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Júlia Rocha

Eu te desejo um ano bom. Só bom. Não incrível.

Anitta fazendo show no Parque Madureira (Foto: Reprodução/Netflix) - Reprodução / Internet
Anitta fazendo show no Parque Madureira (Foto: Reprodução/Netflix) Imagem: Reprodução / Internet
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

27/12/2020 12h22

Entenda. Isso não tem nada a ver com você. Eu é que tenho repensado sobre o papel das coisas incríveis. Aparentemente, os dias incríveis, as comidas incríveis, os celulares incríveis, os parques de diversão incríveis, as escolas incríveis, os peitos, lábios e bundas incríveis têm nos levado a lugares nada bons.

Alguns acontecimentos nos últimos dias me fizeram questionar. Vivi duas experiências que a princípio não mostram conexão. A primeira foi fazer um panetone. Sim, eu mesma fiz um delicioso panetone. A segunda foi assistir a série sobre a carreira da Anitta.

Explico. Eu me tornei vegana em janeiro de 2020. Desde então, vivia choramingando e buscando saídas para conseguir comer esta que é uma das coisas que mais amo: o bendito panetone! Encontrei uma receita na internet, comprei todos os ingredientes, exceto a essência de panetone que havia acabado na loja aqui perto de casa. A moça do vídeo que ensinava a fazer o meu pãozinho amado dizia que a tal essência, veja que ironia, não era essencial.

Fui para a cozinha levando minha filhota a tiracolo. Juntas preparamos a massa, deixamos crescer, assamos e esperamos esfriar. Passei café fresquinho, enfeitei a mesa, e... "Bom apetite".

Qual não foi minha tristeza ao perceber que aquilo que eu tinha preparado com tanto cuidado não tinha gosto de panetone. Eu não quis nem saber se estava bom. Só anunciei a sentença: "deu errado."

Ainda no domingo passado comecei a assistir a série que conta sobre a trajetória da cantora Anitta. Tudo ali era tão intenso, tão elevado à décima potência, corpos tão sarados, bocas tão grandes, cabelos tão volumosos, sorrisos tão largos, choros tão sentidos, alegrias e tristezas tão extremados, viagens tão loucas e caras, com baladas tão caras e loucas, gritos, xingamentos, agendas tão lotadas, cifras tão inatingíveis que: Ufa! Fiquei cansada só
de assistir! Imagino ela.

Anitta deve ter tido um 2020 incrível. O panetone que eu comprava no supermercado também poderia ser classificado como um panetone incrível, mas tê-los como referência se tornou meu pesadelo.

O que Anitta e o panetone do supermercado quase conseguiram foi fazer com que eu pensasse que o meu dia a dia e a minha carreira de cantora independente, que grava de vez em quando, quando consegue guardar dinheiro pra pagar o estúdio ou meu pãozinho super delicioso cheio de gotinhas de chocolate não eram bons o suficiente. Não valiam ser comemorados. Não eram incríveis o bastante.

Saiba que eu achava a minha boca bem carnuda e sexy antigamente. Passava batom vermelho e ficava admirando meus lábios no espelho. Hoje, quem sou eu na fila dos lábios carnudos, amor. Ninguém!

Eu achava que tinha muito cabelo. Amava aquele volume e sempre fazia penteados que o valorizassem. Depois que inventaram o mega e os apliques, eu comecei a achar que meu cabelinho tava minguado e que precisava de ajuda, coitado. Até as escolas dos nossos filhos que antes tinham a missão de ensiná-los a ser gente, a conviver com o outro, a respeitar diferenças, a fazer contas e plantar feijões no algodão, hoje são exigidas a transformá-los em diplomatas, fluentes em quatro idiomas, aos 15 anos?! Estamos em busca de escolas incríveis, experiências incríveis, vidas incríveis. Aliás, voltemos juntos ao significado desta palavra. Incrível: aquilo que não é crível, que não se pode acreditar. Que possui um caráter extraordinário; fantástico. Minha
nossa, estamos fadados a frustrações avassaladoras. Não tenho nem roupa para uma vida dessas, gente! E estou para te dizer que muitos de nós não temos nem coração, nem coronária para aguentar tanta intensidade. Socorro!

O cérebro de quem se expõe a essa realidade forjada na mentira acaba por se acostumar com uma vida ultra. O sabor das coisas é ultra. A carne tem muito sabor de carne! A carne tem cinco vezes o sabor de carne comum. Ela vem temperada com realçadores de sabor que fazem o nosso cérebro entender que "CARACA, AGORA, SIM, EU SINTO UM MEGA SABOR DE CARNE!" Foi assim que transformaram tudo que tem sabor morango numa
humilhação gigantesca para o pobre coitado do morango de verdade, que jamais conseguirá ser tão intenso e tão incrivelmente morango como os aromatizantes sabor morango.

Nossos padrões de beleza atuais moram no céu do inatingível. Nunca, jamais, nascerá uma mulher com a boca, a bochecha, o queixo, os cabelos, as coxas, os peitos, a barriga, a bunda e até a vulva perfeitas, que não mereçam algumas intervenções cirúrgicas, preenchimentos, clareamentos ou coisas assim. "Mulher sofre, não é mesmo?"

Homens não estão totalmente a salvo. Se mulheres tentam se encaixar para ganhar posições mais favoráveis na prateleira do amor, metáfora genial de Valeska Zanello, pesquisadora sobre gênero, homens são incentivados a turbinar suas ereções e aprendem a fazer um sexo estranho e por vezes engraçado com aulas que recebem "gratuitamente" da indústria da pornografia.

A ereção natural, aquela genuína, simples, tradicional, que foi suficiente para dar prazer a quase todos os homens e a algumas mulheres de sorte desde que o mundo é mundo foi substituída por uma super ereção que dura horas, que permite penetrações por horas, que faz o cara aguentar horas de sexo intenso e que... Ai, só de falar me deu preguiça. Depois da medicação capaz de fazer essa judiação com o pobre coitado do órgão sexual masculino, as mulheres passaram a precisar de um pouco mais de sorte para serem felizes no sexo.

Eu desejo, por isso, cara leitora, caro leitor, que o seu ano seja só bom. Desejo que o seu cérebro se reacostume com o tédio saudável e doce dos dias comuns. Esse caminho de volta é longo, mas vale a pena ser trilhado. Fica mais fácil viver, sabe... Achar beleza e sabor nas coisas.

Eu desejo que seus alimentos não precisem ser encharcados de glutamato monossódico e aromatizantes para que você consiga achá-los suficientemente gostosos. Desejo que sua carreira seja agradável de ser vivida e só. Desejo que sua casa seja confortável, aconchegante e que você se acalme da angústia de fazê-la parecer com a casa do Pinterest. Que suas ereções sejam boas, que o sexo seja gostosinho. Que mulheres sintam aquele prazerzinho delicioso do orgasmo bem vivido.

Que 2021 não seja incrível. Que seja bom.