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Júlia Rocha

Quem pode chorar por ele?

Chadwick Boseman posa para foto durante o MTV Movie And TV Awards, em Santa Mônica (Califórnia) - Jeff Kravitz/FilmMagic/Getty Images
Chadwick Boseman posa para foto durante o MTV Movie And TV Awards, em Santa Mônica (Califórnia) Imagem: Jeff Kravitz/FilmMagic/Getty Images
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

30/08/2020 10h59

A morte de Chadwick Boseman, o homem negro que deu vida ao personagem central no filme "Pantera Negra", após uma convivência silenciosa com um câncer intestinal despertou a tristeza de quem perde um amigo em muitos homens e mulheres negras também no Brasil.

As atuações de Boseman e os enredos dos filmes que ele viveu se tornaram emblemáticos na luta antirracista pelo mundo.

Boseman personificou nos últimos anos os desejos de mudança e a ampliação de horizontes e possibilidades para as populações negras dentro e fora dos Estados Unidos.

Espera-se que, para enaltecer e celebrar a memória e a vida de um artista negro tão emblemático para a comunidade negra e para a luta antirracista, a pessoa ou instituição não seja, na vida prática, cotidiana, apoiadora de políticas públicas que seguem matando pessoas negras todos os dias.

Infelizmente, a coerência passa muito distante dos militantes antirracistas "mainstream". Aqueles famosos, que toda semana estão dando entrevista ou comandando programas de auditório no sábado à tarde dizendo que a luta antirracista é de todos, mas esquecem de praticar o antirracismo nos seus posicionamentos políticos.

Na lista há redes de televisão, apresentadores, conglomerados de comunicação e empresas que lucram com o racismo mas também ganham e muito com a luta antirracista. Contraditório? O lucro contraditório segue sendo lucro.

Na vida prática, na concretude cotidiana, pessoas ou instituições verdadeiramente antirracistas se posicionam a favor da vida de homens e mulheres negros, mesmo que isso signifique deixar de ser convidado para se sentar no programa matinal das grandes redes de televisão. Afinal, ninguém chama um militante antirracista raiz para falar ao vivo que o estado é assassino, em rede nacional, não é mesmo? Não se for alguém influente e com real visibilidade, por exemplo, alguém com mais de 13 milhões de seguidores no Twitter e quase 20 milhões deles no Instagram. Para isso, eles chamam mães órfãs de seus filhos, de preferência chorosas, desesperadas, para que não tenham crédito e sejam acusadas de péssimas mães pelos homens de classe média do outro lado da tela: "É só não ser bandido que a polícia não mata." Eles dizem.

Deveríamos recriminar quem usa a memória e o legado de Chadwick mas se posiciona a favor de um neoliberalismo assassino de negros na vida real! Pessoas que crescem em popularidade com a luta antirracista, sendo que esta luta na verdade é encampada por quem está na mira do fuzil desse estado assassino. Gente que quando se posiciona politicamente está escancaradamente contra pessoas negras. Como? Apoiando políticas de retirada de direitos dos mais pobres. Exemplos não faltam.

A reforma da previdência que na prática impossibilita a aposentadoria de milhões de pretos e pardos. A reforma trabalhista, que retira direitos e agudiza a exploração de outros milhões de pretos e pardos. A dita guerra às drogas, que nada mais é que a guerra aos pobres, pretos e pardos nas comunidades brasileiras. O embate jurídico pela legalização da maconha, droga cuja criminalização é basilar para que se siga matando jovens pretos e pardos nas periferias do país. A política criminosa de austeridade fiscal que congelou investimentos públicos sufocando o SUS e a educação pública. As políticas de extermínio dos povos e nações indígenas. A criminalização dos movimentos de trabalhadores sem terra. As investidas contra o direito ao aborto legal e seguro que todos os anos mata mulheres, principalmente as pretas e pardas, já que são as mais pobres.

Quem apoia o estado mínimo que mata a população pobre, seja na ponta do fuzil ou na fila por leito no SUS, e aplaude o estado máximo quando o assunto é proteger uma burguesia que fecha os olhos e o nariz enquanto pula os cadáveres da carnificina que ela própria promove devia ser proibido de falar o nome de Chadwick.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.