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Júlia Rocha

Brasil, o cativeiro das mulheres

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Imagem: iStock
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

13/09/2020 11h54

Como era de se esperar, e quem estuda a história sabe que os direitos das mulheres são os primeiros a serem questionados e atacados em momentos de crise, o Brasil se tornou um imenso cativeiro para mulheres de todas as raças e classes sociais.

Quem já tomou consciência disso tenta se proteger e também a outras mulheres, mas há quem ache que tudo segue dentro da mais absoluta normalidade e que falar disso é uma grande bobagem. Coisa de feminista que não tem mais o que fazer.

Não importa em qual grupo você se encontra. Se você é mulher, você está em risco.

Em uma única semana ganha espaço nos portais de notícia da internet a história de duas mulheres. Histórias de um pesadelo vivido por Mariana Ferrer e Patricia Garcia.

Dignas de um filme de terror, as histórias vividas por estas mulheres são retratos contundentes do que é ser mulher no Brasil de 2020.

Mariana Ferrer, brasileira e branca, lutou quase dois anos para provar que foi vítima de um estupro cruel em uma conhecida casa noturna de Florianópolis, local onde trabalhava na noite do crime.

Contra o acusado, muitas provas tratadas apenas como indícios. O testemunho da mãe que dizia ter visto sua filha com o corpo amolecido, como nunca viu antes. O laudo médico que atestou a ruptura recente do hímen e o sangue nas roupas que ela usava naquele dia. O laudo pericial que constatou a presença de esperma do estuprador nas roupas da vítima. A manipulação de imagens de fotos e vídeos do local do crime. Os prints dos pedidos de ajuda da vítima. O testemunho do motorista de aplicativo que a levou para casa dizendo que ela estava visivelmente dopada.

Para a justiça, não foi suficiente para condenar seu agressor por estupro de vulnerável.

Patrícia Garcia, paraguaia de ascendência indígena Guarani, teve seu filho arrancado de seus braços sob alegações de negligência no cuidado de sua saúde. A motivação para a decisão judicial veio após constatação de uma deficiência de vitamina B12 atribuída ao fato de que a família seguia dieta vegetariana estrita.

Para embasar as acusações de negligência e maus tratos, acusaram Patrícia de não ter feito acompanhamento pré-natal.

Patrícia tinha contra o ex-marido, que é quem hoje detém a guarda unilateral da criança, uma medida protetiva expedida após episódios de violência contra ela.

Patrícia tem registro de todo o seu cuidado com o filho, incluindo os registros feitos pelos profissionais de saúde que a acompanham. Ela seguia amamentando seu filho, algo raro de se ver no país que tem índices de aleitamento materno desanimadores. Seu filho se beneficiava disso por motivos ainda mais especiais que a nutrição. O bebê, que nasceu com condição conhecida popularmente como hidrocefalia benigna, usa a sucção do leite da mãe como tratamento.

Nas últimas semanas Patrícia foi obrigada a tornar pública a sua intimidade para provar que cuidava muito bem de seu filho e para tentar ser ouvida pela justiça brasileira.

Nas redes sociais, somam-se ao seu desespero de mãe, testemunhos de amigas e amigos que falam emocionados sobre Patrícia e sua maternidade amorosa e gentil.

Há mais de um mês, Patrícia segue ordenhando seu leite e entregando aos atuais responsáveis pelo cuidado de seu filho. Ela entrega os recipientes com o líquido entre as grades do portão da casa do ex-marido.

Para Mariana e Patrícia, restam olhares de desconfiança que chegam como flechas: O vestido devia ser curto demais. Uma menina nova tomando gin?! Ela não parecia tão bêbada ao descer a escada. Mas por que ela não denunciou na hora? E por que estava naquele lugar de madrugada? Por que decidiu ser vegana? Por que pariu fora do hospital? Mas será que ela cuidava mesmo desse menino? Por que fariam isso se ela não tivesse culpa de nada?

Nessa realidade distópica em que mulheres precisam se expor para tentar se defender e mesmo assim são julgadas como mentirosas e negligentes, todas nós estamos vulneráveis.

A mensagem que nos chega é a de que não vale a pena lutar, denunciar, brigar por justiça.

Peço que não desistamos umas das outras nunca. É preciso seguir brigando. Por Mariana, por Patrícia, por tantas que se mantém anônimas e silenciadas.

A chave do cativeiro está na luta.