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Júlia Rocha

O incrível médico que sabia ouvir

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

22/11/2020 12h05

Você, cara leitora (homens, sintam-se incluídos), já saiu de um consultório, seja em uma clínica, seja em um hospital, em um serviço privado ou público, com a sensação de que gostaria de ter tido tempo e oportunidade de dizer coisas que na sua opinião eram relevantes ao profissional que te atendeu?

Você se sentiu mal por ter tentado falar, mas não ter conseguido pois foi frequentemente interrompida?

Pois é. Você não está sozinha. Em média, médicas (médicos incluídos) interrompem seus pacientes 18 segundos após lhe dar a palavra. Cerca de 2% dos pacientes apenas conseguem concluir suas explicações.

Não há provavelmente um ser vivente que negue a importância da competência técnica de profissionais de saúde. Formação sólida no que diz respeito a capacidade de interpretar e atuar guiado pelo rigor da ciência é o mínimo que se espera de quem se propõe a ser este agente de cuidado. Mas seria a ciência e sua busca por certezas e verdades matéria-prima suficiente para um bom encontro entre uma pessoa e seu médico?

A construção de um bom vínculo entre profissional e pessoa que busca cuidado implica no estabelecimento de uma relação horizontal. Plana! Não há hierarquia ou alguém que se coloque como superior. O saber científico tem seu valor, mas o saber sobre si mesmo, sobre seus processos de adoecimento e cura tem igual importância.

Se pensarmos em outros tipos de relação que estabelecemos em nossas vidas, é possível entender a quem ouvimos e em quem prestamos dedicada atenção. Na família, no trabalho, em casa, entre amigos ouvimos e damos importância a quem nos é caro, a quem admiramos.

Se nos eximimos de escutar o paciente que nos busca, fazemos por que para nós ele não é importante o suficiente. Há nisso questões com o outro, mas há também questões com o que somos.

Ouvir a perspectiva do dono dos sintomas, daquele que conhece o próprio corpo é estratégia inteligente para bons diagnósticos e tratamentos mais certeiros. Considerar os valores e as preferências de quem cuidamos para propor saídas é essencial. De que adianta ser ultra especialista em algo se seu paciente não toma o remédio que você sugeriu pois não se sentiu escutado?

Habilidade para se comunicar é competência essencial e pode ser desenvolvida. Contudo, ela sempre começa com o exercício da escuta atenta e honestamente interessada. Uma escuta seguida de um laço invisível, livre de julgamentos morais e insinuações culpabilizadoras.

Profissional de saúde que não ouve também não enxerga e tampouco considera o outro em sua complexidade. Em qualquer ambiente, em qualquer consultório, em qualquer bairro, ouvir é do humano. Não é questão de rico ou pobre, de mármore ou cerâmica barata, de SUS ou prédio espelhado. Isso é sobre quem somos e sobre quem consideramos tão humanos e dignos de humanidade quanto nós.

Há diagnósticos que só se faz com ouvidos e coração abertos. Há diagnósticos que chegam quando se permite falar. Há diagnósticos que fazemos pela observação paciente, pela contemplação calma e interessada.

São coisas que não cabem nas agendas. Há complexidades do humano que precisam do tempo para serem acessadas. Ouvir é só o começo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.