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Queria falar de amenidades, mas há 10 milhões de brasileiros passando fome

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Imagem: iStock
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

20/09/2020 11h31

Na próxima semana completo um ano aqui. Queria ter falado mais de coisas leves, engraçadas e bonitas, mas não deu. Acontece. Brasil, 2020, né, amores. Fazer o quê?

Hoje, por exemplo eu queria contar umas coisas ótimas, mas soube que há 10 milhões de brasileiros que não vão achar a menor graça, já que com fome, nada tem graça. Fome no Brasil onde o agro é tudo, hein. O supra sumo da eficiência, da custo efetividade e da [cof, cof] sustentabilidade ambiental.

Toda semana tem tragédia. São muitas. Eu quero um espaço de respiro. É sério. Estou ficando doente de não falar amenidades e contar casos que antes eu contava para os meus amigos na mesa de um boteco que fica perto da casa da minha mãe.

Nem eu, nem meus amigos temos coragem de sair de casa ainda. Aliás, acho que somos só nós, agora, nestas condições de frescura e antipatia, como me disseram na quarta-feira. "Que frescura! Que antipatia! Todos já estão na rua!"

Já estão todos na rua, gente? Faz tempo que eu não vou lá ver. Até acho que foi por isso que esse blog virou uma sucessão de textos muito tristes ou sérios. Há 6 meses não vou na esquina refrescar a cabeça. Como que vive assim?

Ao menos, tenho uma notícia boa. Desde terça-feira, dia em que me voluntariei para o estudo de uma vacina contra a Covid-19, tenho me sentido estranhamente esperançosa. Passei a achar que a vacina vai dar certo, ora veja. Se você me perguntasse isso na segunda, eu responderia: esquece! Vai demorar. Na terça, eu mudei.

Por que nossas percepções são isso: percepções. Nada mais. Elas não se baseiam em fatos, mas nas nossas esperanças e desejos mais intensos.

Sou daquelas pessoas que muda a vida depois que uma amiga dá um conselho, depois de ouvir uma música ou depois de ver um documentário ou dois. Foi assim que me tornei vegana. Talvez o conselho, a música ou o documentário funcionem como a gota d'água no copo quase transbordando. Essa semana aconteceu.

Na terça, com o braço direito ainda dolorido da agulhada que levei, insistia em seguir vidrada na tela do meu celular. Corri o olho nas indicações de documentários e acabei vendo um chamado "O dilema das redes". Desde que vi aquilo ganhei cerca de seis horas a mais no meu dia para fazer coisas variadas, melhorei da minha dor de cabeça e reduzi enormemente minha sensação de ansiedade, que incluía palpitações, insônia e esgotamento mental.

Eram 6, 7, até 8 as horas que eu perdia diariamente com o celular na mão. O documentário falava de vício em redes sociais e sobre como isso não era uma falha minha, mas um projeto dos caras que criaram e recriaram e recriam todo dia a forma como essas redes funcionam e nos aprisionam. Eu acabei me sentindo mal ao perceber que estava doente e enfiando o celular em todas as frestas do meu dia. Por outro lado, me senti melhor por dividir a responsabilidade daquilo com os donos do Instagram, do Twitter e do Facebook.

Soltei o celular de um jeito tão gostoso que cheguei a esquecê-lo em casa na quinta e só lembrar no meio do turno do trabalho.

O tempo que eu usava para deslizar o dedo incessantemente sobre a tela, acabei usando para fazer uns alongamentos no chão da sala, finalizar meu livro, passar mais tempo com a minha filha, ver uns filmes, conversar com a minha mãe e pensar nas coisas.

Das poucas vezes que li uma notícia, a manchete era essa: 10,3 milhões de brasileiros passam fome. Fechei o celular e não quis ler mais nada. Há uma urgência aqui. O que me ocorria antes era que eu lia seiscentas notícias por dia e ao final de tudo estava completamente apática em relação a todas. Só sabia dizer que o fundo do poço havia chegado. Agora, há 4 dias estou apenas com esta tragédia. Devo ficar só com ela nos próximos meses, por que ela é grave o suficiente.

Quero reaprender a lidar com uma tragédia por vez e ver se consigo fazer algo com isso. Como não vi mais as notícias depois desta, talvez eu esteja atrasada de tragédia. A catástrofe do momento provavelmente já é outra. Peço desculpas por isso.

O fato é que o agro é pop, é tech, é tudo e não há comida para dez milhões e trezentas mil pessoas no Brasil de 2020. Não eram eles os eficientes que colocavam comida na nossa mesa? Ou será que eles são um modelo de produção meramente explorador do meio ambiente, voltado a produzir commodities numa lógica de ganhos econômicos privados, invadindo terras, matando campesinos, indígenas e ribeirinhos, devastando imensas áreas para plantar ali desertos verdes de soja e milho transgênicos que vão virar ração para o gado que seguirá sendo explorado e destruindo mais terras e produzindo poluição atmosférica?

Outro fato. Quem coloca comida de verdade na nossa mesa (abóbora, mandioca, cenoura, agrião, laranja, banana, café, maracujá, alface, pepino, tomate, cebola, berinjela, alho, abacaxi) definitivamente não é o agronegócio e seus latifúndios injustos e insustentáveis.

Enquanto isso, o Ministério da Agricultura discute propostas de modificar o GUIA ALIMENTAR PARA A POPULAÇÃO BRASILEIRA, pois, segundo este ministério, este é um dos piores guias do planeta.

Veja que interessante, caro leitor, cara leitora. Organismos internacionais de combate a fome e a extrema pobreza não concordam. Pelo contrário. Recomendam o guia como um exemplo a ser seguido.

Isso ocorreu por que o guia está focado em trazer orientações cientificamente respaldadas e livres de influências puramente mercadológicas e econômicas. Sendo assim, as orientações são no sentido de preferir alimentos in natura ou minimamente processados. Atento ao fato de que não é possível ser saudável em um planeta consumido por desmatamentos, queimadas e poluição atmosférica, o guia vai além e recomenda a redução pela demanda de produtos de origem animal, por entender que isso "reduz notavelmente as emissões de gases de efeito estufa (responsáveis pelo aquecimento do planeta), o desmatamento decorrente da criação de novas áreas de pastagens e o uso intenso de água".

O Ministério da Agricultura, que poderia ter seu nome trocado para Ministério do Agronegócio, não fortaleceu quem realmente nos alimenta com comida saudável e a produz de uma forma sustentável. Pelo contrário. As políticas federais visam concentrar mais terra, aniquilar a agricultura familiar e, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, que também poderia ter seu nome trocado pela sugestão anterior, passar a boiada contra a preservação dos nossos biomas.

A fome que virou notícia não é a falha deste sistema. Ela é este sistema em seu esplendor. Alguns de seus defensores perdem a vergonha e ousam dizer que a culpa da alta dos alimentos é do auxílio emergencial. Auxílio usado por pobres e miseráveis para comer.

Os pobres! Sempre eles! Comeram demais e o arroz subiu. Para este sistema de produção, não dá para todo mundo comer, senhoras e senhores. Desequilibra a economia.

Semana que vem eu vou tentar falar de amenidades outra vez.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.