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Júlia Rocha

O que será dos profissionais de saúde que distorcem a ciência?

Reuters
Imagem: Reuters
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

19/01/2021 13h55

A semana de sofrimento e morte promovida em Manaus pela incompetência logística e pelo desdém das lideranças políticas que tinham a obrigação de proteger as pessoas da morte por desassistência mas que, deliberadamente, escolheram nada fazer foi, sem dúvida, das coisas mais tristes que muitos de nós viu e vai ver na vida.

Tão incômodo e doloroso quanto ver as cenas das pessoas morrendo sufocadas por falta de oxigênio dentro de unidades de saúde foi ver o desespero dos colegas profissionais da saúde chorando, implorando por ajuda, pedindo recursos ao telefone, nas redes sociais e na televisão.

Contudo, não estávamos todos desesperados e chorosos em meio ao caos. Uma parte dos profissionais de saúde brasileiros estava usando suas redes sociais para incentivar seus milhares de seguidores a desafiar as autoridades e o vírus. Faziam em seus stories verdadeiras convocações para que as pessoas saíssem às ruas sem máscara, sem evitar aglomerações, sem se preocupar com a higiene das próprias mãos para caminhar nas praias e nas praças livremente já que estariam supostamente protegidas por medicamentos com capacidade de prevenir ou tratar a covid-19.

Basta buscar nas redes para assistir a vídeos bizarros de profissionais questionando as análises científicas de sociedades médicas conceituadas e insinuando que quem não prescreve o tal tratamento precoce está compactuando com o extermínio que estamos vendo em Manaus e em outras localidades pelo país.

Inverteram as responsabilidades e as obrigações. Agora, são os profissionais que observam a segurança e a eficácia dos tratamentos e que exigem que primeiro evidências sólidas e confiáveis sejam publicadas quem tem de provar que o suposto tratamento precoce não funciona.

Seria muito fácil que profissionais sérios convencessem a população se estivéssemos lidando com amadores, com notícias falsas descaradas, toscas e claramente ridículas e inacreditáveis. Não é o caso. Estamos falando de algo muito forte e organizado. Estamos falando de uma máquina de fake news qualificada que não tenta convencer apenas por meio de memes engraçadinhos.

Em grupos de médicos, tem sido cada vez mais comum que colegas sérios compartilhem postagens de defensores do tratamento precoce para que, em grupo, chequemos a veracidade das informações, tamanha é a similaridade das postagens com o que conhecemos como produção científica séria. Quem não tem familiaridade com conceitos básicos da epidemiologia, da Saúde Coletiva, da Prática em Saúde Baseada em Evidências (PSBE) e de outras áreas que formam as estruturas onde a assistência médica se alicerça vai olhar aquilo e acreditar piamente que estamos vivendo um tempo onde médicos se negam a prescrever tratamento adequado aos seus pacientes para que morram e assim contribuam para a queda de um governo.

Sim, por que é isso que está em jogo nas entrelinhas do "prescreve quem quer" ou "toma quem quer". Adotaram um discurso quase que religioso onde o "tratamento precoce" nunca tem culpa de nada. Se o paciente fica bom após alguns dias, sem manifestar sintomas relevantes (como já fica a maioria esmagadora dos infectados), mérito do tal "kit covid". Se o paciente desenvolve sintomas um pouco mais desconfortáveis, o "tratamento precoce" o salvou da possibilidade de agravamento. Se o paciente piora e fica grave, culpa do paciente, que não usou as medicações como deveria, ou culpa do médico daquele paciente que não prescreveu a medicação da forma correta ou no tempo correto. Como se existisse forma correta de se prescrever um tratamento ineficaz.

O importante é terceirizar a própria responsabilidade por estar orientando pessoas a tomar comprimidos ineficientes e encorajando-as, direta ou indiretamente, a se expor ao vírus.

O Ministério da Saúde e muitas entidades que representam os trabalhadores que estão na ponta, se matando para conseguir dar conta da demanda cada vez maior por assistência à saúde, estiveram em silêncio até 5 minutos atrás, quando, ou mudaram seus discursos, ou resolveram se posicionar de forma mais firme em relação a coisas muito básicas como a efetividade do uso de máscaras, do distanciamento e do isolamento social, de vacinas adequadamente estudadas e testadas e da lavagem das mãos.

Até agora, jogavam a bomba armada no colo dos profissionais, exaltando uma suposta autonomia enquanto pagavam influenciadores na internet para repetirem discurso anticientífico. Eu me questiono que autonomia é essa que seria possível de ser exercida dentro de um consultório fechado, com um paciente infectado por um vírus potencialmente letal, cobrando que você prescreva um medicamento que ele viu na internet e ameaçando te bater.

Foi isso que fizeram da nossa prática nos últimos meses. As pessoas viam vídeos de médicos e até de seguradoras de saúde enviando para a casa dos pacientes os tais kits para tratamento precoce e vinham dizer aos seus médicos que eles também queriam ter direito aquilo.

As postagens com gráficos, tabelas, setas, cores e legendas em inglês, que para leigos soam como a mais pura nata da ciência, frequentemente sequer identificavam seus autores. Isso sem falar que omitem números importantes para sua avaliação por pares e tem metodologia ruim. São comumente trechos e citações de estudos que não conseguiram sequer ser publicados em revistas científicas sérias.

E já se percebe uma distorção mais nefasta e perigosa: estes profissionais retiram de suas análises bons estudos, com boas metodologias, que se deram respeitando o rigor científico desde suas fases iniciais até a análise e publicação dos seus dados, mas que mostraram resultados diferentes daqueles que esses charlatões querem alardear.

Profissionais de saúde levam meses, até anos, para construir uma intimidade com o método científico. Também levam outros bons anos para aprimorar sua capacidade de ler, interpretar e julgar de forma crítica um artigo ou o conjunto das evidências disponíveis. Não podemos, portanto, achar que uma pessoa leiga exposta às maiores barbaridades e mentiras está capacitada para decidir se toma ou não um medicamento para poder se expor ou não a um vírus que já matou mais de 2 milhões de seres humanos.

De um lado, jornalistas, comunicadores, pesquisadores, médicos, lideranças políticas e até religiosas tentam convencer a população que a melhor maneira de se proteger inclui lavar as mãos rotineiramente, usar máscaras corretamente sempre que for sair, cuidar de não trazer a infecção para a sua casa lavando roupas que usou fora de casa, tomando banho assim que chega, deixando sapato na porta, evitando aglomerações, visitas a familiares, abraços, passeios, viagens, festas.

Do outro lado, um bando de irresponsáveis convida você a se juntar a eles na praia, a desrespeitar as medidas que reduzem seus riscos e os da coletividade, a zombar dos trouxas que seguem se cuidando e cuidando dos outros e a tomar medicamentos que só servem pra te dar coragem de se expor ao abismo. Não é difícil perceber que a ciência séria já sai perdendo na preferência das pessoas desde a começo.

É mais fácil escolher ir para a praia a ficar sentindo calor dentro de uma casa pequena, com suas crianças. A questão é que não deveríamos ter de passar por isso. Não deveríamos ter que fazer essas escolhas. Esta é, ou deveria ser, uma responsabilidade das instituições e de seus quadros, que certamente estão capacitados para fazer esta análise e publicá-las sem receios, sem medos, ser covardia.

Quando a pandemia passar, por que ela há de passar, os profissionais e as instituições que colaboraram para promover esta carnificina, seja por ação ou por omissão, precisarão se justificar. Precisarão trazer à luz qual foi o combustível que os moveu a trabalhar pela morte. Terá sido o medo? Medo de quê? De quem?