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Júlia Rocha

Obrigada, Doutor. Uma carta aberta a Olimpio Barbosa de Moraes Filho

O obstetra Olímpio Moraes, médico pernambucano responsável pelo procedimento de interrupção da gravidez da criança de 10 anos - Teresa Maia/UOL
O obstetra Olímpio Moraes, médico pernambucano responsável pelo procedimento de interrupção da gravidez da criança de 10 anos Imagem: Teresa Maia/UOL
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

23/08/2020 12h46

Caro colega,

peço licença para chamá-lo assim, já que para mim é uma honra compartilhar da mesma missão e da mesma profissão que o senhor. Escrevo com lágrimas nos olhos pois os últimos acontecimentos me viraram do avesso. Quem fala aqui é uma médica, uma mulher, uma mãe, que graças a profissionais como o senhor teve uma experiência de gestação, parto e puerpério da qual trago só boas lembranças.

Foi por ser filha de pais amorosos e emocionalmente saudáveis que tive a chance de viver uma infância e adolescência felizes. Foi por ter acesso a sistemas de saúde e educação que não me faltaram orientação e anticoncepcional quando isso foi oportuno. Foi por ser estudante de medicina que soube como agir para usar a pílula do dia seguinte quando precisei de contracepção de emergência.

Foi por isso, por ter tido meus direitos, inclusive os sexuais e reprodutivos, garantidos ao longo da vida e por ter sido protegida de tantas violências, em parte pelas condições econômicas da minha família, que eu cheguei à vida adulta sem ter vivido uma gestação não planejada e sem uma história trágica de um aborto clandestino para contar. E, considerando as nada irrelevantes possibilidades de falha dos métodos anticoncepcionais, contei também com um bocado de sorte. Por que, afinal, é isso que nos resta neste país que odeia mulheres. Contar com a sorte.

Em meio a tantas dores vividas na última semana com o relato macabro e infelizmente comum de violência contra uma criança de 10 anos, uma imagem soprou brisa suave e calma sobre os meus olhos marejados. Sua presença e de sua equipe naquele hospital de Recife acalmou meu coração de um descompasso preocupado. Ao vê-lo destemido, enfrentando os berros ensandecidos de fundamentalistas religiosos que estavam ali para perpetrar nova violência contra aquela criança, meu coração descansou. Enfim, aquela menina, aquele pedacinho de gente, como diria minha avó, havia encontrado um pouso. Uma menina cuja infância foi roubada, não por 3 homens, mas por uma sociedade inteira conivente com o estupro, tinha agora um lugar para recostar a cabeça e descansar segura, enfim.

Soube por reportagens que as enfermeiras de sua equipe, além de prestarem seus serviços como profissionais também souberam acolher esta pequena como ela merecia. Talvez por isso, tenham podido contemplar seus sorrisos depois de um longo período de dor e tristeza.

Enquanto isso, aqui fora, tínhamos o desprazer de ler uma professora de São Paulo comparando esses quatro anos macabros de violência e dor a uma vida sexual consentida e questionando o fato desta criança, esse pingo de gente, não ter chorado, não ter gritado, não ter reclamado. Lá dentro, o senhor e sua equipe honravam não só a missão de proteger seu corpo da morte, mas também a de proteger sua imagem, sua vida, seu futuro dos perigosíssimos fanáticos que a atormentavam aos gritos de assassina.

Incrédula pela perversidade dos que se opunham ao procedimento que salvaria a vida da vítima, pensei tantas coisas. Não quis aceitar tamanha crueldade e cheguei a cogitar que talvez não soubessem como é o corpo minúsculo de uma criança de 10 anos. "Será que sabem que esta menina não deve sequer pesar 40 quilos e que gestar e parir para esta criança pode ser fatal?" Mas a realidade me chegou fria. Sabem, sim. Sabem e não se importam. Sabem por que há alguns anos condenaram o senhor à excomunhão por que, bravamente, o colega enfrentou tudo e todos para salvar uma outra menina, esta de 8 anos, grávida de gêmeos.

Por essas e por outras vítimas é que eu quero lhe dizer: Obrigada!

Eu dormi aliviada ao saber que ela estava sob seus cuidados. Fiquei tranquila ao saber que após recuperar-se da anestesia ela sorriu pela primeira vez. Sorriu para esta nova chance de retomar sua vida em situação segura, longe de seus abusadores e amparada por uma equipe de saúde que não a julga, mas cuida dela.

Sabe, Doutor, muitos homens gostam de perguntar a nós, mulheres feministas, como eles devem agir para não serem considerados machistas. Perguntam como devem se posicionar para serem considerados aliados na luta por igualdade entre homens e mulheres. A partir de hoje eu direi a eles: "Sejam como o Doutor Olímpio." Um homem que enfrentou Bispos, Arcebispos, Cardeais, Pastores, todos tão impiedosos quanto os estupradores que violentaram esta menina. Todos tão odiosos quanto os pedófilos que dela abusaram durante quatros anos. Estes religiosos disseram que o que o senhor fez foi um crime hediondo. Para eles, você deveria ter deixado estas e outras meninas de 8, 9, 10 anos seguirem com suas gestações.

Eu, humildemente, digo e repito. Você não salvou somente aquela criança. Você me salvou de perder as esperanças neste país.

Um país que permitisse que esta criatura fosse obrigada a carregar aos dez anos uma gestação fruto de uma violência inominável, correndo risco de morte e mesmo assim sendo aplaudida por uma horda de homens normalizadores do estupro e da pedofilia já seria um país morto. Seguimos respirando.

Estou certa que atender pacientes vivendo situação tão devastadora não deixa nenhum profissional feliz. Estou certa que a luta sua, de sua equipe e de tantos e tantas profissionais de saúde pelo país é para que haja educação sexual nas escolas, para que superemos esta cultura machista de objetificação do corpo feminino e para que cada vez mais consigamos proteger nossas crianças desses abusadores.

Nenhum médico fica feliz fazendo um aborto. Nós ficamos felizes em salvar vidas. Foi isso que você fez. Obrigada por ter colocado a vida e os interesses desta criança acima dos interesses de fanáticos religiosos. Obrigada por ter enfrentado tudo isso com dignidade e com o único pensamento de que a pessoa mais importante e que deveria ser protegida nesta história toda era a vítima.

Muito obrigada, Doutor!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.