível de crítica ou julgamento pelo que nós somos. Aqui, eu falo especialmente sobre ser considerado doente. Falo sobre sermos radiografados, analisados, julgados e definidos como um erro no que diz respeito à nossa sexualidade.

A diversidade não precisa de rótulos ou diagnósticos. A dita normalidade bem que poderia ser um espectro amplo, talvez infinito de modos de ser e existir no mundo com a única limitação de respeitar o outro e sua integridade. Assim, preferências, desejos, ritmos, intensidades das mais diversas seriam só maneiras de estar aqui, vivos, experimentando.

Acontece que não é assim que a banda toca. Estreitaram de tal forma a faixa da normalidade e do que é considerado adequado que a maior parte de nós ficou de fora. Até nossos desejos mais íntimos e primitivos agora precisam se encaixar, precisam caber. Mesmo a sexualidade, esta esfera pretensamente livre, precisa entrar dentro dos rigorosos parâmetros que consideramos a norma.

Nossos desejos, nossa vontade de transar devem agora obedecer a um ritmo e a condições bastante específicas. Qualquer coisa fora disso merece médico, psicólogo, psicanalista, exames laboratoriais, avaliação ginecológica, ultrassonografias, endocrinologista e, por fim, rótulos.

Sou médica de família, formada há mais de 10 anos e só recentemente fui atropelada pela assexualidade, uma orientação sexual que se refere às pessoas que não sentem atração sexual (seja de forma parcial, condicional ou total). Após a necessidade de entender, de me aprofundar e estudar sobre esta temática que me chegou de forma inesperada pude perceber o quanto eu como profissional de saúde estou condicionada a encontrar o erro, a doença, o inexato, o inadequado em tudo que vejo. Nesta jornada de ser médica perdi a capacidade de enxergar a diversidade como legítima.

Pensei que talvez isso fosse uma deficiência só minha e que talvez eu tivesse faltado a alguma aula na faculdade, mas pelos relatos que li e pela ausência de respostas que tive ao conversar com inúmeros colegas, vi que talvez isso se trate de algo mais comum que apenas uma falha individual da minha formação.

Ao me ver diante da assexualidade, eu quis imediatamente buscar justificativas na concretude dos fatos. "Será a causa desta anormalidade um abuso na infância, uma disfunção da tireoide? Terá sido a influência de um discurso moralista, fundamentalista religioso? Será a testosterona? Será o ovário? Será a cirurgia ou o relacionamento? Serão outras glândulas, outros pedaços, outros sistemas?"

Interessante que não fui das piores alunas, mas passei a graduação inteira sem ouvir falar que a sexualidade, suas orientações e identidades eram diversas. Que o desejo, o comportamento, o ritmo, a intensidade podem ser de tantos e tantos jeitos.

Agora, veja o potencial de dano que esta visão estreita do que se considera normal ou aceitável pode significar. Ainda mais quando olhamos em volta e o que vemos é uma sociedade hipersexualizada e patriarcal que define a potência de um ser humano pela régua da genitália masculina e pelo seu desejo de submeter o outro ao seu prazer.

Uma pessoa que deseja de forma diferente, diversa, apartada desta lógica que é tida como norma, com frequência será considerada doente. Com frequência receberá diagnósticos e precisará ser corrigida até que caiba na estreitíssima faixa do que é permitido e chancelado como normal.

A questão é que não precisamos caber. É violento caber. É dolorido tentar se encaixar. E contra a normalidade estreita precisamos cada vez mais de conhecimento e respeito à diversidade.

Agradeço ao psicanalista Francisco Rocha e aos autores do blog Assexualidade Brasil, pontos de partida desta busca enriquecedora.