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Júlia Rocha

O que vivíamos antes era normal?

Movimentação no Mercadão de Madureira, centro de comércio popular, no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro - Dikran Junior/AGIF
Movimentação no Mercadão de Madureira, centro de comércio popular, no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro Imagem: Dikran Junior/AGIF
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

26/07/2020 11h27

Parece um truque de mágica. Coisa daqueles ilusionistas que fazem a gente se encantar com a realização do impossível. E, de fato, é isso: truque, ilusão.

Conviver por tantos meses com uma tragédia de proporções tão grandes e com o potencial mortífero como o desta pandemia fez com que nossos cérebros acionassem todos os mecanismos de defesa possíveis para que mantivéssemos algum nível de sanidade e seguíssemos funcionando e reproduzindo a vida.

Se não é possível sofrer e se impactar com mais de mil mortes todos os dias sem se sentir amedrontado, paralisado, inútil, improdutivo, de algum modo, lá nas profundezas da nossa mente, tratamos de normalizar.

Mas convenhamos. Por mais que tentem nos convencer que um número de mortes maior que a queda de 4 aviões todos os dias é normal e que as coisas estão melhorando por que antes estava ainda pior, não há como racionalizar esta matança e seguir indiferente.

Nos telejornais, nos discursos das lideranças políticas e na internet, palavras como estabilização, platô, controle e redução são usadas diariamente para nos convencer a retomar a rotina. É urgente que voltemos a consumir e produzir como antes.

É preciso que a gente volte a comprar roupas, maquiagens, carros, geladeiras, embalagens plásticas, para que haja empregos novamente. Só assim a riqueza volta a circular e as classes mais vulneráveis podem pensar novamente em alcançar o mínimo de dignidade para seguir sobrevivendo.

Veja. Se isso não acontecer, estas pessoas vão morrer de fome, afundados em uma miséria seca e paralisante. E isso acontecerá a despeito de haver comida, de haver recursos, de haver riqueza no mundo a ser dividida, a ser compartilhada.

E os que não morrerão mas viverão a derrocada do seu padrão de vida também estarão ansiando pela volta da dita normalidade.

O modo de vida que nos foi imposto exige a destruição do planeta e de seus recursos naturais além de exigir também a exploração de pessoas até que findem suas forças para que o próprio sistema se mantenha viável.

É assim que seguimos sem crises, eles dizem. Sem crises, para este sistema, significa haver uma massa de pessoas miseráveis, outra massa de pessoas ultraexploradas disputando a vida nas periferias, mas com uma aparência de normalidade para quem está no centro.

Fomos convencidos de que este modo de viver e reproduzir a vida é a única forma de existirmos neste planeta. Assim, ansiamos pelo dia em que voltaremos ao normal. O normal que é explorar a imensa maioria de seres humanos deste planeta e destruir sua natureza a ponto de termos que conviver com a nossa própria debilidade física secundária a esta destruição.

O modo que vivemos nos trouxe a esta situação. E veja só: não vemos a hora de voltar a ele.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.