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O que dizer que ainda não tenha sido dito sobre Miguel?

Vídeo mostra o elevador momentos antes de menino cair de prédio em Recife - Reprodução
Vídeo mostra o elevador momentos antes de menino cair de prédio em Recife Imagem: Reprodução
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

06/06/2020 14h07

Primeiro que Miguel era uma pessoa. Miguel era uma criança. Miguel era filho de uma pessoa. Neto de uma pessoa. Antes de mais nada, é preciso gritar aos quatro cantos que ele era o bebê da mamãe dele. Não sei como ela o chamava, mas ele com certeza era a razão de viver dessas duas mulheres. Da Mãe e da Avó.

Para as pessoas brancas que não conseguem (ou não querem) enxergar o racismo estrutural que grita neste assassinato, eu quero falar. Por que é importante que vocês entendam que isso não é sobre a ilustre primeira-dama de Tamandaré. Isto é sobre o Brasil.

Eu preciso falar sobre o que antecede toda violência racista. Há algo que nasceu antes de Miguel, antes de Mirtes, antes de Sari. A DESUMANIZAÇÃO. Esta é a condição primeira. É a fundação sobre a qual se ergue uma sociedade desigual. Antes de abandonar uma criança, um ser humano de cinco anos, o bebê de uma mãe, o bebê de uma avó, no elevador DE SERVIÇO (é importante que se diga), assumindo ali os inúmeros riscos decorrentes daquele ato, uma pessoa precisa desconsiderar radicalmente a sua humanidade. Não importa se ele estava chorando, fazendo pirraça dentro do apartamento ou gritando pela mãe. Mesmo que ele estivesse quebrando a casa toda, coisa que ele não estava fazendo, nada justificaria o fato de ele ter sido abandonado à própria sorte naquele elevador.

Para que você, caro leitor, cara leitora, entenda o tamanho da perversidade envolvida neste fato, basta fazer comigo um exercício de imaginação. Você tem um filho ou um sobrinho nesta idade? Você se lembra de seu filho com cinco anos? Consegue se lembrar do jeitinho dele, de sua maturidade, de sua completa dependência dos cuidados de um adulto? Pense nesta criança de sua família. Nesta criança que você e os seus amam e cuidam. Você a colocaria num elevador sozinho? Um elevador de serviço, separado dos halls de entrada dos apartamentos por uma porta corta-fogo? Mesmo que o prédio não oferecesse os riscos de um andar sem proteção, mesmo que tudo fosse apenas corredores cheios de portas para apartamentos, você o abandonaria num elevador sozinho?

Mesmo que não houvesse risco de morte e que todos os vizinhos fossem santos inofensivos? E se ele se sentisse desamparado? Amedrontado? E se ele se sentisse abandonado? E se ele chorasse por estar longe da mãe e da avó? Você me entende? Se sim, chegamos ao ponto.

Ninguém faz isso com quem considera um igual, um ser humano, um cidadão.

Eu me peguei pensando sobre o que eu seria capaz de abandonar dentro de um elevador como aquele e acredito que a maior parte de vocês que me leem até aqui pensam como eu. Nem meus cachorros correriam risco de um fim tão cruel. Eu não teria coragem de abandoná-los ali. E sei que são cachorros. Não os humanizo.

O exemplo triste é só para dizer que no Brasil de Miguel, animais são muitas vezes mais respeitados que pessoas negras. Animais são humanizados enquanto pessoas negras são coisificadas.

Criamos subcategorias do humano. Subcidadãos, subpessoas que não merecem sequer o esforço de um abraço acolhedor, de um aconchego e de algumas palavras de carinho para que se acalmem. Sabe quando pegamos uma criança querida no colo e dizemos "a mamãe já está voltando, fica tranquilo, a tia vai ficar aqui com você. Qual o desenho animado de que você gosta? Vou ligar a televisão para a gente assistir. Senta aqui no sofá. Você quer um lanchinho bem gostoso? Vamos fazer um lanche para esperar a mamãe voltar?"

Eu sei que isso é pedir demais. Não precisava ser tanto. Bastava apenas ter aguentado o choro daquele bebê da mamãe sem colocá-lo a caminho da morte naquele maldito elevador.

O racismo é um crime perfeito. Quando ele acontece, mesmo que à luz do dia e sem qualquer cerimônia, muitas pessoas ficam com a impressão de que ele só existe dentro das mentes cruéis e perversas de algumas pessoas brancas. Isso não é verdade. O racismo está nas estruturas que deixam de pé esta sociedade. Está no ar que respiramos! Não é uma questão pessoal, de gosto, de caráter. Ser racista é quase um fim trágico da socialização que recebemos. Ou seja, não há fim possível para o racismo sem uma transformação drástica desta sociedade.

Escrevo este texto sob profunda emoção. É difícil conter as lágrimas quando olho para o meu companheiro, trabalhando na cadeira ao lado. Um homem negro que tantas e tantas vezes foi levado ao trabalho de sua mãe doméstica e cabeleireira, de seu pai serralheiro e pedreiro. Fico a pensar que ele é Miguel. Um Miguel sobrevivente. Sobreviveu às primeiras-damas brasileiras que não hesitariam um segundo antes de colocá-lo num elevador feito se coloca uma cadeira, uma prateleira, um outro objeto qualquer, abandonado à própria sorte. Ainda bem que ele não chorou. Crianças pretas não podem sequer chorar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.