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Júlia Rocha

Quando o padrão estético mutila, adoece e mata, quem matou?

Getty Images
Imagem: Getty Images
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

26/01/2021 13h07

Outra mulher morreu após uma cirurgia plástica. O que vou dizer aqui não é bem sobre ela. Acho que é sobre mim. Aliás, é sobre toda mulher. Fui buscá-la nas reportagens recentes, Vi suas fotos e vídeos. Vi imagens de suas últimas viagens. É absolutamente chocante imaginar que ela está morta.

Em algum momento da sua curta vida, aquela mulher saudável e que atendia a todos os quesitos impostos pelos padrões de beleza julgou estar inadequada, como todas nós nos julgamos incontáveis vezes, dia após dia. De algum modo, a pressão estética que sofremos e que nos impulsiona a buscar a qualquer custo uma beleza que não existe, mexeu com suas emoções, com seus valores e ela decidiu levar seu corpo saudável, forte, belo como todos os nossos corpos são, para a fria mesa onde ele deveria ser corrigido, manipulado, consertado.

É assim que as incontáveis imagens de mulheres perfeitas, corrigidas na plástica e no photoshop nos fazem sentir. Erradas. Estragadas. Necessitadas de correção. A insatisfação com a nossa própria aparência não é uma infeliz coincidência percebida na roda de amigas. Mulheres lutando contra sua própria natureza e punindo seus corpos descontrolados e fora do padrão é a regra. Somos parte da esmagadora maioria de mulheres do mundo insatisfeitas com o corpo que carregamos contrariadas.

Este corpo que deveria ser veículo virou fim. É com ele que gastamos quase um terço do que ganhamos. É sobre ele e sobre maneiras para consertá-lo, emagrecê-lo, modelá-lo que falamos, pensamos, buscamos, estudamos por horas a fio, todos os dias. Dedicamos parte significativa do nosso tempo de vida, da nossa inteligência e da nossa grana em produtos, procedimentos, cirurgias e o que mais apareça prometendo nos fazer mais próximas deste padrão de beleza propositadamente inatingível e irreal.

Infelizmente, este não é um privilégio apenas de algumas mulheres. Também as jovens, brancas, magras, de longos cabelos loiros e lisos, do corpo esculpido por plásticas, do rosto agulhado por sessões de harmonização facial estão esvaziadas de amor próprio e são incapazes de enxergar beleza nelas mesmas.

Se há um padrão feminino mundial, este padrão é o da insatisfação com a própria imagem. E com parâmetros cada vez mais inatingíveis e violentos, estamos fadadas a fracassar. Não adianta mais somente emagrecer. É preciso ter a barriga com gominhos e músculos aparentes. Não basta acabar com as rugas. Agora é preciso aumentar os lábios, modelar o nariz e as bochechas. Nunca acaba.

Tenho que concordar com Naomi Wolf, em "O Mito da Beleza", e admitir que criaram uma forma super eficiente de gerar rivalidade entre nós, de ocupar nossas mentes e corações com coisas profundamente fúteis e desimportantes, de limitar nossa autoestima e consequentemente nossas ambições e de desperdiçar nosso tempo com bobagens que nos impedem ou nos dificultam de pensar em coisas mais legais divertidas, como juntar uma grana para uma super viagem, ou para iniciar o projeto dos nossos sonhos. Aliás, que sonhos? Gastamos nosso tempo pensando em como nos encaixar. Isso toma o tempo de sonhar...

De algum modo, escolhemos colocar a vida em risco a ter que conviver com frustração de não estarmos dentro do mais novo padrão, da mais nova exigência. Pessoalmente não vejo como uma escolha livre e consciente já que nossa mente está cativa.

A força desta máquina cuja missão é nos convencer que para seguirmos existindo precisamos ser diferentes do que somos é brutal. Os objetivos são atualizados a cada dia de modo que a satisfação plena nunca chega. E esse é o combustível que alimenta a engrenagem.

Há 3 anos, dias depois do meu parto, eu decidi me submeter a um procedimento que prometia acabar ou amenizar a aparência das muitas estrias que a gravidez me trouxe. Eu me culpava dia e noite por ter engordado 12 e não 8 ou 9 quilos. Achava que tinha sido desleixada e não tinha comprado um hidratante bom o suficiente. Isso por que eu havia gastado uns R$ 400 com isso.

Na verdade, era só a minha genética falando mais alto. Afinal (prepare-se para esta constatação) somos diferentes umas das outras. E corpos diferentes reagem diferente a um mesmo estímulo. Uma gestação pode não modificar quase nada o corpo de uma mulher e pode modificar muito o corpo de outra.

Na mesa da clínica, útero ainda visível sob a pele marcada pelas exigências da gravidez, iniciei minha sessão de tortura paga. Uma agulha por onde passava uma corrente elétrica ia sendo inserida pelo caminho das marcas da minha história, a fim de apagá-las. Era importante não parecer uma mãe, mesmo sendo. Eu me sentia apagando o vestígio de um crime. O crime de ser feia para os padrões e as exigências desses tempos. Ser feia era quase antiético.

As dores eram maiores que a dor do longo trabalho de parto que eu havia vivenciado poucos dias antes. E, pasmem, eu aguentei. Na terceira sessão, perguntei à moça que me torturava se ela também havia passado por algo semelhante depois de ser mãe. Ela sorriu e disse: "Eu me separei meses depois. Aí, tive de operar, né. Não dá pra voltar para o mercado daquele jeito."

Uma gigantesca ficha caiu. A sessão de tortura não era por mim. Por mais que eu negasse e dissesse "estou fazendo pra me sentir bem", definitivamente, não era. Era para o tal mercado. Era para me sentir digna do desejo e do amor alheios. Era para que, caso meu companheiro resolvesse me deixar, já que eu estava um bagaço e, portanto, isso deveria ser compreensível, eu ainda estivesse ocupando uma posição razoável na tal "Prateleira do Amor" e pudesse assim ser escolhida por outro homem, com a minha barriga que quase não parecia ser uma barriga de mãe, embora fosse. - Leiam Valeska Zanello!

Depois daquelas palavras eu decidi que nunca mais me submeteria a nada que me provocasse dor. Na mesma época, bloqueei todos os meios que me permitiam ver as imagens das mulheres e marcas que promoviam e alimentavam meus sentimentos de inadequação.

As violências que aceitamos fazer com os nossos corpos e com as nossas emoções são imensas. Muitas vezes, como vimos recentemente, caímos feridas de morte. Quando mergulhamos nessa paranoia fabricada de que precisamos corrigir nosso corpo, perdemos a razão. Perdemos a racionalidade.

Há um sistema inteiro lucrando com a nossa busca por barrigas e corpos artificialmente esculpidos. Quanto mais machista e misógina uma sociedade, maior a nossa exposição a estes padrões, maior a nossa insatisfação, maiores as loucuras que fazemos para alcançar o inalcançável.

Aliás, é bom que se diga que a satisfação plena não virá nunca, visto que o modelo a ser seguido não existe. É sobre-humano. E mora justamente aí a mágica que faz a engrenagem seguir girando para sempre.

Mulheres saudáveis atendidas por profissionais capacitados e cumpridores das exigências técnicas, em bons hospitais e tendo acesso a assistência pós-operatória adequada também morrem. Há um risco inerente a toda cirurgia.

Uma jovem mulher morreu. Fim da sua história. Dor dilacerante para a família. Nem as mulheres que julgamos perfeitas e dentro dos padrões estéticos escapam da fúria das exigências.