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Júlia Rocha


SUS: Uma fortaleza a nos proteger

Marcello Casal Jr./Arquivo/Agência Brasil
Imagem: Marcello Casal Jr./Arquivo/Agência Brasil
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

28/06/2020 14h50

Se há algo de positivo (nem sei se devia usar essa palavra) em tudo que estamos vivendo hoje no país, é o reconhecimento de uma potência chamada SUS. A situação é gravíssima, mas, se há alguma instituição brasileira a se comportar como um robusto dique, nos protegendo de uma tragédia com potencial dez vezes maior do que a que vivemos, é o nosso Sistema Único de Saúde.

Costumo dizer que não haverá o dia em que um de nós chegará à Unidade Básica de Saúde e encontrará um aviso na porta: "Fechado. O SUS acabou." Políticos, por mais financiados pelos planos de saúde que sejam, não bancam essa ousadia, embora muitos deles desejem fervorosamente. O jeitinho que encontram, não para matar, mas para inviabilizar, é sufocar. Desinvestir. Sucatear.

A falta de recursos impede que profissionais das várias áreas que se dedicam a construir esse sistema trabalhem em plenas condições e usem de todo o seu talento para gerar saúde e bem-estar social. Cansa nadar contra a corrente, e por isso, ao longo dos anos, o SUS vai perdendo recursos humanos valiosos para a iniciativa privada. Os que resistem seguem sem receber na ponta da assistência os recursos materiais adequados para entregar o melhor serviço que poderiam prestar.

A despeito de tudo isso, o SUS segue sendo a fortaleza que nos guarda de uma tragédia ainda maior. Sem coordenação centralizada, sem ministro da saúde em meio à maior crise sanitária dos últimos cem anos, o nosso Sistema Único de Saúde resiste salvando vidas. Vidas negras, vidas pardas, vidas trabalhadoras, vidas lésbicas, vidas pobres. Todas as vidas.

Municípios se organizaram para oferecer consultas online, atenção domiciliar, serviços de urgência e emergência e consultas ambulatoriais de forma eficiente e segura durante toda a travessia. Sem recursos adicionais, treinaram equipes, construíram estruturas extras, redirecionaram unidades inteiras para o atendimento de casos suspeitos, abriram novos leitos para casos confirmados e seguem brigando para promover saúde.

A questão que paralisa é que a onda de mortes que nos assombra é maior que a capacidade de proteção vinda de estados e municípios. Sem dinheiro que garanta a dignidade e a sobrevivência das pessoas para que elas fiquem em casa guardando suas vidas e a vida dos seus familiares, sem política pública que favoreça o isolamento massivo da população, sem uma mísera coordenação centralizada das ações em saúde, prefeitos estarão tentando encher um balde furado. De que adianta ampliar leitos de UTI se as ruas lotadas viraram fábricas de doentes?

Devemos, no entanto, estar atentos para não cair na armadilha de culpar o vizinho que teima em passear no shopping com 90% dos leitos de UTI ocupados em sua cidade. Sim, ele tem sua parcela de responsabilidade. Todavia, se o shopping estivesse fechado, ele não estaria lá.

E se há uma preocupação legítima com a economia, aí sim é que deveríamos defender o isolamento radical e prolongado. Por que nada vai voltar ao normal enquanto estivermos perdendo cinco aviões lotados de pessoas, de gente, de seres humanos, todos os dias.

Sim, o SUS está a nos salvar de uma tragédia ainda maior. Se nem 10% da população ainda foi exposta ao vírus, o caos que estamos vendo e vivendo ainda pode ser multiplicado muitas vezes. A despeito de qualquer esforço das equipes que se arriscam para cuidar de quem precisa, se nada for feito para fortalecer o sistema que guarda nossas vidas, estaremos em muito maior risco.

Esta pandemia nos pegou no contra-pé, sufocados por uma Emenda Constitucional que proíbe o aumento dos investimentos públicos mesmo em uma situação absolutamente atípica como a que vivemos. A indústria de equipamentos hospitalares brasileira já praticamente inexistia antes do vírus e segue incapaz de atender as novas demandas. Medicamentos básicos para manter vivos os pacientes entubados já começam a faltar.

Precisamos de urgência na tomada de decisões em direção a um isolamento social decente, ao retorno de investimentos em saúde, à indenização dos trabalhadores para que fiquem em casa com dignidade. Se não brigarmos por isto, o dique que garante a nossa mínima proteção irá se romper. Não haverá, então, dignidade nem na morte.

Júlia Rocha